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CASO DE POLÍCIA

 

 

Estávamos acostumados com as pessoas e seus hábitos. Naquela cidade era normal entrarem na casa de conhecidos sem sequer bater à porta ou se anunciar. Simplesmente entravam, cumprimentavam e ficavam na conversa, fosse a hora que fosse. A comadre Izaltina tinha, porém, o dom de chegar sempre no horário de se por a mesa para o almoço. Entrava, ia direto para a cozinha, destampava as panelas para saber o cardápio, colocava as narinas quase que sobre a comida e elogiava sempre.

Naquele dia, porém, ela veio à tardezinha. Entrou estabanadamente, correu até onde estava minha mãe e a abraçou chorando. Ela sempre fora assim meio esparolada, mas havia nos seus gestos e nas palavras entrecortadas alguma coisa estranha. Minha mãe acalmou-a pedindo-lhe que se sentasse e ofereceu-lhe um copo de água. Mal tomou o primeiro gole e a comadre já foi perguntando se o tarado fora preso. Que tarado? Ninguém ouvira falar sobre isso. Comadre Izaltina disse que ouvira na rádio local que a Zeza fora pega pelo tarado quando se dirigia para a escola. Afirmou que ouvira a notícia várias vezes, e não se conformava que nós não estivéssemos sabendo.

A minha irmã Zeza fazia o curso de admissão ao ginásio no período vespertino e ia sozinha até o colégio, um pouco distante de nossa casa. A notícia nos pegou de surpresa e ficamos atemorizadas. Minha mãe telefonou para meu pai, que estava na delegacia de polícia e que também não ouvira nada sobre tarado. Mas ele ficou muito preocupado. Pegou a viatura e alguns soldados e foram em disparada rumo ao colégio buscar informações. Se precisasse, iram vasculhar a cidade e os arredores.

Chegaram à escola fazendo muito barulho. Meu pai correu à secretaria e contou o que sabia. A diretora, que se encontrava lá, tranqüilizou meu pai dizendo que nada havia acontecido e que a Zeza estava na sala de aula. Ele não acreditou. Pegou os três policiais armados, dirigiram-se para as salas de aula e foram abrindo uma a uma as portas, perguntando se ali era a classe da minha irmã. Na última sala aberta, a primeira pessoa avistada foi a Zeza, tranqüilamente sentada na primeira fila da classe. Ela não entendeu o que estava acontecendo, só percebeu que meu pai a levantara da carteira, dera-lhe um abraço e a estava levando, escoltada por três soldados, para a viatura da polícia. No caminho ele foi fazendo mil perguntas, até que a Zeza entendeu o motivo de tanta balbúrdia. Ela teve que repetir inúmeras vezes que sequer havia um tarado, muito menos que algum a houvesse importunado. O pai ficou aliviado e se acalmou.

Chegaram em casa, a Zeza muito brava com a comadre Izaltina por causa do vexame sofrido. Como e o que ela iria dizer aos colegas da escola? Minha irmãzinha era muito pavio curto e com certeza ia falar um monte para a mulher. Mas a comadre já não estava em nossa casa. Nós abraçamos a Zeza, felizes e aliviados por não ter acontecido nada. Até hoje, tantos anos depois, continua sendo um mistério o que a comadre Izaltina possa ter ouvido. Ela ficou muitos meses sem voltar à nossa casa. No dia que retornou fez que nada tivesse acontecido, enfiou as narinas nas panelas e elogiou a comida.



- Postado por: Neusa às 23:08:08
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Reverência ao Destino



Falar é completamente fácil, quando
se tem palavras em mente que
expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e
atitudes o que
realmente queremos dizer, o quanto
queremos dizer, antes que a pessoa se vá.


Fácil é julgar pessoas que estão
sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir
sobre os seus erros, ou tentar fazer
diferente algo que já fez muito errado.


Fácil é ser colega, fazer companhia a
alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas
e dizer sempre a verdade quando
for preciso. E com confiança no que diz.


Fácil é analisar a situação alheia e
poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber
o que fazer. Ou ter coragem pra fazer.


Fácil é demonstrar raiva e impaciência
quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém
que realmente te conhece, te respeita
e te entende. E é assim que
perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que
tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nós iludimos com o
que achávamos ter visto.Admitir que
nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus".
Principalmente quando somos
culpados pela partida de alguém de nossas vidas..

Fácil é abraçar, apertar as mãos,
beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é
transmitida. Aquela que toma
conta do corpo como uma corrente
elétrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de
viver, sem ter medo do depois. Amar e
se entregar. E aprender a dar
valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência.
Acenando o tempo todo, mostrando
nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las. Ter a noção exata
de nossas próprias vidas, ao invés de
ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para
escutar esta resposta. Ou querer
entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de
chorar ou chorar de rir, de alegria.


Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma. Sinceramente,
por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao
longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas
delas vão te aceitar como você é e te
fazer feliz por inteiro .

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém.
Saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.

Eterno, é tudo aquilo
que dura uma fração de segundo,
mas com tamanha intensidade, que se
petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.

(Carlos Drummond de Andrade)



- Postado por: Neusa às 21:26:43
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Hier encore

(Charles Aznavour)

 


Hier encore
J'avais vingt ans
Je caressais le temps
Et jouais de la vie
Comme on joue de l'amour
Et je vivais la nuit
Sans compter sur mes jours
Qui fuyaient dans le temps

J'ai fait tant de projets
Qui sont restés en l'air
J'ai fondé tant d'espoirs
Qui se sont envolés
Que je reste perdu
Ne sachant où aller
Les yeux cherchant le ciel
Mais le coeur mis en terre

Hier encore
J'avais vingt ans
Je gaspillais le temps
En croyant l'arrêter
Et pour le retenir
Même le devancer
Je n'ai fait que courir
Et me suis essoufflé

Ignorant le passé
Conjuguant au futur
Je précédais de moi
Toute conversation
Et donnais mon avis
Que je voulais le bon
Pour critiquer le monde
Avec désinvolture

Hier encore
J'avais vingt ans
Mais j'ai perdu mon temps
A faire des folies
Qui ne me laissent au fond
Rien de vraiment précis
Que quelques rides au front
Et la peur de l'ennui

Car mes amours sont mortes
Avant que d'exister
Mes amis sont partis
Et ne reviendront pas
Par ma faute j'ai fait
Le vide autour de moi
Et j'ai gâché ma vie
Et mes jeunes années

Du meilleur et du pire
En jetant le meilleur
J'ai figé mes sourires
Et j'ai glacé mes pleurs
Où sont-ils à présent
A présent mes vingt ans?




- Postado por: Neusa às 21:24:19
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SOLIDÃO

 

Menininha, porque você está tão sozinha?

Com esse sorriso triste e esse olhar cansado,

Você continua esperando quem disse que vinha?

 

Não fique triste, menininha, olhe para o lado

E ponha a dor para dormir nesta caminha.

Já é tarde, todos se retiraram, você está sozinha.

 

Mas não tenha medo, menininha – pegue o sonho,

A saudade, a esperança, ainda que pequenininha -

Pra lhe fazerem companhia neste mundinho tristonho.

