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A vó na trilha

 

 

A vó foi moça muito bonita, prendada e mimada. Única filha entre tantos irmãos, poupada de qualquer serviço pesado comum às moças da época, estava destinada a casar-se com um cavalheiro fino e de posses. Tinha, porém, gênio difícil e rebelde. Recusou o casamento com o rico fazendeiro vizinho porque gostava mesmo era do Filinto, rapaz pobre mas romântico, fazedor de serestas no portão do sítio. Os pais da vó não aprovaram o romance e ela não teve coragem suficiente para fazer o que seu coração mandava: fugir com seu amor. Foi passando da idade de casar, já estava com 19 anos e ainda solteirona. Os pais, então, arrumaram outro casamento, e a vó não teve como desobedecer pela segunda vez. Ao menos o noivo sabia ler, isso para ela era fundamental! Casaram-se e foram morar no sítio do marido. Ainda recém-casados, o irmão do vô foi visitá-los. Ficou ali um par de dias e, ao partir, convidou-os para irem também à sua casa, que distava uns bons quilômetros. Tinham que viajar a cavalo e passar por uma trilha aberta na ainda mata nativa daqueles idos da década de vinte, início do século também vinte. E lá foram os três, como no poema A Serra do Rola-Moça, “cada qual no seu cavalo”: os homens à frente, a vó fechando a fila, descontente porque detestava andar a cavalo. Não via a hora de chegar ao destino, reclamando o tempo todo do calor, do cansaço e dos mosquitos. Aquele passeio parecia-lhe uma sessão de tortura. Após muitas horas de cavalgada chegaram num ponto em que a trilha se estreitava mais ainda –uma picada, como se dizia então – no meio da mata. Era tão estreito o caminho que, num determinado ponto, tinham que estender os braços para afastar os galhos que lhes batiam na cabeça. A vó, inexperiente nessas agruras, em vez de afastá-los apenas, segurou-se nos galhos. O cavalo passou, mas a vó ficou lá, esperneando, saias balançando, gritando até que os homens ouviram e voltaram para socorrê-la.

Já velhinha e viúva, a vó contava essa história ainda magoada com o vô e o cunhado, que não só riram muito da situação como também espalharam o ocorrido para toda a família.



- Postado por: Neusa às 20:58:38
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O   E  SANTA  LUZIA

 

 

São muitas as histórias da família. Algumas tão antigas que nem todos conhecem, mas que foram passadas de geração a geração. Como a história do meu avô materno, muito sisudo e cético, de um fato ocorrido ainda na sua infância. Ele morava em um sítio e de vez em quando ia passear no sítio vizinho, brincar com os meninos de lá, ou simplesmente “bater pernas”, como dizia. Deve ter ido assim, meio que sem querer, naquele dia. Passou pela casa do sitiante vizinho e este entregou-lhe um saco cheio de espigas recém-colhidas no milharal. Era para entregar ao pai, um presente do vizinho. Só tinha uma recomendação, que foi repetida algumas vezes: era pra devolver o saco, pois que, alvejadinho, daria um bom par de panos de copa. O avô-menino prometeu e lá se foi correndo pela trilha, a sentir até o gosto de pamonha, o cheiro de pamonha, a sensação de ir desembrulhando a pamonha devagarinho até vê-la inteirinha, amarela e pronta para ser devorada. Ia correndo, não só pela pressa de levar o mIlho verde para casa e logo vê-lo virar seu doce predileto, mas também pelo medo de encontrar as vacas. Meu avô tinha pavor de vaca brava! Para chegar ao sítio onde morava, porém, tinha que atravessar o pasto, e as vacas sempre estavam por ali, como que à sua espera. E não deu outra: enquanto corria pelo pasto, uma das vacas, a mais petulante, olhou-o e correu atrás dele. Na pressa de escapar do animal, largou o saco de milho no chão e saiu em desabalada carreira até pular a cerca. Estava livre do animal, mais uma vez escapara da mesma vaca que cismava em perseguí-lo. Olhou para trás e quase teve um ataque: a vaca, a petulante vaca, sentira o cheiro do milho verde, fuçava o saco, ia tirando as espigas para fora e se fartava de comer as palhas. Depois de satisfeita, afastou-se mansamente para longe, pro outro lado do pasto. O vô foi correndo pegar o saco e viu que estava todo escangalhado. Como devolver ao vizinho o saco daquela forma, em petição de miséria? Só por milagre escaparia dos xingamentos. E as pamonhas, então, que também já tinham ido para o brejo? Lembrou-se, num repente, que uma vez tivera dor d’olhos e que sua mãe fizera promessa para Santa Luzia e seus olhos ficaram curados rapidamente. Apelou pra santa. Prometeu que se o saco ficasse novinho outra vez ele iria de joelhos até sua casa, mesmo a distância sendo grande. Já se ajoelhara no chão e pedia: “Minha Santa Luzia, peço o milagre de remendar o saco e prometo ir de joelhos até a minha casa”. Fechava os olhos, rezava, abria-os e o saco continuava escangalhado. Fechava de novo, rezava, abria os olhos, e nada! Repetiu muitas vezes, até que ficou desacorçoado de tanto pedir, implorar, clamar e a santa não ouvia nada, muito menos atendia seu pedido. Voltou cabisbaixo, xingando as vacas, as espigas de milho verde, o saco alvejado, o vizinho bem intencionado, e até sua falta de sorte.

