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FOME

 

           

Na maldita pressa que nos invade todos os dias, não observamos detalhes tão ricos que se apresentam escancaradamente aos nossos olhos. Claro que nem sempre é culpa apenas da pressa. Muitas vezes temos medo de olhar, outras nos recusamos a ver cenas tristes ou chocantes. É mais fácil virar o rosto para o outro lado. Algumas ruas de São Paulo apresentam contrastes violentos. Basta andar devagar, ter os olhos atentos e querer ver. Fiz isso um dia desses, com o objetivo de tão somente enxergar o que a pressa nem sempre me deixa perceber.  Caminhei cerca de dois quilômetros olhando as pessoas e os fatos com atenção. As senhoras e os senhores da alta classe desciam dos seus carros rapidamente, entravam numa butique ou num restaurante sem sequer olhar para os lados. O veículo ficava com o manobrista, que também só tinha olhos para as coisas da sua função. Na mesma calçada onde desciam as apressadas e elegantes senhoras e também passavam a passos largos os executivos engravatados, muitos mendigos, sentados, pediam esmolas: mulheres com crianças ao colo, maltrapilhas e maltratadas, com seu olhar de súplica; homens rotos e esfarrapados, com seu olhar de alheamento e a mão estendida aos passantes; um garoto esquálido, que tocava no braço de quem fosse possível, pedia um real para o remédio. As pessoas passavam por eles indiferentes, virando o rosto como a dizer que não viam ou que não era nada com elas. Fui também abordada por todos eles. Comprei alguns pacotes de biscoitos na loja mais próxima e refiz o caminho, entregando a cada mendigo um pouco do que poderia melhorar seu dia. Claro que não resolveria o problema, mas se todos se abstivessem de sequer olhar, o que seria dessa gente excluída, sem presente e sem futuro? Estava pensando nisso quando meus olhos foram atraídos por algo mais chocante ainda: um mendigo, dos mais esfarrapados e sujos que já vira, debruçava-se sobre um cesto de lixo pregado ao poste de luz.  Não só se debruçava, praticamente entrava dentro do cesto. Parei e fiquei observando à distância: o homem revirava o lixo, ia pegando restos de comida e levando à boca. Fui acompanhando sua viagem, lixo por lixo. Comia tudo que pudesse ser levado à boca. Lambia os papéis e os palitos dos sorvetes que outra pessoa já chupara, fazendo o mesmo com as embalagens de outros alimentos; bebia as sobras de café dos copinhos descartáveis e o resto das latinhas de refrigerantes, tudo com a avidez dos famintos de longa data. Não me contive e o abordei. Perguntei se aceitava um pacote de bolachas. Olhou-me incrédulo, sem nada dizer, mas estendeu a mão para receber a oferta. Perguntei também porque não pedia comida ao invés de revirar o lixo à procura de sobras. Com muita dignidade e um certo orgulho na voz ele me disse, apontando os mendigos sentados na calçada: - assim eu faria concorrência; eles precisam mais de ajuda do que eu!

A vida continuou: os mendigos da calçada estendendo suas mãos, o homem dos cestos de lixo prosseguindo em sua jornada. E as outras pessoas, privilegiadas pela sorte, continuaram a transitar pela calçada, indiferentes ao drama tão próximo, virando o rosto para a fome e a miséria.

 



- Postado por: Neusa às 22:57:53
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Touro, a ti Eu dou o poder de transformar a semente em substância. Grande é a tua tarefa, e requer paciência, pois tens que terminar tudo o que foi começado, para que as sementes não sejam dispersadas pelo vento. Não deves, assim, questionar; também não deves mudar de idéia no meio do caminho dos outros para execução do que te peço. Pra isso, Eu te concedo o dom da Força. Trata de usá-la sabiamente!"

(Martin Schulman - Numa Manhã de Criação) - trecho extraído da íntegra, publicado no blog COLCHA DE RETALHOS, de minha irmã Angela. Obrigada, maninha!!!!