 



- Postado por: Neusa às 23:34:41
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E a outra é esta...

Desacostumei de Carinho

(Fátima Guedes)

Desacostumei de carinho
Não pegue desse jeito em mim
Que eu passei tanta dor que ainda hoje guardo
Uma semente ruim

Apenas não me olhe assim
Que eu tenho pronto um sorriso amigo
Que me defendo do perigo
E guarda você de mim

Desculpe, mas por dentro
Eu sou tão machucada...
Eu nunca fui paixão de ninguém
E sempre a tola apaixonada

Eu desacreditei de amor
Não pegue desse jeito em mim
Quem sabe eu passo pra você
Minha semente ruim


Volta


- Postado por: Neusa às 22:59:45
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Hoje encontrei duas pérolas da MPB...uma delas é esta:

Mordaça

(Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro)

CD: Luzes da Mesma Luz
Gravadora: Dabliú
Ano: 2001

Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva
O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa

É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar

Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva
E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar


 


- Postado por: Neusa às 22:58:49
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CHARRETES

 

A menina ficava encantada com as charretes. Era um dos melhores meios de locomoção no pequeno povoado: bancos estofados, cobertura de lona colorida, desenhos nas laterais e na traseira, os cavalos sempre limpos e penteados. Só não entendia porque as pessoas mais velhas não gostavam de olhar para as mulheres que circulavam de charrete pelas ruas. Algumas vizinhas de sua mãe chegavam a fechar ostensivamente as janelas quando ouviam o trote dos cavalos e o barulho característico de uma charrete.

Um dia ela se aproximou bastante de uma que parara próximo de sua casa. Olhou o charreteiro, uma pessoa comum, e depois para a passageira. A mulher parecia uma artista de cinema: muita pintura no rosto, o vestido lindo e bastante decotado, as unhas longas e vermelhas e o magnífico leque balançando de um lado para outro... só podia ser artista, mesmo. A menina encantou-se com a beleza da charrete e da passageira. Imaginou-se adulta, vestida e maquiada como a mulher, passeando de charrete pelas ruas da cidade.

Entrou em casa e contou à sua mãe sobre seus sonhos para o futuro. Viu a mãe empalidecer e gaguejar.  Aos poucos foi entendendo o que lhe era explicado, mas não concordava muito. Como criança bem comportada, não questionou a mãe. Passou o dia pensando no que ouvira: as senhoras que andavam de charrete eram mulheres que não tinham acesso à igreja nem aos lugares públicos, e que deviam ser evitadas pelas pessoas de bons costumes. A mãe tinha dito que elas moravam afastadas da cidade porque exerciam uma profissão muito  feia e condenada pela igreja católica.

A menina continuou a sua infância vendo o passar diário das charretes e das meretrizes (era esse o nome, a mãe dissera) pelas ruas da cidade. Aos poucos foi entendendo o significado daquela profissão e seu estigma social. Deixara de olhar fixamente para aquelas mulheres, no entanto ainda sentia um certo encanto pelas roupas e adereços que elas ostentavam. Não deixava de sentir-se atraída pelo barulho da charrete e pelo trotar dos cavalos.

O tempo passou, a menina virou mocinha e foi trabalhar na cidade grande. Numa de suas idas para a cidade natal, de ônibus, chegou recepcionada por um forte temporal. Não dava para ir da rodoviária até sua casa sem ficar ensopada de chuva. Viu um táxi estacionado ali perto e acenou. O motorista aproximou-se, ela deu o endereço e chegou em casa sem se molhar. Foi recebida com carinho pela mãe e irmãs, saudosas pelo tempo que não se viam. Somente a Magnólia é que fez uma observação cruel: “ Você gostava de charretes quando era pequena, agora anda de táxi, que só é usado pelas mesmas prostitutas?”.



- Postado por: Neusa às 21:51:10
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Hoje é aniversário do meu filho Fernando. Publicitário por formação, músico por vocação, um belo jovem com um coração maravilhoso. Minha homenagem a ele, que recebi como presente de Deus num lindo dia de maio.

 

Parabéns, meu filho!

 

Hoje vou abraçá-lo e dar-lhe um beijo especial. Mais que isso, quero agradecer a Deus pelo filho que Ele me deu. Nem sempre é fácil expressar em palavras as coisas que estão no coração, mas me sinto muito feliz por ter você em minha vida.

Preciso também agradecer a você pela sua ternura e paciência. Por sua integridade de caráter, sua inteligência, sua alma pura, sua sensibilidade e sinceridade. Você é cheio de qualidades, meu filho, talvez muitas você nem as reconheça. Mas os olhos de mãe vêem tudo, mesmo quando os lábios não dizem nada.

Desde que você nasceu, sempre estive ao seu lado, ensinando muitas coisas a você - algumas não tão importantes assim, não é? E nem sempre acertando, porque mãe erra muitas vezes. Agora me pego aprendendo muito com você e acho que tenho ainda muito que aprender.

Nesse dia especial, meu filho, desejo que você seja feliz. Feliz no caminho que escolher, nas atitudes que tomar, nas escolhas que fizer. Estarei sempre ao seu lado quando precisar de mim, e peço a Deus que te abençoe e te proteja sempre.

Parabéns, Fernando, comemore muito seu aniversário, pois estamos todos comemorando a alegria de conviver com você.

 

 



- Postado por: Neusa às 00:55:56
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Infelizmente deletei várias mensagens por descuido. Algumas estão aqui, recuperadas do Word, mas sem a ordem cronológica da postagem anterior. Talvez uma ou outra tenha ficado esquecida. Se vocês se lembrarem de qualquer delas que tenha ficado sem republicar, por favor, me avisem.



- Postado por: Neusa às 00:14:34
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A NOIVA E A LUVA

 

A prima Marieta se casara no mês anterior. Foi festa para nenhuma comadre colocar defeito, porém ninguém entendia aquele casamento repentino. A moça não quis um noivado longo como era praxe, e seis meses depois que conheceu o Alberico já estava de casamento marcado. As línguas ferinas cochichavam nos portões e os olhares maliciosos espreitavam o corpo da noiva tentando ver sinal de barriga.

 A lua de mel foi em Poços de Caldas, tradição das famílias de posse. Depois de se instalarem na nova casa, os pombinhos foram visitar os tios e agradecer a ajuda nos preparativos da festa. Levaram as fotos do casamento e da viagem. Foram muitos ah’s e oh’s, ao observarem cada detalhe que não fora percebido na cerimônia, bem como de deslumbramento pelas lindas paisagens mineiras. As crianças não viram as fotos junto com os adultos porque era assunto de gente grande. Só depois das visitas terem se retirado é que puderam ver a fotografia deixada de recordação: o casal na igreja, após a cerimônia, posando para o fotógrafo.

A pequena Nilza, sempre atenta a tudo, tinha ouvido o murmurar da vizinhança sobre a possível gravidez da noiva, mas não entendia muito do assunto. Mal sabia como um bebê nascia. Tinha ouvido falar que quando um moço encostasse seu corpo numa moça, essa ficava de barriga e logo depois nascia uma criança. Tinha espreitado bem a prima recém-casada, mas não vira sinal de barriga. Devia ser maldade, pensou. Era assunto pra conversar com as irmãs num momento de ausência dos pais.

