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Perguntas sem Respostas:

É em nome da Paz que se faz a Guerra?

E se meus olhos úmidos secassem?



- Postado por: Neusa às 23:14:20
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Ei, de mim para comigo!

Pára com isso!

Se não não consigo ficar.

Consigo

Ficar.



- Postado por: Neusa às 23:12:54
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NHÔ PRUDENTINO

 

 

Levantava-se de madrugada todo santo dia. Coava o café, levava na cama para dona Irene, mesmo se houvessem brigado na véspera. O cafezinho da esposa era sagrado, estava acima de qualquer picuinha. Saía de casa logo em seguida, com chuva ou frio. Às seis horas da manhã transformava-se em Nhô Prudentino e começava seu programa diário na emissora de rádio local. Era o apresentador mais conhecido da região. Frente ao microfone sua timidez habitual desaparecia. Fazia os comerciais. Comentava as notícias do dia entre uma música e outra, opinando sobre política sem se preocupar com a censura da emissora ou o desagrado a algum político. Atendia também os ouvintes que interagiam com o programa através de cartas ou telefonemas. Quase sempre pediam músicas, mas outras vezes solicitavam ajuda: comida, emprego, remédio, etc...Todos eram atendidos com carinho, respeito e muita alegria. Nhô Prudentino era feliz como apresentador do programa sertanejo das seis às nove da manhã. A música sertaneja, de raiz, era sua paixão. Tocava-as na rádio e em casa ouvia sua coleção de discos 78 rotações. Defendia esse gênero musical como o melhor de todos e reclamava bastante da nova mania musical que surgia: o iê-iê-iê. Criticava a falta de conteúdo das letras, os cabelos compridos dos intérpretes, o ritmo importado e o som da guitarra, estridente para seus ouvidos. Não era preconceito, apenas sua postura frente á novidade que surgia. E os conjuntos musicais começavam a proliferar, brotando até mesmo nas minúsculas cidades do interior. Em Iepê, cidade vizinha, fazia sucesso o conjunto “Os Bambas”. Nhô Prudentino tinha morado lá e conhecia os garotos que procuravam uma chance de se apresentar na cidade maior. Ele decidiu que ajudaria os músicos, mas não abriria mão de suas convicções musicais. Programou um show no auditório da emissora, onde haveria a competição “Viola versus Cabeludos”. Convidou as melhores duplas sertanejas para participar do desafio, o que desagradou às filhas, evidentemente fãs do iê-iê-iê. Mas Nhô Prudentino era muito justo: convidou os jovens cabeludos para jantar em sua casa, ainda que isso o deixasse preocupado, com ciúmes das filhas. Mesmo assim ofereceu-lhes um jantar de primeira, onde dona Irene caprichou nos pratos e na arrumação da mesa, tratou-os como hóspedes cinco estrelas, mas advertiu: “cuidado, as violas são boas demais e vocês terão que se desdobrar para ganhar a competição”. E lá se foram todos para o show: a família, os músicos e seus instrumentos. Os garotos provaram que realmente tinham talento: conquistaram o público, superaram as violas, ganharam o coração das jovens do auditório e também o prêmio de melhores da noite. Nhô Prudentino não se converteu ao novo ritmo, porém deixou de criticá-lo tanto e chamava os músicos dos Bambas de “jovens talentosos”. Porque ele era assim: firme nas suas convicções, porém aberto aos que precisavam de ajuda para se iniciar no mundo artístico. Continuou apresentando seu programa, acordando cedinho e levando o café na cama para dona Irene. Até o dia em que o telefone tocou no início da madrugada em sua casa: avisavam que havia começado um incêndio na rádio. A família toda correu para lá. Junto com outros  moradores assistiram a rápida destruição do prédio e toda história musical que ele abrigava. Foi em vão a tentativa de se pegar água nas casas vizinhas e jogar nas chamas. O fogo destruiu tudo em pouquíssimo tempo, deixando em pé tão somente as paredes da Rádio Clube Marconi. Naquela noite uma parte da alma de Nhô Prudentino também virou cinzas, misturada às ruínas da emissora.

 



- Postado por: Neusa às 21:22:36
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 O FOTÓGRAFO

 

           

Ele era o fotógrafo oficial (e o único) da cidade. A máquina sobre o tripé no quarto à meia-luz e as lâmpadas fortes para bater as fotos formam até hoje um quadro em minha memória.Bom mesmo era o quartinho, ainda mais escuro, usado para as revelações das fotos. Cheio de mistérios e segredos. Todo o processo era amador, improvisado e manual. Talvez por isso mesmo meu pai ficasse tenso e irritado a cada sessão de fotografias. Não podíamos sequer chegar perto do quartinho de revelações, mas ficávamos à espreita na hora das fotos, fossem elas quais fossem.

Num sábado a tarde, desses que todos procuravam o “seu” Valentim para as fotos de aniversários, casamentos, batizados, bodas, etc, estávamos lá de plantão para as sessões de fotos, imóveis e silenciosas todas as irmãs, conforme ordens de meu pai. Também estava presente uma tia, irmã de minha mãe, que viera passar uma temporada conosco para se restabelecer. Sofria dos nervos e o médico recomendara passar alguns dias num lugar tranqüilo e calmo. E qual lugar melhor que a nossa casa, cheia de gente alegre e feliz, numa cidade pequena e pacata? Pois bem, minha tia ficou nesse sábado á tarde sentadinha numa cadeira do salão de fotografias, olhando meu pai trabalhar e conhecendo os clientes que ali chegavam.

De repente, não mais que de repente, chega um cortejo fúnebre e vai entrando pelo quintal de nossa casa e se dirigindo para o salão de fotos. Era costume, na época, tirar um retrato da pessoa falecida dentro do caixão mortuário. Desta vez era um caixão azul, “de anjinho”, uma criança de aproximadamente sete anos. Nós, irmãs, já estávamos acostumadas a isso, mas minha tia não. Quando o cortejo entrou no salão, imediatamente o caixão foi colocado sobre uma cadeira bem ao lado de minha tia e tiraram a tampa. A tia, ao ver a cena rápida e chocante, deu um grito de susto e desmaiou. Todos deixaram o menininho morto e correram para acudir minha tia. Meu pai ficou irritadíssimo com a confusão que atrapalhara seu trabalho. Mal esperou a tia voltar a si com o álcool que lhe deram para cheirar e passou-lhe o maior “pito” que já ouvíramos de sua boca. Minha tia chorou de raiva, vergonha e medo, pediu desculpas a todos e foi para dentro de casa.

No dia seguinte acordou alegre, cantando, disse que se sentia muito bem por estar viva e conosco. O tratamento de choque, meio acidental, foi eficiente ao extremo. Até hoje, passados 45 anos, nunca mais teve qualquer crise nervosa.