- Postado por: Neusa às 20:14:40
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" Em pleno outono a gente fica mais sentimental.

  As folhas caem com o vento, é meio de ano...

  Esfria o tempo e a gente necessita de calor humano.

  É outono, vamos ficar juntos nesta estação."

 

(jingle da Rádio Bandeirantes, década de 70)



- Postado por: Neusa às 19:52:41
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Tempo dos Nossos Sonhos

 

Mil palavras escritas. Todos os dias e noites.

O sem fim dos sentimentos. O perder-se em contas

Dos dias vazios, sem sentido, sem você.

Não sei se estou chorando ou se estou sangrando.

 

Não sei se vivo o passado ou o presente.

Preciso me despir de lembranças, alianças,

De histórias mal vividas, só sonhadas,

E viver o hoje, a solidão, o ser só, mais nada.

 

No tempo dos nossos sonhos tudo foi mágico:

Havia deuses e anjos. Sintonia, sinfonia, estrada.

Hoje vejo as sombras claramente, o acordo tácito

Mas implícito: esquecer você – mais nada!



- Postado por: Neusa às 18:08:05
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Tempo e Estações

 

Houve o tempo do vazio e do fechamento

Olhar mudo, lábios cerrados, corpo esquecido.

Inverno longo, flores caídas, vazio o tempo

De dias a correr e a escorrer sem um sentido

 

Intervalo. Tocou a música improvável,

Inesperada. Sem anúncio prévio, mas sonhada.

Despertou o corpo, deu luz aos olhos, tirou-lhes o véu.

E as palavras jorraram inventadas, recriadas.

 

Vieram as flores e os passarinhos.Criou-se o tempo

Do amor, do despertar, do fruto colhido no momento certo.

Fez-se o ninho, criou-se o alento

E o estranho hábito de amar de amar e ter vivido.

 

Tempo é cíclico. Voltam as estações.

Voltou o inverno -denso, implacável.

Tampouco a primavera fez milagres:

Só brotaram as antigas desilusões.

 

 



- Postado por: Neusa às 17:59:26
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RAUL

 

Quando conheci Raul ele era uma criança com quase dois metros de altura. Não saberia precisar a sua idade: 15 ou 25 anos. Tinha a inocência de uma criança e às vezes a malícia de um adolescente que descobre a vida. Seu corpo desenvolveu-se como o de um grande homem, mas sua mente continuava a de um menino. Era um Peter Pan às avessas. Conhecia todos os moradores da cidade, conversava com todos, ajudava no que fosse necessário e estivesse ao seu alcance. Naquela época o lixo doméstico era colocado em grandes latas nas calçadas. O caminhão da prefeitura passava todas as tardes, o lixo era despejado na carroceria e as latas devolvidas às calçadas de maneira apressada e desajeitada. Raul acompanhava, a pé, o caminhão e corrigia a colocação das latas, às vezes jogadas no meio da rua, outras vezes amontoadas em três ou quatro sobre as calçadas. Colocava cada uma em frente à casa que pertencia, pois Raul sempre sabia qual lata era de qual casa. Todas as noites estava na praça da igreja matriz conversando com as pessoas que ali se reuniam. Sempre vinha ao banco da praça onde sentávamos eu e minhas amigas. Perguntava sobre os nossos paqueras – estava sempre atualizado com o andamento do coração de cada uma de nós. Torcia pelos namoros, pelas paqueras, levava bilhetes, recados, e dizia que um dia teria uma namorada. Assim era Raul: doce e meigo, prestativo e amigo, e algumas vezes até ironicamente engraçado. Dispôs-se um dia a ajudar um caminhoneiro a manobrar num pequeno espaço entre carros estacionados e um muro de pedra. O motorista, de marcha à ré, com cuidado e devagar, obedecia as ordens de Raul para girar o volante um pouco à esquerda, outra vez à direita. Quando achou que estava bem alinhado, Raul ficou acenando para que continuasse na marcha à ré. O motorista continuou, continuou...até que bateu no muro de pedra. Olhou bravo para Raul e perguntou porque tentou ajudar se fez com que batesse no muro. Raul olhou, de maneira mais ingênua possível e respondeu: cho bobo, cho bobo! E bobos éramos nós que não reconhecíamos sua inteligência agudamente diferente, seu olhar que transpassava nossos olhos e sabia distinguir o bem do mal, o bom do mau, e se cercava sempre do bem e do bom, sem esperar pelo bem-bom. Raul plantava flores na praça da igreja e colhíamos rosas do seu coração. Recolhia as latas de lixo das calçadas e retirava de nossa alma a dor de alguma mágoa ao nos sorrir com candura e dizer: vai passar, tudo passa com a graça de Deus!