Domingo de manhã, como de hábito, os pais foram à missa com as filhas mais velhas. As menores ficaram em casa brincando de casinha. A Nilza entrou no quarto dos pais e encontrou a foto do casamento da prima. Pegou-a nas mãos olhando cada detalhe: o vestido bonito e o longo véu da noiva, o cabelo lustroso de brilhantina do noivo, e ao fundo alguns convidados, ou padrinhos, ela não sabia direito. De repente um detalhe chamou sua atenção. Olhou assustada para a mão enluvada da prima e não se conteve. Aos gritos, chamou as irmãs que vieram prontamente. Então ela mostrou a prova de que a prima estava esperando um filho, mesmo, como as vizinhas tinham desconfiado. As irmãs olharam atentamente para a fotografia e concordaram com a Nilza. A prima tinha se casado de barriga, sim, não havia dúvida. Guardaram a foto no lugar e o segredo ficou entre elas.

Passados os anos, numa reunião de família, a Nilza e as irmãs reviam velhos álbuns de retratos. Entre tantos outros, reviram a fotografia do casamento da prima Marieta. A Nilza teve um acesso de riso. Lembrou-se do segredo descoberto na infância e mostrou a prova para as irmãs recordarem. A mão enluvada da noiva segurava a mãozinha de uma criança, provavelmente a madrinha de aliança, que o fotógrafo cortara. Na fotografia não se via mais nada da criança, apenas a pequena mão dentro da mão enluvada da noiva. E era essa a prova da gravidez: uma mãozinha de criança!

 



- Postado por: Neusa às 00:07:44
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Todo o Sentimento.
(
Cristóvão Bastos/Chico Buarque).

Preciso não dormir,
Até se consumar
O tempo
Da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar
E urgentemente.
Pretendo descobrir,
No último momento,
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente,
Doente,
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.
Depois de te perder
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada.
Nada aconteceu,
Apenas seguirei, como encantado,
Ao lado teu.



- Postado por: Neusa às 00:02:28
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Temos Todos a Mesma História (Oswaldo Montenegro)

Temos todos a mesma história
Várias ondas e um oceano
Vários fatos e uma memória
Vários jogos e um só engano
Temos todos as mesmas lendas
E eu achava que era sozinha
Um soneto e várias emendas
Sou mil versos e uma só linha
Temos todos o mesmo medo
Dez mil passos e uma só dança
Dez mil papos e um só segredo
Dez mil dores e uma esperança
Temos todos a mesma história
E hoje a tua passa a ser minha
Meu passado tua memória
E eu passei a não ser sozinha



- Postado por: Neusa às 00:01:04
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SUBURBANO CORAÇÃO

(Chico Buarque)

 

 

A casa está bonita
A dona está demais
A última visita
Quanto tempo faz
Balançam os cabides
Lustres se acenderão
O amor vai pôr os pés
No conjugado coração
Será que o amor se sente em casa
Vai sentar no chão
Será que vai deixar cair
A brasa no tapete coração

Quando aumentar a fita
As línguas vão falar
Que a dona tem visita
E nunca vai casar
Se enroscam persianas
Louças se partirão
O amor está tocando
O suburbano coração
Será que o amor não tem programa
Ou ama com paixão
Mulher virando no sofá
Sofá virando cama coração
O amor já vai embora
Ou perde a condução
Será que não repara
A desarrumação
Que tanta cerimônia
Se a dona já não tem
Vergonha do seu coração



- Postado por: Neusa às 00:00:17
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SECRETÁRIA ELETRÔNICA

 

Você ligou para o atendimento de emergência do Solidariedade. Se seu problema for financeiro, pressione a tecla um do seu aparelho. Se seu problema for afetivo, pressione dois. Para solidão e angústia, pressione a tecla três. Se você não tem problemas e ligou para falar sobre qualquer outro assunto, coloque o aparelho no gancho, pois você deve ter discado o número errado.



- Postado por: Neusa às 23:58:49
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Retrato em branco e preto
Tom Jobim - Chico Buarque/1968

 

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

 



- Postado por: Neusa às 23:58:08
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REENCONTRO

 

Ela abriu as portas do armário, meio que distraidamente. Mal teve consciência que as portas resistiram um pouco à pressão das mãos nos puxadores. Assustou-se com o que viu. Nada daquilo lhe pertencia, eram coisas desconhecidas. Sequer distinguia aqueles estranhos objetos, que em nada se assemelhavam aos que sempre guardara naquele espaço. Achou que faltava luz para descobrir o que havia acontecido com aquele armário tão seu, tão íntimo. Desligou o abajur e acendeu a lâmpada do teto. Sufocou um grito ao se deparar com a crueza do que ali se apresentava. O armário estava repleto de esqueletos.

Foi tirando um a um, atirando-os com raiva contra o chão. Quem poderia ter trocado seus sonhos, suas esperanças, os cabides de alegria e fé, por aquelas figuras ameaçadoras? Esvaziou o armário, olhou para o chão coberto de esqueletos, sem saber como se livrar daquele fardo. Eram objetos inúteis, assustadores, monstros surgidos de alguma cavidade ou entranha muito negra. Porém deviam ser seus, pois que estavam no seu armário, lugar onde apenas ela tinha acesso e detinha a chave. Tentou reconhecê-los, apanhando um de cada vez e expondo-o à luz mais forte. Alguma coisa em um ou outro lhe trazia alguma lembrança, até uma certa impressão de familiaridade. Sentou-se na cama e passou a observá-los melhor. Os sentimentos agora eram contraditórios, misto de repulsa e compaixão.

Aquele esqueleto maior, que parecia tão volumoso a ponto de sozinho poder tomar conta de todo espaço do armário, era o que mais a intrigava e instigava. Num misto de medo e coragem, tomou-o nos braços e dirigiu-se ao espelho. Lado a lado, seu rosto e o rosto do esqueleto, refletiam a mesma imagem, uma única pessoa duplicada. E era o rosto dela.

Foi pegando os esqueletos um a um e repetindo o ritual e vendo sempre o seu próprio rosto no reflexo dos objetos no espelho. Sentiu uma estranha ternura por cada um e por todos. Levou-os, então, à cama, abraçou-se a eles e, chorando, reconheceu-os. Eram seus, ela os criara, ela mesma lhes dera a vida. Tornou a guardá-los carinhosamente no armário. Não lhe faziam medo mais. Fechou a porta com cuidado, pegou o manto da verdade, vestiu-o e saiu para ver a vida.



- Postado por: Neusa às 23:57:02
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Esta música era uma das preferidas de minha mãe. Hoje, ao anoitecer, lembrei-me das duas: da mãe e da música. Quis compartilhar com vocês.

 

Ave Maria

Cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor,

Despertando no meu coração a saudade do primeiro amor.

Um gemido se esvai lá no espaço nesta hora de lenta agonia,

Quando o sino saudoso murmura badaladas da Ave Maria.