Não sabemos se foi por isso que o vô perdeu a fé nos santos. Só sei que depois de adulto ele se tornou protestante - crente, como se dizia na época. E crente não acreditava em santo algum!



- Postado por: Neusa às 21:09:03
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A SENZALA

 

 

Recebeu esse nome porque era uma casa menor, contígua à casa maior onde a família morava. De início se referiam à casa grande e à casa pequena. Depois, por uma brincadeira sobre trabalhar muito e ser escravo do trabalho, associou-se à senzala. E ficou sendo chamada assim, permanecendo esse nome até hoje. Na verdade era uma construção sem grandes acabamentos, com quarto, banheiro e cozinha. Eventualmente um ou outro filho morou lá por algum tempo, mas ficou muito parecida com a cara da bruxinha, a irmã querida que mobiliou, arrumou, decorou e para lá levou seu telefone e seu computador. Simples e aconchegante, passou a ser o ponto de encontro dos irmãos. Ali contavam seus segredos, planejavam o almoço e os passeios, as reuniões periódicas da grande família. Quando passou a ser Senzala, a mãe já não ia mais até lá. Estava muito doente e pouco saía de seu quarto. Enganava-se, porém, quem pensasse que ela não sabia tudo que se passava por ali. Dona Irene tinha uma intuição muito grande, além de conhecer muito bem os filhos e suas ações. Também pelo desejo de saber tudo que acontecia ao seu redor, perguntava de tudo a todos e cada um. Só não sabia das quantas vezes nos reuníamos lá na senzala para falar sobre o seu estado de saúde, sobre as pesquisas que a bruxinha fazia na Internet sobre a doença da mãe, sobre quantos telefonemas foram dados a médicos e instituições para que ela recebesse o melhor tratamento e tivesse uma qualidade de vida muito boa. Foi lá que nos aninhamos, todos os irmãos, em cima da cama (sem saber como podia caber tantos sobre uma única cama), no chão, nas cadeiras, fisicamente tão próximos, muitas abraçados, a chorar e consolando-nos mutuamente cada vez que a mãe ficava na UTI do hospital. Era nosso espaço para as lágrimas, o conforto na angústia, as difíceis tomadas de decisões (como fazer para não deixar o médico entubar a mãe?). É difícil lembrar da senzala sem que esses momentos de dor venham à lembrança. Mas o que ainda está lá, o que sempre existiu e ficou impregnado nas paredes, nos móveis, nas cortinas, foi o amor entre os irmãos, a união nas suas diferenças e peculiaridades. Foi ali também que choramos a partida da mãe para o outro lado. E ainda hoje é o nosso espaço de maior aproximação, aconchego e amor.

Felizmente têm as lembranças alegres, também, algumas até engraçadas. Quando vinham os parentes da mãe e do pai, e todos os irmãos também estavam na cidade, na hora da distribuição dos quartos e camas, todas nós irmãs queríamos dormir na senzala. E acabávamos por dormir lá, sempre se dava um jeito: apertadas, em camadas, sobre colchões no chão, no tapete, em camas improvisadas na cozinha. E o acordar era uma festa. A bruxinha levantava-se silenciosamente, ia até à casa grande, e de repente ouvíamos um sonoro grito de bom dia. Lá estava ela na senzala novamente, com uma xícara de café quentinho, recém-coado, para cada uma de nós. Não havia e até hoje não provei café tão gostoso como aqueles, feitos com tanto amor. Também era ali na senzala que os segredos eram feitos e contados. Como no dia que passei na confeitaria e trouxe um doce para cada um dos poucos irmãos que lá estavam. Deixamos para comê-los após o jantar. De repente chegam visitas que ficariam para dormir também. Não dava para dividir os doces com todos, mas não deixaríamos para comê-los depois. Disfarçadamente levamos os quitutes para a senzala e fechamos a porta. De duas em duas íamos entrando e comendo nossa parte. A última dupla a entrar foi pega em flagrante: a tia entrou sem anunciar, olhou para o doce, olhou-nos com ar de quem tinha entendido tudo e desatou a rir. Acabamos por dividir nossa parte com ela, contamos a história e rimos muito. Ela, por sua vez, dividiu nossa história com todas as outras pessoas da família (as visitas) que lá estavam.