E Raul também passou. Foi para o outro lado muito cedo, para junto de quem o amava mais que nós. Suas limitações físicas e mentais (para o padrão da sociedade) foram sua marca e sua maior qualidade. Foram elas que nos cativaram e nos fizeram amigos de verdade: amigos de confidências e transparências, de aceitação dos "diferentes"  dos padrões exigidos e existentes. Porque amigos não pedem teste de Q.I. para entregar seu coração, nem pedem declaração de bens ou um diploma estrelado para que uma cabeça se recoste em seu ombro, ou uma sonora gargalhada ecoe em meio ao silêncio da noite.



- Postado por: Neusa às 23:20:59
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O Amor Chamou

 

Um dia o amor encontrou-se com o mar e disse:

Fica revolto, encrespa, bate na escarpa,

Faz muito barulho, assusta, agita,

Acorda um coração assim tão triste.

 

Chamou ainda o amor um dia de sol e lhe pediu

Cores de arco-íris e cheiro de mato,

Paisagem enfeitada de sons e cores

Para acordar um coração que dormia desajeitado.

 

Por último invocou o amor uma doce canção,

Aquela dos anjos e da natureza.

O coração acordou assustado com o mar,

Cego pela luz, embriagado de sons e beleza

E afogou-se na poesia e na paixão.

 



- Postado por: Neusa às 19:43:08
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CATADORES DE PAPEL

 

 