 

 

 



- Postado por: Neusa às 21:21:34
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BEIJA-FLORES

 

Vim morar em São Paulo em 1977. Trouxe as malas e os sonhos para a cidade dos contrastes: dias quentes e noites frias, pessoas frias e gente amiga. Vivo até hoje essa relação de amor e ódio. Amo a vida que aqui pulsa mais forte e me revolta ver as cenas de destruição física e moral com que às vezes me deparo. Aprendi, porém a conviver com a dualidade e os contrastes. Aqui encontrei trabalho, amigos, constituí família e finquei profundas raízes. Muitas vezes minha alma se eleva até os mais altos prédios, quase chegando às nuvens. Lá em cima abro a mala dos sonhos e viajo uma cidade serena, sem traumas e sem carências, um lugar de paz e natureza, flores e almas puras. É quando amo esta terra. Mas o descer dos sonhos é triste, a realidade sufoca. A alma se encolhe e volta aos pés, na busca por caminhos mais suaves.

Nesses altos e baixos, uma dessas manhãs me surpreende. Abro o portão e vou conferir a árvore que plantei na calçada. Um arbusto, ainda, que precisa de cuidados para sobreviver às tempestades, aos animais e ao bicho-homem. As folhas estão verdinhas, tem ramos novos despontando. E vejo algo estranho, semelhante a um ninho de pássaros. Um ninho, nessa arvorezinha minúscula, que mal pode se cuidar sozinha? Como conseguirá abrigar ninho, ovos, pássaros? Enquanto pensava, o beija-flor se aproximou receoso, com um raminho seco no bico. Afasto-me para que ele se sinta tranqüilo e confirmo minha suspeita: é mesmo um ninho de beija-flores! Saio discretamente, lamentando o local escolhido pelos passarinhos: ali não há condições para se procriar!

Os beija-flores, porém, não pensavam como eu. Construíram seu ninho com tenacidade e apuro. Via-os a cada manhã e a cada final de tarde, olhava-os com respeito e ficamos amigos. Já não se assustavam com a minha presença. Todas as manhãs me saudavam com seu canto que só cessava com minha chegada até a arvorezinha para inspecionar o ninho. Numa dessas manhãs vi o primeiro ovo. Depois o segundo, e até um terceiro. E a mamãe-beija-flor tranqüilamente chocava  seus ovos enquanto o papai dava os últimos retoques no ninho.

Chegou o dia do nascimento.Os beija-flores fizeram tanta algazarra de manhã que antecipei minha visita: lá estavam os três filhotinhos – pelados, sem sequer uma penugem, os biquinhos abertos esperando o alimento trazido em seguida pelo pai. Meu senso de responsabilidade aumentou: tinha que proteger a árvore, os pássaros e sua cria. Meu maior medo eram os gatos que passeavam a noite pelas ruas e não perdiam qualquer chance de alimentar-se.

Porém o perigo era maior: a tempestade! Chegou numa noite, de surpresa. Ouvi os trovões, o assobio do vento e já os grossos pingos batendo no chão, na cobertura da garagem, nas plantas, nas árvores. Não tive tempo de fazer a única coisa que me passou pela cabeça: cobrir a árvore com lona plástica. A chuva caía cada vez mais forte e na mesma proporção aumentava minha angústia. Acabei dormindo.

Na manhã seguinte pulei da cama com um único pensamento: os filhotes sobreviveram? Corri até a arvorezinha e vi o ninho no mesmo ramo frágil onde fora feito. Vi também a mãe-beija-flor placidamente acomodada no ninho. Acerquei-me e pude ver a cabecinha de um filhote, depois o outro e o outro...Meu coração sorriu: os pássaros e a  árvore  foram os vencedores daquela noite. Cumprimentei-os, orgulhosa, pela coragem e resistência. Com essa vontade de viver e vencer, os filhotes foram crescendo. Ganharam penugem, depois as primeiras penas. Ensaiaram os primeiros vôos. Sabia que estavam se preparando para partir, já sentia a despedida. Quando voltava para casa numa tarde encontrei o ninho vazio. As “crianças” já haviam partido. Ficamos eu e a arvorezinha, testemunhas de uma vitória improvável, mas que acontecera. Num gesto de carinho e agradecimento pousei meus dedos suavemente pelos ramos do arbusto. Fora também vitorioso!

Hoje, decorrido algum tempo, lembrar esse acontecimento me dá forças. A cidade continua me assustando, me impondo limites, mas quando sinto que vou fraquejar, que posso desistir, me visto de beija-flor e encaro as tempestades.

 



- Postado por: Neusa às 22:42:57
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NÃO ME TRAGA FLORES

 

Não volte para mim

Não me olhe como se me visse pela primeira vez.

Não me abrace, não me beije, não me deseje

Cale as palavras que pronunciou e também as que nunca foram ditas

Pare o gesto no meio do caminho, não deixe que ele se complete

Feche os olhos para que eu não veja a verdade do seu olhar

Esconda as mãos

Não quero as flores que elas trazem

As flores morrem muito cedo, ficam apenas os espinhos

Leve-os com você



- Postado por: Neusa às 22:39:28
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HOMEM FERIDO

 

Sol forte, inclemente, rachando a terra, espantando os pássaros, deixando o vilarejo mais modorrento que o habitual. Uma tarde pra se ficar dentro de casa só espiando pela janela o prenúncio da chuva que fatalmente viria. Por isso as ruas desertas, um silêncio de morte, apenas o som do vento levantando a poeira das ruas estreitas e esburacadas. A viela levava à delegacia de polícia e foi lá que se ouviu o trote do cavalo. Algumas cabeças se puseram à janela. Viram o cavalo num trotar cansado, trazendo no dorso o corpo de um homem com as roupas manchadas de sangue. Parece que o cavalo sentiu os olhares furtivos nas janelas e empacou por lá mesmo. Alguém tomou-se de coragem e foi conferir. O corpo apresentava sinais de vida. Mais gente se aproximou, ninguém com coragem de tocar no homem ou no cavalo. Um, mais corajoso, agarrou as rédeas e levou cavalo e cavaleiro até a delegacia, no que foi seguido pelos curiosos que formavam o cortejo. Nem cem metros e já chegaram ao destino. O guarda de plantão acorreu, meio que apalermado. Nada acontecia naquele lugar. Como é que se lida com um morto? Pegou o corpo, apeou-o do cavalo e viu que estava vivo. O ferimento que sangrava era de facada, isso dava pra se saber. Mandou um moleque que saracoteava por ali correr para chamar o médico e depois chamar a autoridade, o chefe da polícia. Ambos chegaram quase ao mesmo tempo, pois que tudo era perto. Seu doutor médico tirou da maleta o necessário para o curativo. Fez o ferido engolir o anti-inflamatório, e a penicilina ele injetou no braço. O escrivão percorreu com as mãos as roupas molhadas de sangue e suor até que encontrou um papel. Lá estava escrito um nome e um endereço. Era da Baixada Amarela, lugar de brigas por causa de terra. Falou isso em voz alta. Os curiosos quebraram o silêncio até então pesado e puseram-se a comentar sobre os posseiros, os grileiros, os donos das terras e as disputas sem fim. Até então ninguém morrera por causa de ter ou querer terras. Só queimavam as casas, matavam animais e destruíam plantações, mas ninguém ali morrera de morte matada. Já medicado, o ferido foi levado para uma cela vazia, se bem que todas estivessem vazias. Ficou lá para ser tratado pelo doutor já que não havia hospital na cidade. Os moradores iam lá de vez em quando visitar o homem, levar alimentos e matar a curiosidade. O homem não dizia nada, mesmo quando o ferimento já estava cicatrizando. Por milagre nenhum órgão vital fora atingido- seu restabelecimento foi rápido! Então o doutor escrivão de polícia foi conversar e interrogar o moço. Meio que irritado pelos conflitos, o escrivão tinha lá sua opinião sobre o que acontecia na Baixada, mas era coisa de gente grande e ele precisava se calar para preservar a família. Agora ele teria que agir, fazer diligência com os dois guardas da delegacia e contar com a proteção divina para saírem vivos de lá.