Sino que tange com mágoa doída, recordando o sonho da aurora da vida,

Dai ao meu coração paz e harmonia na prece da Ave Maria.

No alto do campanário, uma cruz simboliza o passado

De um amor que já morreu, deixando um coração amargurado.

 



- Postado por: Neusa às 23:55:19
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Escravo da Alegria

 
Especialmente para você!
 
(Toquinho/Vinícius)
 
E eu que andava nessa escuridão
De repente foi me acontecer
Me roubou o sono e a solidão
Me mostrou o que temia ver
Sem pedir licença, nem perdão
Veio louca pra me enlouquecer
Vou dormir querendo despertar
Pra depois de novo conviver
Com essa luz que veio me habitar
Com esse fogo que faz arder
Me dá medo e vem me encorajar
Fatalmente me fará sofrer
 
Ando escravo da alegria
Hoje em dia minha gente 
Isso não é normal
Se o amor é fantasia
Eu me encontro ultimamente
Em pleno carnaval

 



- Postado por: Neusa às 23:53:10
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DÚVIDAS EXISTENCIAIS

 

A primeira comunhão era um acontecimento social tanto quanto um ritual de se receber um sacramento. Nos idos de 1950 as crianças recebiam a primeira eucaristia antes mesmo de serem alfabetizadas. As aulas de catecismo, tão importantes quanto o curso de alfabetização, eram ministradas por senhoras escolhidas a dedo pelo pároco, que também supervisionava de perto.  Depois de muita decoração de orações, mandamentos, sacramentos e mais uma infinidade de acontecimentos da igreja católica, chegava o dia do exame final. Só eram aprovadas aquelas que soubessem tudo na pontinha da língua, sem fraquejar nas respostas. O exame era feito pelo senhor Bispo, temido e respeitado - na verdade muitíssimo temido.

A pequena Marilza, nos seus cinco anos de vida, começando ainda a aprender as primeiras letras do alfabeto, já terminara o curso de catequismo. Faltava apenas passar pelo crivo do senhor bispo para fazer a primeira comunhão já no domingo seguinte. Estava entusiasmada com o vestido branco cheio de rendas e fitas, o sapato novo e também branco, o véu e o casquete. Já se imaginava toda paramentada, o centro de atenções da família, e antevia o seu Valentim documentando na nova máquina fotográfica o grande acontecimento.

Chegou o dia da prova. Todas as crianças sentadinhas nos bancos da igreja, a catequista e o padre dando as últimas instruções de como se portar perante a autoridade examinadora. O bispo entra na igreja com certa imponência e a criançada treme. Cumprimenta todos, as crianças lhe beijam a mão, e ele dá início à prova oral. A Marilza, sentadinha no primeiro banco, foi a escolhida para iniciar a sabatina. O bispo lhe parecia enorme, em pé, frente a ela que estava sentada. Ele lançou a primeira pergunta: “És cristão?”. A Marilza não teve dúvidas e respondeu de imediato, mas sua voz saiu pequenina pelo medo da figura imponente à sua frente :”Sim”, murmurou ela. O senhor bispo gostava de resposta forte e segura, então repetiu a pergunta, desta vez em tom mais alto e imperativo: “ÉS CRISTÃO?”. A Menina tremeu e vacilou. Pensou que tivesse errado a resposta e o bispo estaria repetindo a pergunta para dar-lhe outra chance. Enquanto refletia, o bispo, impaciente, perguntou pela terceira vez: “És cristão?”. A Marilza não teve mais dúvida. Caprichou na voz forte e segura e respondeu-lhe sonoramente: “Não, senhor, não sou!”.

O vestido, o sapato, as fotos e tudo o mais ficaram adiados para o próximo ano.



- Postado por: Neusa às 23:51:30
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DUPLA PERSONALIDADE

 

 

A tia chegou no trem das seis da manhã. Trouxe a netinha, de ano e meio, e foi logo falando que a criança esteve agitada e febril durante toda a viagem. Olhamos a menininha, lindinha, mas com os olhos brilhantes de febre, o corpinho sem forças, e decidimos levá-la ao hospital. A meningite já estava se transformando em epidemia no Estado e era melhor prevenir.  Infelizmente o médico diagnosticou meningite meningocócica e a garotinha morreu dois dias depois. Além da tristeza, havia o perigo de termos sido também afetadas pela doença, altamente contagiosa. Fomos orientadas a tomar um remédio bastante forte, em dose única, naquela mesma noite. O médico também alertou que o remédio era eficaz na proteção, porém possuía efeitos colaterais desconhecidos.

Um pouco receosas, mas o senso de sobrevivência prevalecendo, optamos por tomar o tal comprimido. O acordar no dia seguinte não foi tão diferente, senti apenas uma leve dor de cabeça. Mas tinha que trabalhar e às seis e quarenta, em ponto, o motorista da empresa passaria para me buscar. Já estava quase pronta quando vejo minha irmã se levantar, agitada, dizendo que estava atrasada para o trabalho. Estranhei porque ela era professora e só dava aulas no período da tarde. Perguntei onde ela ia trabalhar àquela hora. Respondeu-me com a maior naturalidade: “Na Cetenco, oras. Daqui a pouco o Genésio vem me buscar”. Fiquei boquiaberta! Ela havia dito que iria trabalhar na “minha” empresa, e estava aguardando o “meu” motorista. Olhei bem para minha irmã e vi que não era uma brincadeira, ela estava mesmo decidida a ir no meu lugar. Perguntei o nome do chefe dela. Ela declinou o nome do meu. Perguntei qual era o nome dela. Ela respondeu com o meu. Confusa com a confusão na cabeça dela,decidi fazer alguma coisa. Chamei-a pelo meu nome e, calmamente, disse-lhe que era domingo, que não era dia de trabalhar, e que ela fosse dormir novamente. Ela concordou, levei-a para seu quarto e a fiz deitar-se na cama. Despedi-me chamando-a pelo meu nome, contei pra minha mãe o acontecido e saí para o trabalho.

Voltei para casa na hora do almoço. Minha irmã estava acordada e aparentemente bem. Foi ela quem me chamou pelo nome, dando risada, e disse que não sabia o que havia acontecido. Só sabia que acordara naquela manhã sentindo que era eu, que tinha meu nome e o meu trabalho. Quando deixei-a na cama ela tinha dormido novamente e, ao acordar, minha mãe conversou com ela. Minha irmã não se lembrava de nada. A princípio ficou assustada, depois foi achando divertido ter sido outra pessoa por alguns minutos.

Até hoje não sabemos o que pôde ter provocado isso. Minha disse que foi o efeito do remédio tomado na noite anterior.



- Postado por: Neusa às 23:50:31
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Confissão

 

Dou palavras de consolo

quando o que mais preciso é colo.

Abro o riso, a gargalhada

E dentro de mim só tenho o nada.

A dor do outro eu acolho, recolho,

Mas não posso revelar meu choro.

Não devo pedir nem rogar,

Só posso doar, entregar.

Tenho que dizer doces palavras

E ouvir sempre um rio de lavas.

Mas quem me desata este nó na garganta?



- Postado por: Neusa às 23:47:38
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ANDOR: AMOR E DOR.