Sentia-se cansado. Arriou o carrinho de catar papel, enxugou o suor do rosto com a manga da camisa velha e suja e sentou-se na calçada. O dia logo terminaria, não dava para conseguir recolher muita coisa mais. Já percorrera muitas ruas, revirara muitos lixos, passara de porta em porta do comércio pedindo caixa vazia de papelão. O papel ainda não era suficiente para garantir o almoço do dia seguinte, mas a quantidade de xingamentos que ouvira dos motoristas nas avenidas tinha sido o bastante. Somado ao calor, ao esforço de empurrar o carrinho e à fome que batia era motivo suficiente para encerrar a jornada. Esperava que seus companheiros tivessem levado um pouco mais de sorte. Não se encontrava longe do barraco. Arrancou um pouco mais de força das pernas, levantou-se devagar e decidiu voltar para casa. Precisava tomar água, um gole de cachaça, deitar ao lado do cão e dormir. Empurrou o carrinho com vagareza, a sonolência e o cansaço tomando conta do corpo e da cabeça. Venceu as últimas quadras meio inconsciente, a cabeça girando, as pernas fraquejando, os braços fazendo um esforço grande para cumprir a missão de empurrar. Enfim o lar -era assim que chamava aquele canto. Os cães estavam lá, guardando os poucos pertences que a vida permitia. Os companheiros ainda não tinham chegado. Considerou um bom sinal. Olhou ao redor: a garrafa de cachaça estava lá no esconderijo, dava pra perceber. Tomou um longo gole, precisava disso para refazer as energias. Antes do descanso tinha que dar um jeito nas coisas. Estavam ali abrigados desde o mês anterior. Descobriram a loja fechada numa rua boa, com a marquise para proteger da chuva e do sol desde que nenhum dos dois fosse mais forte que a proteção. Instalaram-se embaixo da marquise ele, seu amigo, as duas mulheres e um cão. O outro cão chegara depois, faminto e doente, e ficara por lá fazendo companhia a todos. Já estava até mais gordo, de melhor aparência, só faltando um banho dos bons, mas isso era querer demais. Tinha que reconhecer que o lugar ali era bom e não havia de reclamar da sorte. Os vizinhos não tinham pedido para irem embora de lá, a polícia não viera nenhuma vez procurar saber se tinha pedra ou papelote, e ainda tinham a beleza de uma torneira que jorrava água em abundância. Dava pra encher as garrafas plásticas e beber a vontade. Perto dali tinha o boteco: com os trocados comprava a pinga, o pingado da manhã e, se a sorte ajudava, até o marmitex do dia, dividido entre os quatro companheiros e os dois cães. O boteco era feio, sujo e pequeno, porém quando chegava a noite trazia a música dos que iam lá cantar na máquina que dava nota aos cantores. Ajudava a acalmar a dor, a fome, e ainda abafava os sons que saíam debaixo das cobertas sujas quando o desejo por sexo falava mais alto no corpo de qualquer um do grupo. Um não mexia com a mulher do outro, pois que se respeitavam. O amor feito às pressas, sob os olhar cúmplice dos cães, dava um cansaço gostoso, trazendo um sono pesado e comprido. Era a força para a labuta do dia seguinte. Entre um gole e outro, um pensamento aqui outro acolá, foi ajeitando o acampamento: Colocou as garrafas de água na mureta da loja, a sobra da marmita do dia anterior na sacola de lixo, recolheu os cobertores que a mulher deixara tomando sol. Foi ficando forte com a bebida. Lavou o chão cheirando urina dos cães e dos homens. Procurou alguma coisa pra comer. Tinha ainda pedaços de pão e uma banana. Deu uma bocada na banana, guardou o resto pra um outro que chegasse mais faminto. Jogou migalhas de pão para os cães e lembrou-se de passar na loja de animais para pedir ração velha, essas que o moço jogava fora depois de vencida a validade. Atravessou a rua com passos mais seguros e voltou de lá com dois sacos de ração. Ao menos os cachorros estavam garantidos por um bom tempo. Passou um grupo de jovens na calçada, parecia que vinham de uma escola. Olharam curiosos para o homem e os cães. Cochicharam entre si. O de cabelo espetado e pintado de azul chamou-o de companheiro, disse que a culpa era do governo que não sabia cuidar do povo. Quis conversar, mas o homem já não sabia mais o que era uma conversa. Aprendera a linguagem dos gestos e dos olhares, nem se lembrava mais do som da sua voz numa prosa. Também tinha medo de falar mal de governo e ser preso. Não tinha nem título de eleitor, isso podia dar cana, pensava. Então apenas foi confirmando com a cabeça todas as coisas que o estudante dizia. Por fim o jovem se calou, ofereceu um cigarro que foi aceito, e deu mais uma percorrida com os olhos em todo o quadrado que era um lar. Deixou lá o maço de cigarros todo inteiro, saiu desejando a proteção de Deus e a pena justa para os políticos injustos. O homem estendeu um colchonete roto no chão, deitou-se com o cigarro na boca e resolveu não pensar em nada. Não valia a pena questionar. Era essa sua vida e seu destino. Não queria ser incomodado, só isso. Viu chegando os companheiros, os três juntos. Tiveram mais sorte, mesmo. Os carrinhos vinham sobrecarregados de caixas de papelão, o que significava um almoço melhor para o dia seguinte e, com sorte, até uma lata de cerveja. Os três encostaram os carrinhos na porta cerrada da loja falida, sentaram-se próximo ao homem deitado e, também mudos, se entenderam: dividiram os cigarros, a cachaça, a sobra de pão e a banana. A noite já vinha chegando. Mais um colchonete foi estendido no chão. Os cães foram amarrados próximo aos carrinhos, pois coisa que faziam bem era não deixar ninguém se aproximar deles. O boteco já mandava o som das músicas de bordel, acendendo o desejo de abraçar a companheira. Precisava esperar mais um pouco, até que o movimento de pedestres na rua diminuísse. A companheira também parecia sentir a mesma coisa, já encostava um pouco mais seu corpo no dele, sinal de consentimento. Ficaram ali olhando as estrelas e tomando um ou outro gole da cachaça. A vida estava em paz. A noite seria boa. O amanhã teria uma marmita para cada um deles. Os cães comeriam a ração sem racionamento. Nenhum político ou governo iria atrapalhar aquele sentimento de esperança.