Começou a interrogar o ferido: nome, idade, onde morava, quem o esfaqueara e porquê. O moço, com medo da autoridade, mas com a voz segura do que dizia, confirmou seus dados pessoais. Não tinha certidão de nascimento, mas sabia até escrever seu nome inteiro, e disse que tinha trinta anos. O escrivão repetiu a pergunta sobre quem fizera e a causa das facadas, já pronto para o silêncio que sabia que se faria. Ou então, ouviria no máximo as palavras de sempre: “foi gente que apareceu lá na Baixada, gente que eu não conheço”. Para seu espanto, o homem se pôs a falar. Contou que morava com a Joaninha lá na Baixada pra mais de dois anos e que iam se casar na igreja, pra Deus abençoar. Que tinha um pedacinho de terra onde plantava feijão pra vender no Paraná e que Joaninha ajudava na roça e na venda. A mulher era trabalhadeira e bonita e os homens de lá não tiravam o olho de cima dela. E ele também não!  Foi pro Paraná, sozinho, levar a safra para vender. Vendeu logo. Voltou na mesma noite. Apeou do cavalo e viu outro cavalo amarrado no mourão. Entrou quietinho na casa. Joaninha estava na cama com outro caboclo, desses que sempre a rodeavam. O traído sentiu o sangue subir na cabeça e a faca na mão do caboclo subiu na mesma velocidade. Deu três facadas no traído, pegou Joaninha pelo braço, os dois montaram no cavalo e fugiram a galope. O ferido conseguiu se jogar em cima do seu próprio cavalo e tocou pra cidade. Era só isso.

O escrivão sentiu-se aliviado por não precisar fazer a diligência. Sentiu-se também solidário ao ferido. Mas a história empolgante, cheia de bandidos e vinganças,  que sacudira o vilarejo, teria que ser substituída por uma simples traição, coisa corriqueira naquelas bandas.



- Postado por: Neusa às 22:36:50
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O sonho acabou, mas ainda tem pão doce!

- Postado por: Neusa às 19:54:10
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O Hoje de Ontem

 

“O serviço de alto-falantes inicia suas atividades de hoje neste momento. Tenham todos um bom dia. Vamos às principais notícias e depois iniciaremos a primeira seleção musical”. Era esse o nosso único sistema de comunicação na pequena cidade do interior. O programa elaborado nas precárias instalações da velha casa era transmitido à população por três alto-falantes instalados na principal das cinco ruas do município. A seqüência era sempre a mesma: as notícias do dia, os pouquíssimos comerciais e depois as músicas de sucesso, de manhã e no início da noite. A maior audiência era nesse segundo período, onde as músicas tinham uma função especial. Os moradores se reuniam na rua principal para ouvi-las em grupos de amigos ou em família, Os rapazes tentavam conquistar as moças dedicando-lhes músicas românticas, acompanhadas por declarações gentis e ingênuas como mandava o figurino de então, declarações essas transmitidas pela voz bonita e reconhecida de seu Valentim. Os sucessos musicais de Francisco Petrônio, Carlos Galhardo, Emilinha Borba, Chico Alves, etc, eram tocados repetidas vezes: “essa música é oferecida pelo rapaz de camisa azul à linda jovem de vestido rosa, como prova de carinho”. Todos os homens de camisa azul eram suspeitos de haver oferecido a música e todas as moças de vestido rosa se sentiam homenageadas. Poucas vezes se descobria a verdadeira identidade do conquistador e da jovem a ser conquistada. O modelo de dedicatória sofria poucas alterações e o repertório de canções também era quase sempre o mesmo. Seu Valentim sabia quais eram os remetentes e os homenageados, mas de sua boca não saía uma palavra sobre o assunto.

Isso acontecia há quase meio século, numa cidadezinha de pouco mais de dois mil habitantes, semi isolada dos demais centros urbanos. Como tudo neste mundo é cíclico, vejo hoje a mesma situação se repetir, num mundo globalizado e sem fronteiras, através da internet. Quem já freqüentou uma sala de bate-papo sabe como acontece. São pessoas que não se conhecem fora do mundo virtual, mas que estão presentes num mesmo grupo ou sala. As músicas de hoje não são as que tocavam no alto-falante (até que de vez em quando uma ou outra ainda é ouvida em regravação), nem são chamadas de músicas: são Midis! E se repetem à exaustão, oferecidas ao objeto virtual da conquista, ou para “todos”, porém com destino certo e reconhecida –como se houvesse um código- pelo destinatário.Desfizeram-se os grupos reais na rua principal de um vilarejo. Hoje cada um, na solidão de seu quarto ou escritório, frente a uma máquina fria e impessoal, repete o mesmo ritual de meio século atrás. E ouve as músicas que são sucesso hoje, oferecidas à moça de nick singelo ou apelativo. E a moça também oferece a sua midi ao mocinho que de real tem apenas seu nick. O vestido rosa e a camisa azul são agora um nick e também se desconhece quem está oferecendo a midi e quem a recebe. E o seu Valentim não existe mais, e não há quem possa ser o guardião do segredo da homenagem neste mundo virtual.



- Postado por: Neusa às 19:48:55
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A Estrela  - Carlos Drumond de Andrade

 

Vi uma estrela tão alta.

Vi uma estrela tão fria!

Vi uma estrela luzindo

Na minha vida vazia.

 

Era uma estrela tão alta!

Era uma estrela tão fria!

Era uma estrela sozinha

Luzindo no fim do dia.

 

Por que da sua distãncia

Para a minha companhia

Não baixava aquela estrela?

Por que tão alta luzia?

 

E ouvi-a na sombra funda

Responder que assim fazia

Para dar uma esperança

Mais triste ao fim do meu dia.



- Postado por: Neusa às 19:39:39
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Se minha alma se vestisse de festa deixaria você mais feliz?

- Postado por: Neusa às 19:34:48
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MINHA MÃE-NATUREZA

 

 

Minha mãe fazendo canteiros, plantando e colhendo. Era a minha mãe natureza ajudando a natureza. E brotavam cenouras, alface, almeirão, vagem, repolho, milho, mandioca e os moranguinhos...Ah, os moranguinhos! Os canteiros mais lindos de nosso quintal na época de sua colheita! A horta era cercada por bananeiras, limoeiros, laranjeiras, e tinha como vizinha amais bela parreira que já conheci, sempre verdinha, coalhada de cachos de uva enormes e muito doces nos meses de verão. Era embaixo da parreira que brincávamos de boneca, casinha e de comadre. Comíamos na própria horta os legumes e verduras cultivados por minha mãe, sem agro-tóxicos, e tinham o gosto bom do amor, da pureza e da sabedoria daquelas mãos caprichosas.