A janela do quarto da senzala dava para um corredor, que por sua vez era passagem obrigatória de quem entrasse pela lateral da casa. Quando estávamos só nós, mulheres, ficávamos à vontade para trocar de roupa lá mesmo, sem a preocupação de fechar a janela. Essa despreocupação, porém, trouxe algumas surpresas vexatórias. Esquecíamos que os amigos de meu irmão entravam pela lateral, sem tocar a campainha. Dois deles acabaram pegando no flagra duas das irmãs em trajes mais íntimos, ao passarem pelo corredor frente à janela. Difícil para todos foi se encararem depois, já ambas vestidas e compostas.

Também se faziam reuniões para muita coisa na senzala: para cantar, ler poesia, ouvir alguém ler em voz alta um texto bonito que chegara pelo correio eletrônico. Certa noite as amigas da bruxinha estavam também lá e decidiram fazer uma sessão de regressão espiritual. Ensinaram a todas nós como deveríamos fazer. A doutora ficou com medo e foi se esconder na casa grande. A irmã da praia, por via das dúvidas, ficou assistindo do lado de fora. Começamos a sessão. Pensei que não fosse acontecer nada, pois achava que isso era coisa de ficar sugestionada. Aos poucos fui entrando no clima, ouvindo a música de relaxamento, pensando em nada, ouvindo ao longe a voz da moça que conduzia a sessão. Vi-me num cenário de guerra, eu como uma espécie de enfermeira num hospital de campanha, tudo muito antigo, desde as roupas até o cenário e as armas. Estava dando remédios aos feridos de guerra e tinha que optar entre salvar uma criança e um adulto. Ia salvar o adulto, quando este me pediu com o pouco de voz que lhe restava que desse o remédio à criança, pois ela era mais importante, tinha mais vida pela frente, e era uma vítima da guerra, não um soldado. “Acordei” com a voz da moça dizendo que havia acabado. Eu estava em estado de choque ainda, com a emoção do que vira, ou sonhara, não sei. Todos contavam o que haviam visto ou sentido, e eu não queria contar nada, era tudo muito doloroso. Foi aí que escutei a Zanza, minha irmã, rindo ao contar para todos: “Gente, eu estava puxando uma carroça! Acho que fui mula numa outra encarnação!” Todas nós tivemos um ataque de riso ao imaginar a linda e chique irmã como uma mula.



- Postado por: Neusa às 22:34:29
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Amor Ardente

 

Ela foi precoce em tudo na vida. Tinha pouco mais de cinco anos de idade quando entrou para a escola primária. A família morava numa cidadezinha do interior e o pai, bem relacionado com a direção da escola,  obteve essa concessão especial, depois de muito choro da menina que queria porque queria acompanhar as duas irmãs mais velhas. Em algumas semanas aprendeu a ler as primeiras lições da cartilha e descobriu a magia de escrever. Aos seis anos redigiu, a lápis, a primeira carta de amor: um bilhete, na verdade, onde incluiu o nome de uma amiga para não assumir sozinha a responsabilidade do ato ousado de declarar-se. "Rui, eu e a Dadá gostamos de você".  Como não sabia o sobrenome do menino, escreveu no verso:  "Rui Barbosa." O menino morava na casa ao lado e o modo mais rápido de enviar a carta era através da cerca de balaústres que dividia os quintais contíguos. E assim ela fez. Dobrou a folha de caderno em quatro e arremessou no outro quintal. Logo em seguida imaginou que ousadia, amor e vizinhança poderiam não fazer uma boa combinação. Sentiu medo: medo de que a mãe do menino pegasse o papel e viesse mostrar para a sua mãe - levaria bronca, com direito a chineladas. Tentou recuperar a carta, enfiando o braço através da abertura da cerca. Não conseguiu. O papel havia caído fora do alcance dos seus braços pequenos. Precisava de ajuda. Apelou para as irmãs mais velhas, mas não podia dizer toda a verdade. Disse que a Dadá havia escrito a carta e que ela só servira de correio. Entre censuras e ameaças, as irmãs, solidárias, tentaram resgatar o bilhete comprometedor. Descobriram que não havia jeito de pegá-lo. Estava longe até dos braços um pouco mais longos delas. Precisavam de outra estratégia. O pai assinava um jornal da capital e havia vários números atrasados na despensa. Pegaram algumas folhas, enrolaram umas nas outras e, com uma caixa de fósforos surrupiada da cozinha, atearam fogo em uma das pontas, improvisando uma tocha que foi passada pelo vão da cerca. Com alívio, viram que a tocha chegava até o bilhete e começava a queimá-lo. O amor em palavras já ardia.  Voltaram para dentro de casa comentando a boa idéia enquanto o fogo, depois de queimar o recado de amor, continuou queimando a grama seca do quintal. O resto foi rápido: gritos da vizinha, baldes de água jogados sobre a grama, cheiro de capim queimado e molhado, olhares adultos intrigados. Mas a menina olhava, disfarçadamente, as cinzas molhadas daquele prematuro amor ardente.