Sábado de manhã. Rua agitada pelas sirenes de bombeiros e ambulância. Mal amanhecera, mas os moradores acordaram com todo o barulho. As janelas de um prédio se abriram e uma mulher estremeceu com a cena entrevista. Desceu correndo até a rua e perguntou o que era aquilo. O dono do bar contou. O filho do deputado fulano de tal, voltando bêbado de madrugada, perdera o controle do carro e se chocara contra o prédio comercial em frente. Não se machucara, quase, mas o carro fora destruído quando bateu na parede da loja falida e passara por cima de quatro mendigos que dormiam sob a marquise. Os mendigos morreram na hora, só ficaram vivos os cães presos ao poste pela cordinha. Estes uivavam num choro de cachorro sem dono.

 



- Postado por: Neusa às 19:39:31
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BRINCAR COM FOGO

 

 

Domingo de manhã. Os pais e as irmãs mais velhas já haviam saído para a missa. As crianças menores ficaram com as maiores a lhes tomar conta. Aproveitaram o dia bonito e logo cedinho foram brincar de casinha no quintal. Não tinham bonecas de louça nem brinquedos fabricados. Tudo tinha que ser imaginado, fantasiado e improvisado. No chão de terra batida delimitavam com riscos o espaço de cada cômodo da casa, deixando o maior pedaço para a cozinha. Seria centrada ali a brincadeira do dia. Fizeram o fogãozinho de lenha com pedaços de tijolos e cataram gravetos debaixo das árvores para acender o fogo.  Agora já não eram mais irmãs, eram comadres. Os olhos e os sorrisos mostravam a criança que cada uma delas ainda era, mas colocavam na voz a impostação e a gravidade das donas de casa. A conversa das comadres crianças girava sobre os problemas domésticos, os filhos, e, claro, sobre culinária. Decidiam o cardápio do dia, mais caprichado por ser domingo. A lata de cera vazia era a panela onde os quitutes seriam preparados. Trocavam idéias, faziam planos, cada comadre cuidando de uma parte da casinha. Vez por outra uma delas subia as escadas da casa de verdade pára olhar a irmãzinha caçula que ainda dormia. Quando ela acordasse seria a filhinha de uma das importantes pequenas senhoras. No meio da prosa, preparativos e arrumações, surgiu um probleminha: o fogo não acendia. Talvez pela chuva da tarde anterior os gravetos ainda estivessem úmidos. Só com fósforos e papel não conseguiam fazer um foguinho razoável para o almoço. Tiveram a brilhante idéia de usar álcool, como já tinham visto a mãe fazer nessas situações. Uma delas foi até a cozinha, encontrou o litro de álcool bem guardadinho e trouxe-o à casinha como se fora um tesouro, a mágica que faltava. Virou a garrafa sobre os gravetos. Estes já estavam com um pouquinho de chama, mas as crianças comadres não tinham percebido. Quando o líquido bateu nos gravetos a chama alastrou-se e voltou no mesmo caminho até à garrafa.  A comadre, assustada, só teve a reação instintiva de jogá-la para trás. A outra irmã deu um grito de horror. A caçulinha, que acordara, estava descendo as escadas no momento em que a garrafa em chamas fora lançada. O fogo atingiu-a em cheio e as comadres correram para socorrê-la. Uma pegou um cobertor e jogou-o sobre a criança, apagando o fogo, enquanto a outra gritava que a irmãzinha havia morrido. Aí viram: a menina não tinha qualquer queimadura no corpo, mas os cabelos longos e lisos estavam completamente queimados. Os pais chegaram da missa. As comadres, agora crianças  assustadas e amedrontadas, ouviram todas as broncas que tinham direito. Sabiam que era proibido brincar com fogo. Recolheram-se para seus quartos enquanto os pais cuidavam da pequena queimada.