O ritual do cuidado começava logo pela manhã: mal o sol nascia minha mãe regava os canteiros, arrancava os matinhos que insistiam em nascer todos os dias, retirava as folhas mais velhas das verduras e colhia o que seria preparado na refeição daquele dia. Ainda tenho na memória as cores e o sabor da comida caseira, jamais encontrados em qualquer dos restaurantes sofisticados que vim a conhecer muito depois. O verão trazia surpresas maravilhosas: as chuvas do meio da tarde faziam os cachos de uva amadurecerem num toque de mágica. Era sempre sol e chuva (casamento de viúva) coroados por um lindo arco-íris que operavam o milagre dos cachos de uva, que se eram verdes pela manhã, tornavam-se maduros após a chuva. E corríamos para debaixo da parreira , e ali mesmo comíamos os cachos maiores e mais doces, junto a um cenário de água, luz e cores.

Moramos, depois,  em várias casas e várias cidades. Não havia mais parreira, porém a horta era preparada e cultivada por minha mãe a cada nova moradia que chegávamos. Os vizinhos sempre iam buscar “um pouco de verdura” da dona Irene e elogiavam as folhas largas e verdinhas, os legumes tenros e perfeitos na forma. Mãos mágicas de minha mãe! Mãos abençoadas pela natureza!

Hoje não tem mais dona Irene. Não temos mais horta em nossa casa. Apenas guardamos na memória o sabor da infância misturado a uma grande saudade que nos provoca doces lembranças.

 

 

Neusa

12/02/2004



- Postado por: Neusa às 19:32:56
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A PERDA NA ELEIÇÃO

 

 

Era ano eleitoral, início da década de sessenta. Nas pequenas cidades do interior o voto não era assim tão democrático. Os grandes proprietários e os políticos da região reuniam os moradores de cada lugarejo para fazer todas as promessas de praxe. Transferiam gratuitamente os títulos eleitorais de um município para o outro, ofereciam transporte e refeição, mais alguma ajuda de custo, tudo que fosse necessário para que o prefeito ou o deputado amigo fosse eleito. Dia de eleição deixava as esburacadas estradas vicinais repletas de caminhões transportando famílias inteiras, fosse por troca de favores, por obediência, ou simplesmente medo do mandante da região. Havia, porém, o voto consciente, pensado e repensado. Seu Fortunato, por exemplo, não vendia nem negociava seu voto. Era fiel ao seu partido político, escolhendo o seu candidato pelas informações que recebia sobre o caráter, lisura, comprometimento com os problemas locais, etc. Funcionário público, fora transferido naquele ano para outra cidade, mas não transferira seu título nem o de sua mulher. Pela função que exercia não iria votar naquele ano, iria trabalhar. Somente dona Tereza, sua mulher, iria até a antiga cidade que moraram para cumprir o dever civil. Seu Fortunato escrevera num papel o nome do deputado escolhido e o nome do prefeito nos quais ela deveria votar. Era para copiar direitinho, não podia errar. E lá foi dona Tereza com os dois filhos pequenos, logo de manhãzinha, tomar o ônibus para o lugarejo da votação. Passou mal do estômago – sempre lhe acontecia isso nas viagens- e chegou ao destino um pouco tonta e trêmula. Agarrou os filhos um em cada mão, foi até à escola pública e à seção eleitoral. Não encontrou na carteira o papel com o nome do candidato que o marido escolhera. Começou a sentir-se ainda pior que antes. Pensou, pensou, e acabou votando num candidato a deputado cujo nome lembrava-lhe alguma coisa, talvez o nome que havia lido no papel.

Cumprida a obrigação, comprou um lanche para as crianças e tomaram a jardineira de volta para casa. Dona Tereza, talvez pela ansiedade na hora de votar, pelo medo de dizer ao marido que perdera o nome do candidato, passou mal novamente, e desta vez a crise foi feia. Por várias vezes teve que se debruçar na janela para vomitar. As crianças choravam ao ver a mãe assim tão mal e ela ficava mais nervosa ainda vendo as crianças chorando e seu estômago piorava. Um círculo vicioso. Acabou por lançar pela janela da jardineira toda a refeição do dia, a água que tomara na rodoviária, e até a sua dentadura!  Ficou tudo pela estrada. Ela só levava de volta a tristeza de ter perdido o papel e o medo da reação do marido quando contasse o acontecido. Chegou em casa e seu Fortunato estava lá, numa espera ansiosa. Perguntou se tinha votado direitinho, A mulher respondeu que não. Falou que votara no fulano de tal, o nome que mais se lembrara. O marido, para sua surpresa, concordou: “é gente boa também, foi bem dado o seu voto!”. Dona Tereza sorriu aliviada, e foi então que seu Fortunato, de olhos arregalados, gritou: “cadê sua dentadura, mulher?” Ela contou então do seu mal estar no ônibus. Mas seu Fortunato não se conteve: “o meu candidato perder um voto eu até aceito, mas minha mulher deixar seu sorriso, que foi tão caro, na beira da estrada, isso eu não vou perdoar nunca!”. Saiu de casa batendo a porta e até o fim de seus dias contava essa história como a mais lamentável de sua vida.

 

 

Neusa

12/02/2004



- Postado por: Neusa às 22:18:37
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REPÚBLICA DO TERROR

 

 

Universidades públicas têm, de praxe, estudantes morando em repúblicas. Para quem não conhece, a república é a moradia de estudantes que residem numa cidade e vão fazer o curso universitário numa outra, muitas vezes bem distantes entre si. Praticam o exercício da convivência difícil entre pessoas diferentes, de lugares diferentes, mas que a necessidade de companhia e de um “lar” acaba por criar fortes laços entre elas. Dividem a administração da casa, a mesada sempre curta e a saudade sempre grande do lar e da família. Unem-se nas suas diferenças e dividem a solidão.

Os vizinhos sempre olham com desconfiança os jovens independentes, livres do controle dos pais e bem lá no fundo de sua consciência invejam a responsabilidade precoce e, mais ainda, a liberdade conquistada.

Na pequena cidade do interior onde vivi, conheci uma república de moças de cidades da região. Eram minhas colegas de curso e também amigas. Freqüentava a casa delas e ali estudávamos com afinco (às vezes), ouvíamos música de vanguarda e a conversa muitas vezes rolava séria sobre problemas nacionais. Havia também os dias de serenata, de comida mineira, de festa junina, pois nem tudo podia ser sério o tempo todo.

Nas férias escolares todas voltavam para suas casas, menos Rosa, que além de estudar também trabalhava. Minha irmã e eu passávamos por lá todas as noites e levávamos a Rosa para dormir em nossa casa, para que ela não ficasse sozinha  durante a noite.