 

 (texto narrado por uma de minhas irmãs, a quem só mencionarei com sua autorização)

 

 

 



- Postado por: Neusa às 22:22:00
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MILHO VERDE

 

As quatro moças freqüentavam o curso noturno da faculdade local. Naquela noite decidiram não ir às aulas. Convidadas por um colega, aceitaram ir buscar milho verde num sítio próximo à rodovia e fazer curau na casa de uma delas. Entraram as quatro moças no carro do rapaz e lá foram fazer o programa diferente. Já próximo ao sítio, o motorista revelou o pequeno detalhe: o dono da propriedade não o conhecia, nem sabia que alguém iria lá apanhar milho. Teriam que passar pela cerca de arame farpado e pegar as espigas no escuro sem o conhecimento ou autorização do proprietário. As moças ficaram um pouco temerosas, mas o espírito de aventura falou mais alto: toparam. O rapaz parou o carro no acostamento da rodovia e segurou os fios de arame farpado para que as moças passassem. Passaram as três primeiras, porém a última resolveu não ir junto, preferindo ficar junto ao carro esperando pelos amigos. E lá ficou, encostada no carro, ouvindo músicas e admirando as estrelas. Passou-se algum tempo, ela absorta fitando o céu. De repente as luzes dos faróis de um carro despertou-a da contemplação. Sentiu medo. Poderiam ser assaltantes e ela estava sozinha. Escondeu-se atrás do carro. O outro veículo foi se aproximando mais e mais, chegou ao acostamento e parou em frente ao carro onde ela estava. Não teve dúvida ao espiar: era uma viatura da polícia, e um dos soldados já descia dela, portando uma arma e uma lanterna. O facho de luz pegou-a em cheio. O policial devia estar vendo-a, mas a luz da lanterna ofuscava os olhos da moça que já se sentia paralisada pelo medo. Ouviu o guarda falar em tom grave e imperativo: “Erga as mãos e diga se está sozinha”. Ela não teve dúvidas: obedeceu, erguendo as mãos, e foi falando aos borbotões que estava com mais quatro colegas da faculdade. Antes que o policial perguntasse mais ela já adiantou que os quatro estavam no milharal. Falava rápido e entrecortado, pois aquela luz parecia cegá-la.  Foi então que ouviu a sonora gargalhada do policial e em seguida a luz desviou-se do seu rosto. Pôde, então, ver a fisionomia do homem e ficou mais assustada ainda. Era o policial vizinho de sua casa e, pior ainda, trabalhava com seu pai. Com certeza no dia seguinte contaria tudo a ele. Mas o guarda achou a situação divertida (antes isso que enfrentar bandidos) e, após acalmar a moça, pediu que o acompanhasse até o milharal; iria assustar também os outros quatro pois que, por mais inocente que fosse o ato, este configurava um furto, um delito. Sem poder retrucar, a moça aquiesceu e foram os dois descendo a ladeira por entre os pés de milho. A lanterna estava acesa novamente e logo avistaram os colegas, também imóveis ao verem aquela luz se aproximando. O guarda disse à moça que o esperasse naquele ponto. Foi sozinho até onde estava o grupo e deu voz de prisão aos quatro. Uma das moças, mais assustada, pulou num buraco e lá ficou. Não se poderia dizer quem do grupo estava mais apavorado. O policial continuou a amedrontá-los. Disse que os pegara em flagrante delito de furto, que caminhassem em direção à rodovia e que lá entrassem na viatura, pois que iriam direto para a delegacia. Onde ficariam detidos por algum tempo. O grupo foi subindo a ladeira. A moça caída no buraco já se levantara e os acompanhava, manquitolando pela torção do pé. A primeira moça juntou-se ao grupo, mas ninguém falou nada. Seguiram caminhando e o policial seguia atrás, com a luz da lanterna agora sobre os cinco. Chegaram à beira da estrada, pararam ao lado da viatura, na dúvida se entrariam já ou se teriam que aguardar a ordem do soldado. Foi então que o policial diminuiu a intensidade da luz e sorriu. O alívio estampou-se no rosto de cada um ao reconhecerem naquele guarda o vizinho da amiga que estava com eles. O policial proferiu mais um sermão apropriado ao grupo, prometeu nada contar às famílias desde que esse fato nunca mais viesse a repetir-se. Promessas feitas, o policial entrou na viatura, o grupo de amigos entrou no carro e todos se dirigiram de volta à cidade. Passaram pela avenida principal onde bares e restaurantes estavam abertos. Como num acordo tácito, sem que ninguém precisasse dizer nada, pararam em frente ao “Bar da Pamonha”. Sentaram-se na mesa mais próxima, pediram cinco porções de curau e cinco sucos de milho verde. Começaram a rir meio que sem graça, só para relaxar, mas logo o riso se transformou em gargalhadas que pareciam nunca mais cessar. O rapaz falou aquilo que todos estavam pensando: “Nada como pagar pelo que se come, sem ter trabalho e nem correr riscos”. Continuaram rindo até que chegou o curau e o suco de cada um. Comeram como se fosse o manjar dos deuses!