 

Ela cursava a Escola Normal e tinha dezesseis anos. Ele estava no curso Científico, tocava piano, e sua maior qualidade era ser religioso ao extremo. Pertencia à Congregação Mariana da paróquia local, comungava todos os domingos e ajudava em todas as atividades da igreja. Ela não tinha lá muito sucesso em suas experiências amorosas, mas decidiu-se por conquistar o rapaz. Decerto que seu exigente pai aprovaria. O moço Ramiro não tinha um vício sequer, era educado e inteligente, além do que até trocava de meias três vezes por dia. 

No intento da conquista, passou a freqüentar todas as atividades da igreja. Entrou no coral das Filhas de Maria e tentava trocar sua voz esganiçada por um soberbo contralto. Lá de cima via o moço dirigir-se para a comunhão, o que a emocionava até às lágrimas. O Ramiro, porém, sequer erguia os olhos para o coro.

Tentou uma cartada certeira. Era semana santa e haveria procissão, mais precisamente a Procissão do Encontro da quinta-feira santa. Por uma porta da igreja saíam as mulheres carregando o andor de Nossa Senhora das Dores. Pela outra porta saíam os homens acompanhando o andor de Jesus carregando a Cruz. As duas procissões percorriam trajetos diferentes e se encontravam frente à porta principal da igreja. A solenidade de Verônica enxugando o rosto de Jesus, a emoção do encontro da Mãe com o Filho prestes a ser crucificado trazia um clima de tristeza e emoção. Mas para a Anita o que importava era que o Ramiro ia coordenar a procissão das mulheres para que chegasse ao mesmo tempo que a procissão dos homens.

Ela ajeitou-se na fila da procissão, logo atrás do andor, juntamente com as mulheres que puxavam os hinos religiosos. O andor era bem grande e a imagem da Virgem Dolorosa tinha a altura de uma mulher de pequeno porte. As mulheres que conduziam o andor se revezavam, porque este pesava muito. Num desses revezamentos, Anita decidiu que seria naquele momento ou nunca que chamaria a atenção do rapaz. Num ato de coragem ofereceu-se para ajudar a carregar o andor. Naquele lugar de destaque é claro que o moço a veria e perceberia que ela tinha uma fé do tamanho apropriado aos impulsos religiosos dele.

 E foi assim que ela colocou sobre os ombros uma das pontas do varal do andor e começou sua trajetória gloriosa. Por poucos passos, porque o andor pesava muito mais do ela supunha. Sendo ela mais baixa que as outras três mulheres, o desnível fazia com que o peso recaísse sobre os seus ombros. Foi diminuindo, sem querer, o passo, obrigando as outras três mulheres a diminuírem também. Poucos minutos depois toda a procissão havia passado ao lado do andor, restando apenas o grupo das cantoras atrás de um andor atrasado. Foi aí que o Ramiro apareceu. Discutiu com as mulheres que carregavam o andor, reclamando do atraso. As mulheres culparam a Anita e o moço nem pestanejou: despediu-a sumariamente do cargo de carregadora, sem sequer olhar para o rosto dela.

Anita se quedou paralisada. As procissões se encontraram, a população chorou o drama de Cristo, e ela ali parada feito estátua. Ombro doído, coração partido, ego esfacelado...

Alguns meses mais tarde o Ramiro começou namorar uma moça mais alta que ele. Católica fervorosa também. E excelente carregadora de andores. 

 

 



- Postado por: Neusa às 23:42:32
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O ESTOURO DA BOIADA

 

Havia apenas uma escola na cidadezinha. As irmãs estudavam naquele Grupo Escolar: as duas mais velhas à tarde e a mais nova no período da manhã. As menores ainda ficavam em casa, com a mãe. Naquela manhã a Marilza  não teve aula. A professora, adoentada, não foi dar aulas, então a Diretora dispensou a classe. A Marilza e a Dada resolveram aceitar o convite da Sônia para ir à chácara onde ela morava, pertinho dali. Seria bem rapidinho: iriam correndo, ficariam por lá apenas o tempo de chupar manga rosa no pé, e já voltariam para suas casas. E foram, felizes pelo dia de folga, despreocupadas porque voltariam antes do horário de terminar a aula. A Marilza apenas esqueceu-se que sua irmã lhe levava o lanche todos os dias no horário de recreio.

Enquanto caminhavam pela estradinha que dava na chácara, na cidade a situação era preocupante. Uma boiada que por lá passava sofreu um estouro. Alguns bois escaparam do controle dos boiadeiros e estavam atacando pessoas, entrando nos quintais e fazendo o diabo. A Marília, depois que a situação acalmou, foi levar o lanche para a irmã Marilza. Alguns alunos falaram pela cerca da escola que ela tinha ido para casa em virtude da dispensa. Marília voltou pra casa e contou pra mãe. Essa ficou descabelada de preocupação. Onde a filha teria ido? De repente o temor cresceu: e se algum boi a tivesse matado? Ouvira dizer que algumas pessoas ficaram feridas e foram levadas para o hospital da cidade vizinha. Foi até a rua e ainda teve tempo de ver um dos boiadeiros no boteco. Perguntou-lhe se os bois haviam matado alguma menina, ou ferido gravemente, isso aos prantos e ao mesmo tempo brava com o moço. Esse, sentindo-se ofendido, gritou que os bois dele não eram assassinos.

A mãe, enfurecida e mais assustada ainda, mandou avisar o pai. Este colocou todo o efetivo de três policiais à procura da Marilza e da Dada, porque a essa altura a mãe já perguntara para a mãe da coleguinha e soube que Dada também não voltara para casa. A polícia vasculhou a cidade, os arredores, o córrego, a pequena represa, e nada. Os policiais, desolados, voltaram para a delegacia, contaram ao seu Valentim e este chamou reforço da delegacia da cidade vizinha. Enquanto isso as duas amiguinhas, despreocupadas, tomavam o caminho de volta.

Marilza chegou à sua casa. A mãe não sabia se abraçava a filha, pelo alívio que sentia ao vê-la sã e salva, ou se dava-lhe um corretivo. Mandou-a tirar o uniforme, foi até o quintal, colheu uma vara de guanxuma e deu-lhe algumas lambadas, desafogando assim sua preocupação imensa e sua braveza. As irmãs mais velhas sentiram pena, as mais novinhas puseram-se a chorar junto com a Marilza, não se sabe se por apoio moral ou por medo de sobrar alguma lambada para elas. A mãe bateu e depois chorou muito, misturando seu choro ao da filha castigada e ao das irmãs solidárias. Só o boiadeiro, ainda encostado na parede do boteco, tomando sua branquinha, ria a mais não poder, sentindo-se vingado por terem chamado seus bois de assassinos.