Uma noite esperávamos por ela na sala enquanto a amiga tomava seu banho. De repente ouvimos um grito de terror vindo do banheiro. Corremos até lá e, por mais perguntas que fizéssemos e pedíssemos que abrisse a porta, Rosa não respondia e continuava gritando. Nesse curto espaço de tempo tudo passou pela nossa cabeça e o mais provável era que ela tivesse levado um choque elétrico e estivesse com as mãos presas ao chuveiro (a voltagem era 220!).

Corri para a caixa de luz e desliguei a chave geral. Foi pior! Ficou tudo escuro e Rosa gritava ainda mais. Minha irmã, já desesperada, correu para a rua, viu um casal de namorados e pediu socorro.  O moço prontamente acorreu. Contamos em frases atropeladas o que estava acontecendo e ele foi arrombar a porta do banheiro. Não foi preciso. Rosa abre a porta, sai enrolada na toalha e eu religo a energia elétrica.  Quando Rosa vê o rosto masculino solta outro grito. Tentamos acalmá-la, vai um copo de água com açúcar e “pelamordeDeus conta o que houve”. Entre soluços, olhos arregalados, mãos trêmulas, a tolha quase caindo, ela nos conta que viu um rosto no vidro da janela espiando-a tomar banho. Era um homem, jura ela, e olha com desconfiança para o rapaz que viera ajudar-nos. Explicamos que não era ele.

O jovem, mesmo olhado atravessadamente, vai para o quintal conferir se alguém entrara ali, se havia sinal de qualquer coisa ou pessoa. Ficamos as três dentro de casa, aguardando, o coração em sobressalto. O moço volta da ronda e nos chama. Saímos para ver. Ventava muito e tremíamos pelo frio e pelo medo.

Ele, então, nos mostra o “homem”: uma máscara de carnaval, pendurada no varal não sei por que mãos, que a cada rajada mais forte do vento era jogada contra a vidraça do banheiro. O vidro ondulado distorcia a imagem que, olhada pelo lado de dentro, parecia um rosto masculino monstruoso.

Fomos dar conta da realidade cômica sufocando o riso com a vergonha da situação vexatória. Agradecemos a solícita ajuda do namorado da vizinha e praticamente o empurramos para fora da casa, o mais rapidamente possível.

Rosa vestiu-se, fomos todas para minha casa...caladas, sem ousar comentar o acontecido. Apenas nos prometemos que todo vexame sofrido não seria contado a ninguém.

Hoje, passados 28 anos, creio que Rosa me autorizaria a contar a história e com certeza daria uma bela gargalhada ao se lembrar do fato. 

 



- Postado por: Neusa às 21:21:57
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Será que nosso rascunho teve já o seu epílogo, mesmo antes da arte final?

- Postado por: Neusa às 22:30:48
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CILADA

 

Cada sílaba foi uma cilada

Me enrosquei na trama urdida

De palavras e frases, acalentada

Pelo embalo da paixão tão desmedida

 

Depois a canção tocou mais fria,

E a frase sempre interrompida

Me fez pensar que o amor já ia

Saindo aos poucos de maneira fugidia

 

Fez-se o silêncio e veio a noite.

Envolta no manto das lembranças,

Minha alma tremeu feito criança

Só e triste olhando a morte

 

Não chegou a morte. Sequer a sorte

De mais uma sílaba oscilada

Apenas o silêncio frio de um véu

Ocultando fragilmente a palavra adeus.



- Postado por: Neusa às 22:29:21
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SOFIA

 

Ela entrou na igreja e dirigiu-se ao lugar que achou melhor para a missa daquela noite. Assim que se acomodou no banco, as pessoas mais próximas foram saindo discretamente, uma a uma, procurando um outro lugar. Todos os dias era a mesma coisa. Sofia chegava e as pessoas se afastavam. Quando a missa era mais concorrida, como nos domingos ou dias santificados, não havia como ficar longe dela. Seus vizinhos de banco ficavam, então, sufocados, não vendo a hora que terminasse a cerimônia.

Sofia era um dos personagens mais conhecidos da cidade. Conhecida e reconhecida pelos andrajos com os quais se vestia e mais ainda pelo mau cheiro que exalava do corpo e das roupas. Nunca tomava banho, diziam que a mulher sequer sabia o que era isso. Sua pele encardida e manchada de sujeira acumulada comprovava o que diziam. Os cabelos desgrenhados e duros, os pés encardidos e rachados mal cabendo nos chinelos rotos eram algumas das suas características. A mais predominante, porém, eram suas roupas. Algumas vezes Sofia ganhava um vestido novo, limpo e cheiroso, e corria a vesti-lo. Ao invés de trocar o novo pelo sujo e usado, colocava-o sobre a roupa que já vestia. E assim Sofia ia ficando sempre maior, ocupando mais espaço na igreja, único lugar que freqüentava. O cheiro da roupa velha e suja passava imediatamente para a roupa nova, que logo também ficaria encardida, até que viesse um novo vestido velho.

A primeira vez que senti o cheiro de Sofia foi inesquecível. Não a conhecia. Sentei-me para a missa das crianças, no horário habitual dos domingos, e ela sentou-se ao meu lado. Devia ter perdido o horário da missa anterior e viera para o nosso horário. Olhei assustada para aquela mulher enorme, cheia de roupas, parecendo que chegara de uma longa viagem pelo deserto. Ela colocou um véu preto sobre os cabelos eriçados, tirou do bolso do vestido um terço encardido e o livrinho da missa e ali ficou, quieta e calada. Não acompanhava a missa com palavras, apenas sentava-se, ajoelhava-se ou ficava em pé conforme a liturgia. No meu olhar de criança aquela mulher era a bruxa de maior tamanho que poderia existir no planeta. Fiquei ao lado dela, mesmo com o medo que sentia, pois a curiosidade era grande e me sentia protegida na casa de Deus. Terminada a missa, perguntei sobre ela. Quem era, porque estava naquele estado: maltrapilha, desmazelada, suja e fétida. Ninguém contou a história direito, não sabiam. A única informação foi que não era uma bruxa, apenas uma pessoa que não tomava banho.