- Postado por: Neusa às 17:56:44
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E por falar em saudades, onde anda você?

- Postado por: Neusa às 23:15:57
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RETICÊNCIAS

 

Como se a vida fizesse uma pausa

tudo parou. Os pássaros calaram

o canto... o vento sem saber a causa

estancou...as estrelas não brilharam.

 

Os meninos da rua se esconderam

dos brinquedos...calou-se a sirene

da polícia...os pombos se recolheram

ao telhado...Era o silêncio solene.

 

Só no casebre mal iluminado  

se ouvia algum som. Era o choro

da mãe, triste e desconsolado,

 

junto ao berço onde o pequeno corpo

dormia para sempre, separado

da mãe e velado pelo silêncio.

 



- Postado por: Neusa às 21:58:47
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A MONTANHA

 

Nascida no vale, conheci a planície. Amei-a em suas linhas retas, em seus horizontes amplos que me ensinavam a enxergar sempre muito além. Mas a planície não escondia segredos, não revelava mistérios, não surpreendia. Precisei caminhar mais.

Conheci o planalto na encosta das montanhas. Tinha lá seus encantos e suas belezas. Mas chegou a época das tempestades. Não havia a proteção dos picos que carinhosamente seguravam as nuvens negras atrás de si para que nada ferisse meu vale. O vento me atingia forte no planalto, me balançava, e nada havia que me pudesse prender ao solo. Foram tantas as tempestades que eu já não me encontrava. Não era mais do vale, não era da planície e o planalto me trazia sofrimento. Não havia caminho de volta para o vale ou para a planície. Perdi-os quando conheci o planalto.

Foi então que vi a montanha, Parecia muito alta, distante, cheia de mistérios e perigos. Mas me atraía por sua beleza, por esconder o sol e trazê-lo de volta todas as manhãs. Tive que ir ao seu encontro, escalar suas encostas, conhecendo cada flor que surgia no caminho, evitando os passos em falso que me levariam novamente ao planalto. Caminhada íngreme e bela, assustadora e terna! Comunhão de dois seres tão diferentes e tão iguais no seu destino! Aprendi a viver no seu topo. Vi os caminhos, agora claros, do vale, da planície e do planalto. Posso olhar para cada um deles sem mágoas, sem saudades...Foram caminhos para que eu chegasse à montanha.

Minha alma se casou com a montanha. Acordo ao som dos bem-te-vis e adormeço com a poesia do pôr de sol. E me alimento da sua ternura, do seu aconchego e da sua proteção. E me embriago com a água que canta em suas veias, me saciando a sede do amor.

 



- Postado por: Neusa às 21:54:47
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DOIDO E DOÍDO

 

O homem doido vindo pela calçada,

O olhar doído de quem não tem nada,

As mãos vazias de toda esperança,

Balançando os braços feito criança.

 

O que você tanto busca, homem doido?

Revira os bolsos e procura, afoito,

A lembrança do que foi, do que ficou

Perdido no passado e não voltou.

 

O homem doido sonhou que já foi gente

Que nem a gente, e não um demente

À procura do passado e da razão.

 

Sonhando assim, doído em solidão,

Conhece mais fundo o mundo e a vida

Do que os sãos (que não vêem a saída).