Passou-se algum tempo. A irmãs acompanhavam o crescimento dos cabelos da caçulinha, maravilhadas. Todas tinham os cabelos muito lisos e sonhavam com as ondulações que poderiam fazer quando crescessem. Mas a pequenininha havia mudado desde já. O novo cabelo que nascia em substituição ao que haviam queimado tinha cachos maravilhosos, de uma crespura de fazer inveja!



- Postado por: Neusa às 19:37:18
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Sete Segredos

 

Fechei com sete chaves

tranquei com sete correntes

sete anjos de plantão

protegendo o coração.

 

Sete batidas na porta

sete chamadas à espera

espiei prá ver quem era:

não conheço - não importa.

 

Mais sete vezes, insistente,

toca à porta o visitante

A esperança supera o medo

 

abre as trancas sem segredo:

reconhecia quem chegava

em olhos doces, sem palavras.



- Postado por: Neusa às 00:07:18
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Porque:

- mesmo saindo cedo, estou sempre chegando tarde?

- mesmo escolhendo o momento certo, o sinal é de ocupado?

- vejo a porta entreaberta, mas se tento entrar está fechada?

- o farol está verde, mas se avanço imediatamente fica vermelho?

- o dia promete sol e quando saio à rua as nuvens correm a escondê-lo?

- as luzes se acendem e iluminam o palco, mas não há o espetáculo?

- me cubro de mantas e cobertores, mas o frio chega à alma?

- mesmo diante das tormentas, ainda consigo manter a calma? 



- Postado por: Neusa às 00:02:54
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Constrastes sociais não é privilégio apenas de grandes centros urbanos. Também existia na pequena cidade onde morávamos. A casa à esquerda era uma mansão onde moravam três pesssoas: pai, mãe e um bebê. Do nosso lado direito havia um casebre de madeira, com dois cômodos, que abrigava 6 pessoas: o pai e cinco filhos menores de idade. Convivíamos bem com a vizinhança dos extremos da pirâmide social. Íamos às festas na mansão, brincávamos com o bebê gorducho e sorridente e ficávamos sabendo antecipadamente onde abririam a nova filial da empresa da família, que se expandia feito massa de pão em dia quente. Foi lá que conhecemos alguns cantores (hoje famosos) que frequentavam a casa e cantavam nos churrascos de domingo à beira da piscina. No casebre não havia piscina nem festas. O pai, viúvo, trabalhava como bóia-fria nos períodos de safra. Os meninos maiores (não havia mulher na família), franzinos e maltrapilhos, cuidavam dos pequenos e dos afazeres domésticos. Nunca pediam ajuda - tentavam sobreviver com dignidade. Às vezes ouvíamos uma das crianças tossir durante a noite. Era sempre gripe forte, tosse comprida ou coisa semelhante, pois que a casa era úmida, com goteiras, e não havia cobertores suficientes para as noites mais frias. Minha mãe acorria e socorria. Levava remédios, ensinava a dosagem e o horário certo de tomá-los. Se fosse algo mais grave tentávamos atendimento no hospital público. Muitas vezes levávamos comida: parte do almoço ou jantar, pão feito em casa, doces caseiros, tudo bem recebido pelos olhinhos brilhantes de agradecimento e de alegria da criançada. Certo final de semana minha mãe preparou um almoço especial para os meus tios que viriam do Paraná. Quando estava quase tudo pronto alguém telefonou avisando que só iriam na semana seguinte por um imprevisto qualquer. Para poder dar conta de tanta comida sem sobrecarregar a geladeira fomos dividir o que era mais perecível: um agrado para os donos da mansão e uma reforçada no almoço do casebre. Carne assada, maionese e sobremesa foram embaladas e levadas aos dois vizinhos. A vizinha empresária agradeceu num meio sorriso. As crianças do casebre arregalaram os olhos. No dia seguinte, o mais velho dos cinco irmãos veio me perguntar o que era aquela comida tão gostosa, com legumes e molho. Falei que era maionese. Ele não conhecia, tinha comido pela primeira vez. Perguntou novamente o nome. Repeti. Ele, por sua vez, tentou repetir: "marionésia". E falou marionésia com tanto orgulho, admiração e felicidade que parecia termos lhe dado uma casa bonita e um emprego digno ao pai. Até hoje guardo na lembrança aquele olhar lindo e a voz repetindo sem parar: "marionésia!". No mesmo dia passei em frente à mansão na ida ao colégio. O lixo estava na calçada, espalhado provavelmente pelos cães da rua. Meus olhos foram atraídos por algo que me pareceu familiar. Parei e olhei: a maionese (a marionésia que a família humilde tanto agradecera) fora todinha jogada ao lixo pelos moradores da mansão. Não pensei em mais nada a não ser que poderíamos ter dado tudo aquilo que era excedente em casa àquelas crianças do casebre. O pão havia sido mal distribuído! 