 



- Postado por: Neusa às 21:51:57
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Ovos bem passados

 

Família grande, muitas filhas, a mãe nem sempre conseguia dirigir seus olhos atentos para todas ao mesmo tempo. Era nesses momentos de distração que certas coisas aconteciam. Marcela aproveitou quando sua mãe estava entretida com a fazedura de pães e chamou sua amiga Valda. Entre uma conversa e outra, falaram das galinhas que dona Irene criava no quintal. Marcela admirava as aves soltas no quintal e sua proliferação intensa. Sempre nasciam pintinhos, que logo cresciam e seguiam dois caminhos: se frango, ia para a panela; se galinha, botava ovos, chocava-os e aumentava a criação. No quintal todo gramado havia dezenas de ninhos e a mãe de Marcela recolhia os ovos frescos todas as manhãs. Quando a galinha estava choca, os ovos ficavam no ninho até nascerem os pintinhos.

Naquele dia a Valda quis olhar os ovos. Visitou todos os ninhos e um chamou sua atenção por ter dois ovos. Será que dona Irene se esquecera de recolher justamente aqueles dois? Não havia galinha por perto, sinal de que não estavam sendo chocados. Bem, eram ovos frescos, e porque não cozinhá-los? Marcela aprovou a idéia, pegou os dois ovos e foram as duas para a cozinha. Os ovos foram cozidos e colocados em pratinhos. Já com água na boca de vontade consumar aquele ato de iniciativa culinária, ambas abriram os ovos quase que simultaneamente. Foi então que os dois pares de olhos se esbugalharam, ouviram-se dois gritos e as duas meninas mal podiam acreditar no que viam: os ovos estavam chocos, e dentro de cada um havia um pintinho...cozido! As duas correram para o banheiro, numa ânsia de vômito incontrolável.

As outras irmãs, mais velhas, ao ouvirem os gritos correram para a cozinha. Foi só olhar para a mesa e deduzir o acontecido. Foram atrás da Marcela e da Valdi, cantando em coro: “tem pintinho, tem / tem pintinho,tem / tem pintinho, tem / no ovo que eu comi”. As amigas ficaram o resto do dia com engulhos e com remorsos. No dia seguinte, porém, já estavam dispostas a comer ovos novamente, desde que fossem frescos, claro. Só não entenderam  porque a irmãzinha da Marcela, que de tão assustada nem pôde cantar a musiquinha do pintinho, desde aquela data se recusou a comer ovos. Há que se ressaltar que a Nilza não come ovos até hoje!



- Postado por: Neusa às 21:00:10
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Soneto
Chico Buarque/1972
Para o filme Quando o carnaval chegar de Cacá Diegues

 

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio



- Postado por: Neusa às 20:13:01
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Afetividade

 

Todos falam e discutem as desigualdades sociais. E as desigualdades afetivas? Já foram tema de discussão, tese, já constou em manchetes de jornal? Me preocupa este assunto e creio que atinja uma quantidade grande de pessoas, os excluídos da afetividade. São adultos sozinhos, ou numa solidão acompanhada (a pior forma de solidão), que buscam não sabem o quê e nem sabem por onde começar. Nessa busca sem rumo acabam tropeçando em seus próprios passos, caindo em armadilhas ou ficando à beira de precipícios.

Lembrei-me de uma história assim contada: “Tive infância e adolescência felizes, cheias de afeto familiar. Tornei-me adulta. Fui viver a minha vida. Foi então que percebi que recebia apenas trocados de amor, nunca um cheque nominal, polpudo, recheado de coração”.



- Postado por: Neusa às 00:02:05
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DUPLA PERSONALIDADE

 

 

A tia chegou no trem das seis da manhã. Trouxe a netinha, de ano e meio, e foi logo falando que a criança esteve agitada e febril durante toda a viagem. Olhamos a menininha, lindinha, mas com os olhos brilhantes de febre, o corpinho sem forças, e decidimos levá-la ao hospital. A meningite já estava se transformando em epidemia no Estado e era melhor prevenir.  Infelizmente o médico diagnosticou meningite meningocócica e a garotinha morreu dois dias depois. Além da tristeza, havia o perigo de termos sido também afetadas pela doença, altamente contagiosa. Fomos orientadas a tomar um remédio bastante forte, em dose única, naquela mesma noite. O médico também alertou que o remédio era eficaz na proteção, porém possuía efeitos colaterais desconhecidos.

Um pouco receosas, mas o senso de sobrevivência prevalecendo, optamos por tomar o tal comprimido. O acordar no dia seguinte não foi tão diferente, senti apenas uma leve dor de cabeça. Mas tinha que trabalhar e às seis e quarenta, em ponto, o motorista da empresa passaria para me buscar. Já estava quase pronta quando vejo minha irmã se levantar, agitada, dizendo que estava atrasada para o trabalho. Estranhei porque ela era professora e só dava aulas no período da tarde. Perguntei onde ela ia trabalhar àquela hora. Respondeu-me com a maior naturalidade: “Na Cetenco, oras. Daqui a pouco o Genésio vem me buscar”. Fiquei boquiaberta! Ela havia dito que iria trabalhar na “minha” empresa, e estava aguardando o “meu” motorista. Olhei bem para minha irmã e vi que não era uma brincadeira, ela estava mesmo decidida a ir no meu lugar. Perguntei o nome do chefe dela. Ela declinou o nome do meu. Perguntei qual era o nome dela. Ela respondeu com o meu. Confusa com a confusão na cabeça dela,decidi fazer alguma coisa. Chamei-a pelo meu nome e, calmamente, disse-lhe que era domingo, que não era dia de trabalhar, e que ela fosse dormir novamente. Ela concordou, levei-a para seu quarto e a fiz deitar-se na cama. Despedi-me chamando-a pelo meu nome, contei pra minha mãe o acontecido e saí para o trabalho.

Voltei para casa na hora do almoço. Minha irmã estava acordada e aparentemente bem. Foi ela quem me chamou pelo nome, dando risada, e disse que não sabia o que havia acontecido. Só sabia que acordara naquela manhã sentindo que era eu, que tinha meu nome e o meu trabalho. Quando deixei-a na cama ela tinha dormido novamente e, ao acordar, minha mãe conversou com ela. Minha irmã não se lembrava de nada. A princípio ficou assustada, depois foi achando divertido ter sido outra pessoa por alguns minutos.

Até hoje não sabemos o que pôde ter provocado isso. Minha disse que foi o efeito do remédio tomado na noite anterior.



- Postado por: Neusa às 23:45:44
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DE MIM PARA COMIGO

 

Hoje eu me telefonei logo de manhã.

Me acordei e me sorri, admirando o sol.

Me sacudi, me coloquei frente ao espelho,

Joguei fora os olhos vermelhos.