 

 



- Postado por: Neusa às 19:52:10
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Esta letra maravilhosa  merece vir para o blog. Tem uma poesia e uma sensibilidade tão delicadas que comovem. Minha homenagem ao Oswaldo Montenegro!

Maria, a Louca (Oswaldo Montenegro)

Maria tem fogo na mente
Seu corpo espera que o dia não passe
Que a noite não venha, pois dorme sozinha
Encolhe o seu corpo de encontro à parede
O gosto salgado de quem já chorou
Lhe rola na face, lhe causa agonia
E por ironia lhe chama Maria...
Maria que até já foi nome da mãe do Senhor
Agora é sem nome
É mãe, seu doutor, mas nem sabe de quem
Só sabe que um dia foi linda Maria
Maria de festa, de noite de dança
De rosto rosado, vestido bonito
Maria prendada que agora é perdida
Maria que chamam de louca
Virou brincadeira da turma da rua
Soltou gargalhada, deitou na calçada
Deu grito infinito, gemido profundo
De tão contraído seu rosto se abriu
E se encheu de ternura, pois é, quem diria
De louca Maria restou a poesia
Da moça Maria restou a mulher.




- Postado por: Neusa às 17:33:18
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UM DIA DE PAZ

 

 

Hoje eu só queria um dia de paz.

Ouvir uma doce flauta ao invés

De um a sirene da polícia. E mais:

Um sorriso de criança outra vez.

 

Hoje eu queria um colar de estrelas

Enfeitando de cor e luz a Terra,

Muitas flores em todas as janelas,

E que ninguém soubesse o que é guerra.

 

Hoje, só hoje, acabar com a fome

Que mora nos olhos da menininha

Por conta da pobreza que consome.

 

Um dia em paz, Senhor, pois se avizinha

A urgência dessa pausa de dor

Em nome do recém-chegado amor.

 

 

 



- Postado por: Neusa às 01:25:12
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TEMPOS DE AMOR E HUMOR

 

 

O tempo passou e as crianças cresceram. Tornaram-se adultas, mães, responsáveis, fizeram carreira profissional, mas a alma de criança que ficou em cada uma de vez em quando despertava nas mais inesperadas situações. Como naquela tarde em que duas das irmãs foram ao supermercado. A alimentação da mãe, já idosa e bastante doente, era especial, à base de frutas e legumes, e as filhas se esmeravam na procura dos melhores produtos. Aquele supermercado tinha do bom e do melhor, além do mais bonito, também. As duas, portanto, iam ali semanalmente fazer as compras. Estavam já compenetradas escolhendo o que levar, quando uma disse à outra: “aquele homem não tira os olhos da gente, já está me incomodando”. A outra respondeu que não desse importância e logo o tal homem iria embora. Mas isso não aconteceu. Ele continuava a encará-las, o que passou a aborrecer as duas, desta vez. O homem olhava-as, sorria, continuava olhando, e elas viravam o rosto. Como que lembrando as brincadeiras de infância, quando se faziam passar por personagens que só conheciam por ouvir falar, a mais nova teve uma recaída. Abraçou a irmã pela cintura, foi levando-a para perto do admirador insistente e começou a falar: “Ah, meu amor, ainda bem que somos fiéis. Amo você e ninguém vai nos separar”.  A irmã mais velha, pega de surpresa, não teve outra saída senão representar o papel que lhe cabia, não sem antes espiar com o rabo dos olhos a expressão de susto e desapontamento do homem. Passaram a proclamar em alto e bom som o amor que sentiam uma pela outra. Passaram pelo caixa do supermercado logo atrás do fã desapontado e, com certeza, fazendo um péssimo julgamento a respeito das duas. Dirigiram-se ao carro e, enquanto colocavam as compras no porta-malas, viram o homem entrar no seu carro, dar a partida e ficar parado no mesmo lugar. Elas, rindo muito da peça que pregaram no admirador inesperado, saíram em direção à casa da mãe. O homem, no seu carro, veio atrás delas. Os risos continuaram, agora mesclados com um pouco de medo. A distância era curta, mas o que poderia acontecer não sabiam. Chegaram, porém, sãs e salvas à casa da mãe. Abriram o porta-malas e quando iam tirar as sacolas de lá observaram: o homem havia parado o carro dele na quadra de baixo, estava fora do carro e continuava a olhar as duas. Foi aí que aconteceu algo que a mãe chamava de “estalo”: o carro estava estacionado em frente à pizzaria e aquele senhor que as olhara com tanta insistência era, portanto, o dono do estabelecimento, antigo morador e vizinho da mãe. Quando se deram conta do equívoco, de que o homem não fez nada além de reconhecer as filhas da vizinha e tentar cumprimentá-las, as duas se puseram a rir ainda mais. Era tanto riso que as compras rolaram pelo asfalto, a torta de chocolate que levavam para a sobremesa ficou literalmente torta, e, para complicar ainda mais a situação, o capô do carro bateu com tudo na cabeça da irmã mais velha. O vizinho continuava lá, parado, assistindo toda a cena, e devia estar rindo mais que as duas. As irmãs mal conseguiram atravessar a rua com os pacotes e sacolas nas mãos, rindo cada vez mais, porém conseguiram entrar em casa. Foi o tempo exato para que a mais nova, já chorando de tanto rir, molhasse também a roupa.