Durante anos convivi com Sofia nas missas de domingo e nas eventuais idas à igreja durante a semana. Aos poucos fui conhecendo um pouco da sua vida. Fora uma moça bonita antigamente, levando uma vida dentro dos padrões normais da sociedade. Como chegara a esse ponto não sei ao certo. Havia várias versões: perdera os pais e se traumatizara; o namorado da adolescência desaparecera e ela entrara em depressão; ficara doente e a doença tinha afetado os miolos da moça. Não havia certeza sobre a causa, apenas hipóteses -a cidade andava perdendo a memória. Ela já estava com cerca de cinqüenta anos, então havia décadas de sujeira em sua pele e sabe-se lá qual tristeza por debaixo daquelas  roupas. Um dia, fazendo um trabalho voluntário de higiene e limpeza nos bairros mais pobres da cidade, cheguei à casa de Sofia. Bati à porta sem saber que ela estaria lá dentro. Atendeu-me e expliquei a razão do trabalho. Fêz um gesto para que entrasse na casa.  Olhei rapidamente em volta: tudo incrivelmente limpo e arrumado, apesar de possuir dentro de casa o mínimo necessário para sobreviver. Era um contraste muito grande entre aquela figura grotesca, imunda, e a casinha lá dentro extremamente limpa, como se fosse cuidada diariamente por mãos caprichosas. Tentei conversar, mas ela não respondia. Perguntei se podia olhar a casa à procura de barbeiro ou outros transmissores de doença. Ela acenou que sim. Não havia armário de roupas pessoais, apesar das toalhinhas de crochê cuidadosamente colocadas sobre uma mesinha e um criado-mudo. Em cima deste móvel havia um porta-retrato antigo, com a foto de um homem parecido com astro de cinema. Perguntei se era seu pai. Acenou negativamente. Seu irmão? Outro aceno negativo. Arrisquei, na curiosidade de adolescente: -Namorado?  Não houve resposta. Apenas o gesto de prender entre as mãos a fotografia, levá-la ao peito e ficar com seu tesouro preso ao corpo, com medo que mãos e olhares desconhecidos pudessem tomá-la de si. Respeitei seus segredos e pus-me a fazer o trabalho que me levara até lá. Não havia nada a fazer pela casa, apenas sua proprietária precisaria tomar um banho, mas não me aventurei a tanto. Seria uma invasão muito grande de privacidade. Saí da casa um pouco aturdida e desapontada, encaminhando-me para a próxima visita.

Alguns anos se passaram, eu já morando em uma cidade vizinha àquela, e ouço na lanchonete da faculdade onde estudava alguns colegas falando da morte de uma tal Sofia. Como eram moradores da mesma cidade onde conheci aquela Sofia, perguntei sobre o acontecido. Contaram que ela recebera a visita de um senhor muito distinto, todo cheio de boas maneiras, que pouco se demorara com ela. Naquela noite Sofia morreu e só foram descobrir no dia seguinte, quando os vizinhos estranharam a casa fechada até as nove horas da manhã.  Encontraram a mulher deitada em sua cama, com roupas limpas, seu corpo também lavado e perfumado, os cabelos limpos e penteados. Parecia pronta para ir a um passeio. Ninguém sabia dizer se o homem distinto que por lá passara a convencera a tomar banho e se arrumar (e isto teria feito grande e súbito mal à sua saúde), ou se essa pessoa seria um anjo transformado em homem, que descera à Terra para levar Sofia, linda e perfumada, para morar com Deus.



- Postado por: Neusa às 22:26:51
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MARIA MUDA

 

 

Maria nunca falou. Desde que apareceu na cidadezinha na barranca do rio Paranapanema ninguém a ouviu dizer uma única palavra. sequer qualquer som saíra da sua boca até então. Mas vinha para a cidade todas as manhãs de sábado, sacolejando em sua carroça nas ruas esburacadas pela enxurrada das chuvas abundantes por aquelas bandas. Vendia queijos, coalhada e mel. Bem feitos, diga-se de passagem. E todo sábado, com sol ou chuva, com frio ou calor, lá vinha ela na sua carrocinha velha, por uma mula também velha e de olhar mais triste que qualquer mula.

Maria não precisava bater palmas ou bater à porta das casas. Parava sua carroça na esquina e as donas de casa já corriam, com as crianças enfileiradas atrás delas, e logo iam levantando os alvos panos de prato que cobriam as guloseimas. Cada peça à venda tinha um número: dois, três ou cinco, dependendo do tamanho – era esse o preço de cada coisa, e era sempre o mesmo pois naquele tempo não haviam inventado a palavra inflação. Também não havia luz elétrica, portanto ninguém tinha geladeira (era a socialização do calor). Então se comprava o suficiente para uma semana e no sábado seguinte repunha-se o estoque. Maria era parte do comércio como o eram o seu Diogo do armazém, o Zé do açougue, o seu João da farmácia e o bar do Armando, este último tanto servindo de nome do estabelecimento como do proprietário. Concorrência não tinha: só cabia uma loja de cada ramo na pequena cidade de dois mil habitantes.  Mas a Maria do queijo era a comerciante mais esperada e também a mais comentada. Nunca faltava ao ponto de venda. Com as roupas simples, impecavelmente lavadas, lenço estampado cobrindo toda a cabeça, a pele enrugada pelo sol, não tinha sequer idade. Poderia ter trinta ou sessenta anos, tudo lhe cabia. Sabia-se apenas que morava num sítio perto do Jaguaretê – alguém tinha visto sua carroça por lá. O nome também podia não ser esse. Vinha pintado na carroça, em letras garatujadas a cal. Podia ser o seu nome, mas também podia ser o nome da mula, quem saberia dizer? Na dúvida, referiam-se a ela como Maria-muda, pois que ouvir ela podia, respondendo sempre com gestos.

Curiosidade em cidade pequena é que nem praga de plantação: vai aumentando, aumentado sempre...E surgiam as mais variadas histórias sobre a origem da mulher e sua mudez. A versão mais aceita dizia que ela morara do outro lado do rio e que um dia foi pega pelo saci. Naquelas bandas sempre alguém topava com o saci, o lobisomem, a mula-sem-cabeça. E Maria teria sido atacada pelo saci, que lhe revirara a carroça, jogara os queijos e o mel no chão e ainda lhe queimara os cabelos com o cachimbo. Maria teria ficado pasmada, e desde então nunca mais falou nem seu cabelo cresceu. Virou muda e careca.  Virou a Maria-muda, passou para o outro lado do rio, onde não tinha saci, só chupa-sangue, mas esse se matava com veneno forte.  Ajeitou-se no sítio, não se sabe com que dinheiro (também dizem que foi presente do compadre Liu, mas nunca ficou provado), e com algumas vacas, as abelhas que ali moravam, e a mulinha velha, sobrevivia  dignamente.

Um dia ela quebrou o ritual e foi o maior bafafá na cidade. Apareceu sacolejando na carroça, mas desta vez acompanhada na boléia por um molequinho sarará, muito do esperto e falante. Respondeu o menino à quase mil e trezentas perguntas, mas se perguntassem coisas da Maria-muda ele dizia com firmeza: Sei não, senhora. Só se ficou sabendo que ele tinha dez anos, era sobrinho de Maia, e estava ajudando a tia porque ela estava empalamada, com nó nas tripas. Durante algum tempo vieram os dois, tia e sobrinho, mas todos ainda questionavam o parentesco, não acreditando muito na história. O moleque poderia ser filho do saci, quem se atreveria a negar em sã consciência?

Chegaram as chuvas de novembro, fortes, deixando nas margens das ruas as marcas das enxurradas. E naquele mês, ainda no primeiro sábado, o moleque sarará apareceu sozinho. –Cadê a Maria-muda? – Ta em casa, cuidando do nó nas tripa, mas tá curada da mudeza. – Como assim, curada da mudeza? Ele contou que na última viagem, quando voltavam, o saci pulou na frente da carroça e ficou parado, olhando para Maria. E que de repente ela falara, com ódio na voz e tom de ameaça: Foi tu, bicho, ruim! Vai desfazê agora o que tu fez ou eu te jogo a mardição do home do saco! Ta aqui na garrafa! Parece que o saci se arrepiou, prometeu que nunca mais voltava e que ela ia ficar de cabelo comprido, pois falar já falava. Desfez o que tinha feito, palavra de saci, e saiu em carreira desabalada, esquecendo o cachimbo na carroça.