Me despi, me feri, me atingi,

Para que assim eu pudesse, enfim,

Me ressurgir, me resgatar,

Me aplaudir e me aceitar



- Postado por: Neusa às 20:36:48
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TECIDOS MALUCOS

 

-Mãe, posso dar uma volta na praça com a Mari? – Pode, filha, mas volta logo, em uma hora estejam de volta. Foram as duas correndo para a avenida. Nem tanto para ver os meninos, era mais para não perder o hábito de dar uma passadinha no centro da cidade, olhar as vitrines, às vezes tomar um sorvete, e voltar rapidamente para casa. As duas eram amigas de muitos anos e agora, adolescentes, curtiam a fase dos segredinhos e das risadas intermináveis, às vezes sem motivo algum, só pelo prazer de rir. Já saíram de casa rindo. Chegaram à avenida principal da cidade e passaram em frente às Casas Pernambucanas. Viram o anúncio que dizia: TECIDOS DE QUALIDADE A PREÇOS MALUCOS”. Uma delas, numa leitura apressada, entendeu:“TECIDOS MALUCOS”. Já gargalhando, comentou com a amiga. Desataram a rir, a imaginação correndo solta: já viam os tecidos malucos em roupas prontas sobre os corpos das pessoas que também ficavam malucas e saíam saracoteando pelas ruas, numa maluquice sem fim. E se a diretora do colégio, aquela megera, usasse um tecido maluco, como se comportaria? Sairia dando piruetas pela escola? E o prefeito, trajando um perfeito terno maluco, decretaria feriado municipal por uma semana? E se o pároco vestisse uma batina confeccionada com um tecido maluco, aboliria a batina ou o confessionário? E o delegado de polícia, numa gravata maluca empinada sobre sua enorme barriga, permitiria a entrada de adolescentes de treze anos nos filmes proibidos para menores de catorze? O riso ficou incessante e a Silena não conseguiu se controlar mais. Molhou-se toda, pois cada vez que ria demais fazia xixi na roupa. Mas ali, em plena avenida central, era um vexame grande demais. Viram à frente da loja de tecidos uma loja de fotos. Correram a se esconder lá. A Silena sentou-se na primeira poltrona que encontrou. Por sorte não havia ninguém na loja. De repente surge o dono da loja, um japonês. Silena ficou retesada na cadeira, o japonês olhou para ela e perguntou se queria tirar fotografia. Ela disse que não, muito categoricamente, e começou a chorar dizendo que estava passando mal. O dono da loja, querendo ajudar, perguntou quem era a família dela, que ele iria avisar. Silena se assustou mais ainda, pois seu pai era muito conhecido na cidade, e, aos gritos, falou: “Não tenho pai, não tenho mãe, nem família! Não sou ninguém! Quero só um copo de água.” O solícito homem foi até os fundos da loja buscar água para a jovenzinha desesperada. As duas garotas, então, aproveitaram a ausência momentânea do homem e saíram correndo, deixando na poltrona a prova do crime. Entraram em seguida numa pensão, onde conheciam a proprietária e suas filhas. Pediram a uma delas que emprestasse uma roupa para a Silena. Já trocada, carregando numa sacola a roupa molhada, Silena e Mari voltaram correndo para casa, ainda dentro do horário combinado com a mãe. Nada contaram. Só as irmãs mais chegadas é que souberam da história e também riram muito da situação tragi-cômica.

Passado algum tempo, a notícia correu pela cidade: o proprietário da loja fotográfica havia cometido suicídio. Selena e Mari se perguntavam: “Será que foi por causa da poltrona molhada?”.



- Postado por: Neusa às 20:24:25
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SAUDADES

 

Tentei fazer uma homenagem às mães, juro que tentei. Desde sábado de manhã fiquei lutando com palavras e com as lágrimas. As lágrimas venceram, as palavras ficaram sem sentido. Só fui encontrar palavras novamente quando assumi a saudade imensa que estou sentindo. Da mamãe que se foi, dos irmãos que estão fisicamente longe de mim e que hoje particularmente eu queria abraçar e beijar, e ficarmos todos aninhados na Senzala revivendo histórias e fazendo planos, mesmo os mais mirabolantes. Falar por telefone com quase todos eles neste final de semana fez aumentar a saudade. Da Marilda, com sua alma generosa e jeito de mulher refinada nos gestos e palavras. Da Mayda e suas histórias incompletas e misturadas umas com as outras.  Da Marisa, a mística e inteligente irmã, que nos recebe sempre com alegria lá na nossa casa. Da Célia, que sonha tantos sonhos, que sabe descrever seus sentimentos na poesia. Da Ângela, minha irmã/alma gêmea, que está sempre no blog e no MSN comigo, trocando confidências, nos amparando uma à outra. Da Sílvia, que fez nesta semana uma difícil e corajosa opção de vida, e que fez de um passo atrás o encontro do caminho mais bonito. Da Ada, que também tomou decisões difíceis e corajosas para recomeçar. Do Cláudio, meu irmão que surpreendeu a todos ao se tornar um pai nota mil. Do Paulo, que tem tanto carinho por nós, que nos beija e abraça e chora conosco na tristeza, e que faz uma carne assada que põe as cozinheiras no chinelo. Do Zé Luiz, meu irmão do coração, que sendo o caçula foi quem mais me ensinou a viver, a acordar, a seguir em frente.

Ontem, na cerimônia de Nossa Senhora de Fátima, agradeci a Deus por essa família maravilhosa que Ele me concedeu. Agradeci aos meus pais, que já nos deixaram, mas que nos deram essa herança de amor e carinho entre irmãos. E rezei por todos, pedindo a Deus que preserve esse amor no coração de cada um de nós. E tenho certeza que nesse Dia das Mães a dona Irene, lá do Céu, deve estar vendo nossos corações e, junto com seu Valentim, devem estar de mãos dadas nos abençoando.

Meu afeto a vocês, meus irmão queridos. Amo vocês muito e muito!

 



- Postado por: Neusa às 23:13:21
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Pendurei meus sonhos no cabide.

O tempo os amarelou e cobriu de mofo.



- Postado por: Neusa às 16:47:13
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Um mandarin était amoureux d’une courtisanne. “Je serais à vous, dit-elle,

 lorsque vous aurez passé cent nuits à m’attendre Assis sur um tabouret, dans mon jardin, sous ma fenêtre”. A la quatre-vingt-dix-neuvième nuit, lê mandarin se leva, prit son tabouret sous son bras et s’em allá.

 

Rolland Barthes – Fragments Disc. Amoureux

 

 

 

Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã: «Serei vossa, diz ela, quando tiverdes passado cem noites à minha espera, sentado num tamborete, no meu jardim, debaixo de minha janela.» Mas, à nonagésima nona noite, o mandarim levantou-se, pôs o tamborete debaixo do braço e foi-se embora.


 



- Postado por: Neusa às 15:57:41
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A casa está bonita
A dona está demais
A última visita
Quanto tempo faz
Balançam os cabides
Lustres se acenderão
O amor vai pôr os pés
No conjugado coração
Será que o amor se sente em casa
Vai sentar no chão
Será que vai deixar cair
A brasa no tapete coração

Quando aumentar a fita
As línguas vão falar
Que a dona tem visita
E nunca vai casar
Se enroscam persianas
Louças se partirão
O amor está tocando
O suburbano coração
Será que o amor não tem programa
Ou ama com paixão
Mulher virando no sofá
Sofá virando cama coração
O amor já vai embora
Ou perde a condução
Será que não repara
A desarrumação
Que tanta cerimônia
Se a dona já não tem
Vergonha do seu coração



- Postado por: Neusa às 23:22:49
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SINA

 

Tenho que andar em linhas retas

Mesmo que os caminhos sejam tortos,

Mesmo que me atraia alguma seta

Que me conduza a novos portos.

 

 

 

S.O.S

 

Por favor, venha logo, não demore.