Contaram o ocorrido para a mãe que, não obstante ter achado graça e até rido bastante com as filhas atrapalhadas, ficou brava com a brincadeira. Mas prevaleceu o bom humor e no final da tarde toda a família já estava sabendo do acontecido e as brincadeiras sobre o assunto se estenderam até a hora de dormir. O difícil, mesmo, foi ter que telefonar, já na noite seguinte, e pedir as pizzas para o jantar.



- Postado por: Neusa às 23:09:07
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MEDO DE AVIÃO

 

A nova casa trouxe muitas novidades à família: as pessoas da cidade um pouco maior eram diferentes das que já conheciam, tanto nos hábitos quanto na educação. Olhavam de longe a família grande que se mudara recentemente para lá, mas ainda não a cumprimentavam. Apenas espreitavam as moças, as meninas-moças e as crianças. Com o tempo saberiam se poderiam ou não tecer amizade com os novos vizinhos.  Por enquanto era só observar. As meninas-moças, por sua vez, já faziam a observação dos vizinhos desde o primeiro dia que se mudaram para a enorme casa da cidade nova. Davam uma nota para cada família, de um a dez, conforme os sorrisos que recebiam. Não sabiam o nome de nenhum dos moradores daquela rua, sequer dos rapazes que lhes lançavam olhares mais longos e demorados e, às vezes, arriscavam um tímido cumprimento. Como não sabiam seus nomes, as garotas passaram a distinguí-los por apelidos - ingenuamente maldosos – e era dessa forma que se referiam a eles em suas conversas de irmãs. A casa em frente, onde dois irmãos vivam à espreita do horário de sair e entrar das meninas recebeu a primeira identificação: nota oito. Os irmãos, sendo de pequena estatura apesar de seus aproximados dezoito anos, passaram a ser o Mentira e o Perna Curta. O vizinho da casa ao lado, o mais olhador de todos, magro e comprido na sua adolescência, por suas orelhas de abano passou a ser chamado de Lorréie (l’oreille, orelha em francês). O filho do dono da padaria, todo empertigado e sempre bem vestido, era o Doutorzinho, já que tinha pose de doutor em alguma coisa. O bonitão da rua, que arrancava suspiros de todas, era o Alemdelom. Este só era visto de longe, muito além da calçada da casa grande.

Só o prédio em frente é que não tinha nota, nem seus moradores apelidos. Com três andares e bem amplo, era o único prédio do bairro. No térreo havia uma fábrica e os andares superiores eram a residência da família, gente fina e da alta sociedade. A empresa era dirigida pelo pai e assessorada pelos dois filhos moços. Estes sempre viajavam pelo Brasil e mundo afora à procura de novas tecnologias e compra de matéria-prima. Foram eles os nossos primeiros contatos, primeiras amizades e longas conversas. Não recebera apelidos, pois que se apresentaram formalmente e desejaram boas vindas a toda família. Numa dessas conversas de final de tarde a mãe nos confidenciou que o marido não viajava mais. Deixara isso a cargo dos filhos desde que cismara que iria sofrer um desastre de avião. Quando ele cismava não havia quem tirasse a cisma de sua cabeça. Um dia, conversando com o empresário, saiu o assunto de medo de avião. Ele nos contou que sonhara com um avião caindo e ele sendo jogado longe. Disse-nos que isso era um aviso para evitar esse tipo de viagem, portanto voar nunca mais.