- Postado por: Neusa às 23:38:17
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Parabéns, mulher-tudo!

Você que nasceu com o estigma de ser e estar, de não ter mas dar, de sorrir e de chorar.

Você que carrega a sensibilidade, a governabilidade, a mutabilidade.

Você que tem a força mais que humana quando todas as outras fortalezas desabam.

Você que põe mais que vinte e quatro horas num dia e transforma o cotidiano em poesia.

Você que muitas vezes carrega o mundo em seus ombros e mesmo assim parece voar  como encantada.

Você que faz rimas com a vassoura, que discute com as panelas, canta o limpar das janelas.

Você que é mãe de tantos filhos que não foram gerados: amigos queridos, livros empoeirados.

Você que se veste de super-herói e enfrenta o dia-a-dia com a coragem do vencedor.

Você que sorri, canta, encanta, cria, transforma, reforma, apesar da sua dor.

Você que é única -entre todas as outras únicas e insubstituíveis-  pelo fato único de ter nascido MULHER!



- Postado por: Neusa às 16:17:49
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CONTRADIÇÕES

 

Meu amor é suave

Como um sorriso de criança

Um olhar de amizade

Toque tranqüilo de duas mãos irmãs

Desabrochar lento e caprichoso de flor

Cheiro de relva após a chuva boa

Trepidar de chama da lareira

Numa noite fria

Lago de águas calmas refletindo a lua

Paisagem de primavera

Magia do sol nascendo no horizonte.

 

Meu amor é fogo que consome

Como as noites de tempestade

A areia quente do deserto

A explosão de uma estrela no infinito

A guerra dos deuses no Olimpo

Um vulcão em plena atividade

 

Nesse amor de calma e ira

De ternura e calmaria

De explosões de paixão mal contida

De alma aflita e desmedida

Meu coração tem sempre a mesma medida

Seja qual for a moldura onde ele se insira

 

 



- Postado por: Neusa às 23:23:09
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PROMESSA

 

Quero ficar com você

Nos dias claros e nas noites estreladas

Nos dias de beija-flor

E nas noites com perfume de flor

Nos dias de paz, no tempo de amor,

Na comunhão das almas, seja onde for.

Quero ficar com você nos dias de dor,

Nas noites escuras de desamor,

Nas tempestades que trazem pavor,

Nos desencantos, sem nenhum pudor.

Quero ficar com você mesmo calado,

Acabrunhado, desalentado,

Desencontrado.

Porque te amo assim, qual nó atado,

E a você me prendi, por escolha

Ou por destino já selado.