Ninguém jamais soube o que era a maldição do homem do saco, nem a Maria-muda apareceu mais por lá, nem o moleque sarará. Mas no bar do Armando há quem jure que ela ganhou uma linda cabeleira, foi pra cidade grande e virou famosa cantora de música sertaneja, dessas que tanto se ouvem nas rádios.

 



- Postado por: Neusa às 22:23:58
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PONTO  DE  INTERROGAÇÃO

 

Acordei e não me encontrei

Pus-me a me procurar

Nos vãos da escada, na maré cheia,

Nos ninhos dos beija-flores,

Entre os lençóis, no pé de meia.

 

Nada de mim em qualquer canto.

Não me reconheci sequer no espelho

Desconheci aquela cara de espanto

Nem eram meus aqueles olhos vermelhos.

 

A chuva cantava igual,

Regando plantas e lavando almas

Limpou até o pecado original

Mas não me abriu o caminho da calma.

 

O cheiro da relva molhada determinou

Que me lembrasse, enfim, quem sou,

Onde estou, onde tudo começou e terminou:

-esqueci-me no seu ninho, onde você me criou.

 

Neusa/ 26/12/2003



- Postado por: Neusa às 22:30:03
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BATALHA

 

 

Digo não por medo do sim

Me fecho com chave e corrente

Piso a camélia e o jasmim

Não posso deixar semente

 

É primavera –a primeira

A romper depois da ausência

De brotos, folhas, sementeira-

E chega marcando presença

 

Na luta com a estação

Reforço tranca e tramela

Tranco o amor e o coração

Que já espiam na janela

 

A primavera venceu

Entrou sorrateira pelo vão

Do descuido da ilusão

Fecundou a alma: pobre eu!

 

 



- Postado por: Neusa às 22:27:32
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SONHO

 

Você voltou. Ouvi seu passo,

Senti seu abraço, seu calor.

Você e eu: nós outra vez! Que faço?

Calei-me surpresa. Meu amor?

 

Conferi todos os detalhes

Do seu corpo os entalhes

Dos seus gestos a memória,

Do seu sabor a história.

 

Ensaiamos os passos do amor

-não perdemos o compasso-

foi ontem a despedida, só dor,

e o reencontro hoje foi laço.

 

Mas tudo se fez silêncio outra vez

Te toquei e não te encontrei

Te chamei, gritei, não te alcancei.

Tocou o relógio. Acordei. Só sonhei!

 

 



- Postado por: Neusa às 22:01:56
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PEDIDO DE CONCORDATA

 

Meritíssimo Juiz:

 

Peço a Vossa Excelência que se digne conceder Concordata Preventiva ao meu cliente, residente no corpo de uma mulher. Relato aqui os fatos que o levaram a essa situação extrema, para que V.Excia. possa avaliar as causas e julgar o mérito do pedido.

O meu cliente, doravante denominado Coração, esteve fechado para balanço durante longo período. Descobriu que seu estoque de ilusões, mágoas, solidão, estava muito alto. Desfez-se dos mesmos e adquiriu novos produtos, com maior valor de mercado: alegria, esperança, sonhos, e muito, muito amor. Havia encontrado, em seu caminhar, uma alma gêmea que se interessou pela qualidade dos sentimentos. Eram de primeira linha, e Alma Gêmea estava há tempos procurando sentimentos de boa qualidade. Coração resolveu, então, investir mais e mais nesta parceria. Aumentou significativamente seu estoque dos produtos supracitados e ainda produziu alguns de raridade comprovada: sinceridade, fidelidade, respeito e entrega total. Nomeou Alma Gêmea como depositário de todos os seus sentimentos, Ficou acordado que várias moedas poderiam ser utilizadas na parceria, sem datas previamente combinadas, e que seriam:: afeto, carinho, ternura, paixão, podendo elas ser utilizadas indistintamente, tendo sempre a mesma paridade.

Decorrido algum tempo, Alma Gêmea decidiu que não precisava mais dos sentimentos do meu cliente –Coração. Este, por sua vez, havia aumentado a escala de produção dos sentimentos já mencionados e não poderia entregá-los a outros interessados, visto que eram sentimentos produzidos especificamente para Alma Gêmea. Esta também já não entregava as moedas combinadas. Ficou, assim, o Coração estocado de sentimentos sem destino, desprovido da matéria prima que esperava receber de Alma Gêmea. Começou também o Coração a ser invadido por sentimentos negativos: saudade, tristeza e desilusão. Veja, Excelência, que não houve má-fé na produção e no estoque. Houve, sim, excesso de investimento numa parceria desigual.

Venho, portanto, requerer que Va. Excia. se digne conceder o prazo legal para que meu cliente Coração se adapte à nova situação e consiga liberar-se dos sentimentos excessivos. Está o Coração ciente de que, decorrido o prazo legal e não conseguindo  reestruturar-se, terá decretada sua Falência e todos os seus sentimentos serão confiscados, nada podendo mais recuperar. Ficará vazio para sempre, não podendo jamais voltar a exercer atividades sentimentais ou produzir qualquer sentimento relacionado ao Amor.

Aguardamos o deferimento da Concordata Preventiva, considerando que Alma Gêmea poderá, ainda, retroceder e reconsiderar sua decisão. Tal fato não acontecendo, Coração arcará com as conseqüências de uma Falência decretada.

 



- Postado por: Neusa às 22:00:42
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A CASA DA CHUVA

 

Cidadezinha do interior de São Paulo, já na barranca do rio Paranapanema, tinha suas casas espalhadas pela encosta do morro. Na década de 50, criança de seis anos, eu morava ali e fazia da pequena cidade todo o meu mundo. Infância feliz de menina do interior, brincando livremente pelas ruas e quintais, colhendo maravilhas na hora do pôr do sol e escorregando pelos morros de serragem como se esquiasse nos Alpes.Tudo era precário e rudimentar: energia de gerador, água tirada do poço, ruas sem calçamento e esburacadas nas margens pela erosão das chuvas sempre torrenciais no verão. O pão nosso de cada dia era feito em casa e lá mesmo criávamos as galinhas para termos ovos e carne nas refeições.