Passaram-se alguns anos. Já éramos amigos de toda a vizinhança, sabíamos os nomes de todos os moradores (apesar dos apelidos continuarem a ser falados dentro de nossa casa). Numa manhã muito ensolarada de primavera, ouvimos um estrondo e tudo pareceu tremer por alguns segundos. O medo nos fez correr para a rua. Vimos, então, no prédio do empresário, um avião monomotor praticamente dentro da parte residencial. Havia perdido altura e se chocado contra a parede do único prédio relativamente alto do bairro. A parede estava destruída e o avião embicado dentro da sala, apenas com a cauda do lado de fora. Não havia bombeiros. Os vizinhos corriam para socorrer. O piloto não resistiu ao choque e acabou morrendo horas depois no hospital. Seu João, que tanto medo sentia de avião, estava em estado de choque, mas vivo e sem um arranhão sequer.  Coisa do destino ou fatalidade, até hoje não se sabe. O homem jurava que escapara por milagre, já que saíra da sala poucos minutos antes do choque do avião. Dizia também que tentara escapar do destino fugindo das viagens aéreas, mas o destino tinha procurado-o em sua própria casa. Acabou morrendo muito tempo depois, de morte natural. Foi o primeiro caso que conheci de alguém que conseguiu driblar a sorte e a morte com muita sorte.



- Postado por: Neusa às 21:14:58
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PRESENTE

 

Quisera um dia voltar a sonhar

Tecer caminhos, costurar poemas

Olhar estrelas, banhar-me ao luar

Esquecer o passado e amar, apenas

 

Cantar, talvez, a linda melodia

Da entrega total, nua de pudores,

Temores. Sentir só a harmonia

E a paz dos incautos sonhadores.

 

Estou abrindo portas e vidraças

Deixo entrar viajantes, passageiros

E o mundo também entra pelas frestas

 

Da janela. Vejo seus olhos (inteiros)

Me envolvendo de esperança e festas

Minha vida ganhou sorriso e asas.



- Postado por: Neusa às 21:12:21
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Hoje me assustei ao acordar e me olhar no espelho:

meus olhos, amarelos, estavam verdes de esperança.



- Postado por: Neusa às 13:42:18
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Entenda

Desculpe este meu atraso:

Não foi por querer, foi por acaso

que cheguei tarde em sua porta,

desconhecendo minha rota torta.

 

(Um anjo não me deixara sair

mais cedo para vir ao seu encontro.

Na verdade, não sabia para onde ir

até que ele me mostrou seu pranto)

 

Fiquei ali, em seu caminho, e você

me olhava e questionava o tempo

que demorei. Tarde demais, me disse!

 

Mas fiquei. Acreditei no momento

do encontro. Vesti o traje da esperança

e me deixei seduzir feito criança.

 

 



- Postado por: Neusa às 21:26:46
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Uma homenagem a meu pai, que hoje completaria 90 anos.

Saudades, "seu" Valentim!!!

 

Pai, me pega no colo, hoje que você está longe de mim. Porque,

quando perto, eram tantos a pedir seu colo que você, sabiamente,

não o concedia a nenhum sob pena de julgarem que privilegiasse.

Mas hoje, pai, é seu aniversário, e queria te dar um presente. Não

creio que seja tarde - ainda é tempo de oferecer a conversa que nunca

tivemos. Por isso vim aqui, pai, agradecer você na minha vida, na

vida de seus tantos filhos deste mundo. Você que nos fêz pessoas

vestidas de amor e de poesia, de carinho e respeito, de conhecimento

e reconhecimento. Muitas vezes não tinha a roupa nova para a festa,

mas minha vida já era tecida pelos sonhos, pelos sons e poesia. Bas-

tava olhar o céu, e a alma se encantava com a festa. Porque você nos

ensinou que a beleza e a felicidade estão nas coisas mais simples e

mais próximas; que só lutamos e brigamos pelas coisas desnecessárias

ou supérfluas; que complicamos quando todos os sinais nos indicam a

hora de descomplicar. Demorei muito para aprender essa lição, pai, e

quantas vezes eu não o entendia e tentava julgá-lo! Hoje já não sou

mais a criança que chora por querer o colo do pai, ou porque ele vai

viajar. Hoje sou mulher madura, ainda aprendiz da vida, mas tentando

ser forte e vencer. Porém muitas vezes, pai, o caminho é áspero e

íngreme e preciso de sua mão e de seu colo. Aí te peço: me ajuda, pai,

porque hoje conheço a sua força e a sua grandeza, e aprendi a

humildade de pedir. E sei que você sempre esteve ao nosso lado, 

talvez nós não enxergássemos a sua mão.

Vim  agradecer, pai, por essa sua presença na nossa vida,

parabenizando você por ter sido o pai que soube ser. Toda a sua

prole lhe presta homenagem neste dia, lembrando-se de você e

lhe agradecendo. Eu (a Pretinha), a Cotinho, a Tata, a Dada, a

Zanza, a Cecé, todos os seus filhos que você carinhosamente apelidava,

estamos cumprimentando-o, com todo orgulho que sentimos por

termos recebido de Deus VOCÊ como nosso PAI.

 




- Postado por: Neusa às 17:00:20
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