Antes que eu me esqueça que

Hoje é carnaval e me vista

Com as cores da quarta-feira de cinzas.

 

 

AULA DE GRAMÁTICA

 

Aprendi que o passado é imperfeito,

Que o presente é indicativo

E que o futuro é mais que perfeito.

Agora aprendi que você é subjuntivo.

 

 



- Postado por: Neusa às 20:32:05
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O leitão do Natal

 

O Natal era a festa mais esperada por todos.Além de toda simbologia católica e seus rituais, era quando as crianças ganhavam seu presente tão sonhado e a mãe assava carnes de sabor inigualável, reinando aí o famoso leitão recheado. O bichinho era comprado vivo uma semana antes. Na véspera do Natal era morto, limpo, temperado, e era assado no dia vinte e cinco para o almoço. O leitão era escolhido com todo cuidado pelo pai, e quando entregue em casa ficava no chiqueiro improvisado no extenso quintal. Naquele ano o pai elogiou muito o leitão adquirido: novinho, bem encorpado, parecia não ter muita gordura. Daria um assado especialmente saboroso! Durante oito dias a família alimentou o porquinho, tratando-o até com carinho, porém não muito, senão se apegariam a ele e ficariam com pena se o bichinho morresse.  No dia marcado, o pai chamou o matador de porcos. Chegando este, foram os dois caminhando até o chiqueiro e – surpresa – o porquinho não estava mais lá. Um buraco cavado no chão, junto à cerca, denunciava a fuga. O pai ficou furioso. Como é que fugira o melhor leitão já comprado? Convocou todas as filhas para saírem à cata do animal. Foi em vão. Ninguém na cidade vira algum leitão andando sozinho pelas ruas. O pai, arrasado, desistiu do leitão para aquele Natal. Compraria um simples pernil, já assado, no armazém do Diogo e ficaria por isso mesmo. O espírito do Natal não poderia ser destruído por um porquinho fujão. A família foi à missa do galo, como de hábito. Cearam e logo após foram dormir. As crianças pequenas demoraram mais a pegar no sono, ansiosas pela chegada do papai Noel. As mais velhas, estranhamente quietas naquela noite, foram caladas para seu quarto. Antes de dormir cochichavam entre si se o que fizeram seria ou não um pecado. A mais velha das três ralhou com as mais novas, alegando que salvar a vida de um animalzinho não era pecado. Aliás, apenas tinham cavado o buraco – o leitão tinha saído por sua própria conta. Deus não iria castigar por isso. Todas se renderam à lógica do raciocínio e então dormiram em paz.

O Natal do ano seguinte foi uma surpresa para toda a família: apareceu no quintal da casa um leitãozinho, vindo não se sabe de onde, e ajeitou-se no que tinha sido outrora um chiqueirinho. O pai achou-o parecido com o fujão do ano anterior, mas isso seria impossível. Perguntaram aos vizinhos se tinham perdido um leitão. Colocaram anúncio no serviço de alto-falantes da cidade. Não apareceu o dono. Na véspera do Natal, ainda sem uma única pista da origem do animal, decidiram que aquele seria o leitão do almoço do dia seguinte. Presente de papai Noel?



- Postado por: Neusa às 20:21:26
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A lua chegou mais cedo, para ver se ainda pegava o sol antes que ele se pusesse.

Não o encontrou.

Ficou até mais tarde, na esperança de ver o sol despontar no horizonte.

O sol não veio naquele dia.

A lua, triste, se cobriu de véus e foi dormir atrás das nuvens.



- Postado por: Neusa às 16:29:45
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ALARME FALSO

 

Trabalhavam em ritmo tenso e intenso durante toda a semana. Para compensar o desgaste físico e emocional, inventavam alguma atividade relaxante para o final da sexta-feira ou para o fim de semana. Desta feita iriam passar o sábado num hotel fazenda. Churrasco, piscina, passeios a cavalo, videokê, doces caseiros, muita mordomia e uma belíssima paisagem era tudo que se tinha direito. No dia do passeio, logo cedinho alguns já se postavam à frente da agência bancária onde trabalhavam - o ponto de encontro previamente estabelecido. O ônibus alugado para o transporte ainda não chegara. Duas funcionárias resolveram entrar na agência para usar o banheiro. Pela parede envidraçada o vigilante reconheceu a gerente e a chefe da cobrança, deixando-as entrar. O cuidado com a segurança ali era redobrado porque a agência havia sido assaltada recentemente e a gerente já fora seqüestrada também para este fim. O vigilante pediu que não demorassem, para não haver problemas. As duas logo saíram da agência e viram o ônibus fretado já estacionando em frente ao banco. Lembraram-se, então, que precisavam ainda comprar pilhas para o aparelho de som. Pediram ao motorista que as aguardasse um pouco e foram em verdadeira corrida até o posto de gasolina da esquina, enquanto os demais colegas adentravam no ônibus. Compraram na lojinha de conveniências do posto as pilhas, água para a curta viagem e saíram. Mal cruzaram a porta, viram dois policiais correndo em sentido oposto ao que elas iam. Ouviram também muitas sirenes de polícia. Assustadas, voltaram para a loja. Pensaram que fosse alguma perseguição a bandidos naquela avenida, então decidiram aguardar a situação se acalmar. A balconista da loja resolveu espiar o que estava acontecendo e voltou com a notícia: estavam assaltando a agência bancária onde as duas trabalhavam. Saíram da loja e foram olhar: havia cerca de oito viaturas de polícia em frente ao banco e muitos policiais armados com pistolas e metralhadoras. As duas moças ficaram paralisadas na calçada do posto, vendo a movimentação da polícia e os colegas imóveis dentro do ônibus. De repente algumas viaturas foram se retirando. Dois policiais, a pé, voltavam da agência. Indagados sobre o que houvera, responderam que fora somente um falso alarme de assalto recebido pelo comando. O ônibus, então, começou a se mover, parando onde as duas se encontravam. Entraram no veículo e todos, inclusive o motorista, olhavam-nas com ar meio estranho. Deviam ter sentido medo por elas, pensaram. O ônibus seguiu escoltado por uma das viaturas até alcançar a rodovia. Aí a conversa foi retomada. As duas que entraram por último levaram bronca de todos os colegas. Disseram que foram elas as culpadas pela movimentação policial. Quando saíram da agência, correndo, para ir até a loja de conveniências, algum comerciante próximo assustou-se com a correria de mulheres saindo do banco, estranhou o ônibus parado lá em frente e a movimentação de pessoas chegando e saindo. Chamou a polícia, que só foi embora quando constatou não haver assalto algum e que as duas mulheres que correram eram funcionárias do banco. Aliás, os policiais que haviam passado por elas sem vê-las, estavam justamente à procura das duas.

O assunto rendeu conversa durante o dia todo. Iria recomeçar na segunda-feira, sem dúvida, se o segurança da agência não houvesse dado uma notícia logo cedinho: enquanto o banco passava por toda a movimentação, recebendo todas as viaturas disponíveis na região, a agência do banco concorrente, a quinhentos metros dali, fora tranqüilamente assaltada, sem que a polícia chegasse a tempo.



- Postado por: Neusa às 00:40:54
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