Ficava encantada mesmo era com a natureza exuberante, tanto nas matas e rios próximos quanto nas tempestades que faziam o dia virar noite num piscar de olhos. Essas me proporcionavam um espetáculo maravilhoso e sempre me punha a admirá-lo. Até o dia em que a mulher entrou em minha casa, numa tarde quente de verão.  Era a professora primária, a enérgica mestra que ensinava com a autoridade da régua e dos puxões de orelha. Era meu único medo, e um medo desmedido. Parecia enorme, seus cabelos negros caíam pelas costas como o manto de Mandrake, e não duvido que num acesso de fúria fizesse com que seus discípulos desaparecessem. Sentou-se à mesa, empertigada, colocando a inseparável sombrinha na cadeira de minha mãe. O café coado na hora foi servido e o primeiro trovão soou no momento em que ela sorvia o primeiro gole da bebida. Deu um grito meio desajeitado mas continuou a tomar seu café e comer o pão recém saído do forno a lenha. Repentinamente escureceu, os raios riscavam o céu, os trovões rugiam e o vento forte que se aproximava levantou uma cortina vermelha no horizonte. O que parecia um lindo espetáculo foi cortado pelo grito da professora: “Meus Deus! Meu Deus!”.  A severa, autoritária e assustadora mestra encolhia-se num canto da sala, agarrada à sua sombrinha, os olhos arregalados de pavor, e naquele momento me parecia a criatura mais frágil que existisse sobre a Terra.

Se a poderosa e enorme mulher estava assim amedrontada, alguma coisa eu também deveria temer, pensei com meus botões infantis. E pela primeira vez comecei a sentir o que era o medo. Sob ordens ditas com voz trêmula ela fez com que todos os espelhos fossem cobertos, todos os objetos de ferro ou aço guardados sob cobertores, para que nada atraísse um raio ou uma faísca que fosse. Mal se fez isso e o vento que se anunciava soprou tão forte que quase levou a casa pelos ares. O susto foi maior ainda quando a professora gritou: “Valha-me Deus, é o fim do mundo que apavorante se aproxima!”. Sentei-me, paralisada de medo. Se a mestra disse que era o fim do mundo, então estava tudo acabando, mesmo. Espiei pelo vão da janela e confirmei a suspeita: chovia granizo dos grandes, daqueles que normalmente eu gostava de ir buscar e, depois de lavados, levava à boca para sentir o gosto do gelo. Mas naquele dia, não!!! Era o fim do mundo, porque eu iria contrariar o plano de Deus? A professora fez mais um comentário: “Vamos morrer soterrados pelo gelo!”.

Desatei a chorar, corri para os braços protetores de minha mãe, achando horrível o mundo se acabar tão perto e antes do Natal.

De repente o silêncio imperou. Não tinha mais trovão, nem vento, nem granizo. Apenas a chuva caía forte, mas calma. Ninguém disse uma palavra. Uma de minhas irmãs abriu a porta e pudemos ver o arco-íris mais belo de toda a vida, juntamente com o sol que ia se mostrando entre as nuvens mais atrasadas da tempestade.

A professora levantou-se, tomou sua sombrinha e despediu-se de nós, meio que decepcionada porque a vida continuava.  A partir desse dia passei a temer os temporais, mas a assustadora mestra nunca mais me fez tremer.



- Postado por: Neusa às 21:57:41
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ACORDALICE

 

Não viu que a festa acabou

O barco partiu

O tempo passou

E a roseira não floriu?

 

O trem apitou,

Alguém agitou um lenço

Você nem olhou pra dentro

Para conferir o sentimento.

 

O barco partiu, o trem se foi...

silêncio!

A roseira secou, a dor floriu.

 

Acordalice, você não sonhou!

Tudo acabou

O tempo parou! 



- Postado por: Neusa às 21:53:52
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CANTO DE DESPEDIDA

 

Um quadro sem moldura numa noite escura

Um quarto vazio só restando a procura

Das mãos que se fecharam

E dos sonhos que acabaram

 

Sigo nessa paisagem morta

Recolhendo o que sobrou da fantasia

Sob o lençol escondo a dor que corta

Pela janela jogo a flor daquele dia

 

Troco as cores das paredes

Vestindo-as no azul da solidão

Teço em tramas tortas nova cortina

Em pontos de cruz, símbolo da paixão

 

Despejo do armário os sentimentos

Amarrotados da desilusão

E me desnudo de qualquer razão

Dormir ou ceder: uma opção!



- Postado por: Neusa às 21:51:26
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O Hoje de Ontem

 

“O serviço de alto-falantes inicia suas atividades de hoje neste momento. Tenham todos um bom dia. Vamos às principais notícias e depois iniciaremos a primeira seleção musical”. Era esse o nosso único sistema de comunicação na pequena cidade. Do interior. O programa elaborado nas precárias instalações da velha casa era transmitido à população por três alto-falantes instalados na principal das cinco ruas do município. A seqüência era sempre a mesma: as notícias do dia, os pouquíssimos comerciais e depois as músicas de sucesso, de manhã e no início da noite. A maior audiência era nesse segundo período, onde as músicas tinham uma função especial. Os moradores se reuniam na rua principal para ouvi-las em grupos de amigos ou em família, Os rapazes tentavam conquistar as moças dedicando-lhes músicas românticas, acompanhadas por declarações gentis e ingênuas como mandava o figurino de então, declarações essas transmitidas pela voz bonita e reconhecida de seu Valentim. Os sucessos musicais de Francisco Petrônio, Carlos Galhardo, Emilinha Borba, Chico Alves, etc, eram tocados repetidas vezes: “essa música é oferecida pelo rapaz de camisa azul à linda jovem de vestido rosa, como prova de carinho”. Todos os homens de camisa azul eram suspeitos de haver oferecido a música e todas as moças de vestido rosa se sentiam homenageadas. Poucas vezes se descobria a verdadeira identidade do conquistador e da jovem a ser conquistada. O modelo de dedicatória sofria poucas alterações e o repertório de canções também era quase sempre o mesmo. Seu Valentim sabia quais eram os remetentes e os homenageados, mas de sua boca não saía uma palavra sobre o assunto.

Isso acontecia há quase meio século, numa cidadezinha de pouco mais de dois mil habitantes, semi isolada dos demais centros urbanos. Como tudo neste mundo é cíclico, vejo hoje a mesma situação se repetir, num mundo globalizado e sem fronteiras, através da Internet. Quem já freqüentou uma sala de bate-papo sabe como acontece. São pessoas que não se conhecem fora do mundo virtual, mas que estão presentes num mesmo grupo ou sala. As músicas de hoje não são as que tocavam no alto-falante (até que de vez em quando uma ou outra ainda é ouvida em regravação), nem são chamadas de músicas: são Midis! E se repetem à exaustão, oferecidas ao objeto virtual da conquista, ou para “todos”, porém com destino certo e reconhecida –como se houvesse um código- pelo destinatário.Desfizeram-se os grupos reais na rua principal de um vilarejo. Hoje cada um, na solidão de seu quarto ou escritório, frente a uma máquina fria e impessoal, repete o mesmo ritual de meio século atrás. E ouve as músicas que são sucesso hoje, oferecidas à moça de nick singelo ou apelativo. E a moça também oferece a sua midi ao mocinho que de real tem apenas seu nick. O vestido rosa e a camisa azul são agora um nick e também se desconhece quem está oferecendo a midi e quem a recebe. E o seu Valentim não existe mais, e não há quem possa ser o guardião do segredo da homenagem neste mundo virtual.



- Postado por: Neusa às 22:45:56
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Ah,  São Pedro,  tenha  pena  de  São Paulo!!!!

- Postado por: Neusa às 18:17:52
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