 



- Postado por: Neusa às 23:20:58
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Streap Tease

 

Música e meia luz.

Vou me despindo lentamente.

Cada gesto desse ato

Dirigido a você, serenamente,

Sinceramente.

 

Nem palco nem platéia.

Você no pensamento, eu neste momento

Concentrada, só você na mente,

Recebendo, uma a uma, as fantasias

Com as quais eu me vestia.

 

Você me olha em transe, alucinado;

Extasiado contempla minha nudez

Exposta em plena lucidez

E se depara com o chão coberto de pecado.

 

Lá ficaram as fantasias para sempre:

Sonho, ilusão, lealdade e fidelidade.

Libertei-me do que em mim ficou colado

Quando você me encontrou, lá no passado.

 

Porquê me olha assim, tão assustado?



- Postado por: Neusa às 23:16:37
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E porque é que me levaste

para o alto do monte

se eu, criança nascida no vale,

não sabia ali respirar?

(Fernando Pessoa)



- Postado por: Neusa às 23:07:54
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INFÂNCIAS

 

Terça feira de manhã. Trânsito congestionado, eu mais uma vez atrasada para o trabalho. O farol abria e fechava, o carro mal andava um metro e já tinha que parar novamente. Os vendedores de balas, felizes com tantos motoristas ali, iam e voltavam entre as filas dos carros. Observei também uma mocinha, com seus quinze anos aproximadamente, que entregava folhetos para quase todos os motoristas, mas não me via e passava direto por mim. Será que estou com cara de brava? Tá certo que não gosto realmente de colecionar folhetos publicitários, mas porque a discriminação? Ela ia e voltava entre os carros, passava direto por mim sem sequer me olhar. Observei melhor a menina. Constatei que os folhetos só eram entregues aos motoristas do sexo masculino. A garota estava vestida com roupinha de verão (estávamos com 30 graus pela manhã), porém chamava a atenção pelas partes do corpo descobertas: coxas, seios e barriga provocantemente à mostra. Ela andando entre os carros e meu olhos acompanhando-a, tão garota ainda, rosto infantil, oferecendo seus serviços aos possíveis clientes. Lamentei o que via. Nada contra a prostituição, que não sou moralista, mas aquela menina poderia estar num colégio ou em casa, não num cruzamento de ruas vendendo seu corpo. O farol abriu mais uma vez e desta feita consegui avançar quase dez metros. Parei ao lado do canteiro central -quem sabe a faixa da esquerda me faça ganhar alguns segundos? Olho pela janela aberta do carro e vejo outra cena inusitada e chocante: uma garotinha de três anos, talvez, sentada em pleno canteiro central da grande avenida, com alguns brinquedos ao seu redor -até uma boneca! Parecia não se incomodar com a quantidade de carros nos dois sentidos e ali tão próximos a ela. Fiquei angustiada, sem entender o que uma criança, quase um bebê, ainda, estaria fazendo ali sozinha. Quem poderia tê-la deixado assim, abandonada? E ela, com seu rostinho cândido, olhar de ternura, brincando compenetradamente. Já ia descer do carro e tentar conversar com a criança, tentar resolver a situação, livrá-la dos perigos a que estava exposta. A menininha então disse, numa vozinha clara e bem audível para quem, como eu, estava a meio metro de distância dela: - Mamãe, vem brincar comigo agora. É a sua vez de fazer o nenê mamar.

Então a mãe se aproximou da filha, vindo meio que por mágica, tão rapidamente apareceu. Era a jovem que entregava os folhetos aos homens no congestionamento. Sentou-se ali mesmo no canteiro central, bem juntinho à filha, segurou a boneca com carinho, pegou a mamadeira de brinquedo e deu de mamar à boneca. O trânsito andou um pouco mais rapidamente, mas ainda pude ver pelo retrovisor: as duas crianças, mãe e filha, brincavam solenemente, compenetradas, tão semelhantes na sua infância!

 



- Postado por: Neusa às 23:05:22
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