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LAPSO

Fecharam-se as cortinas
-entr`acte-
O inverno escondeu-se nos bastidores
deixando a cena para a estação das flores

Despi-me do excesso de abrigos
-fantasias inúteis no novo palco-
e me vesti de cores e odores
de uma primavera em sobressalto

Brotei assim, num repente,
sem sequer esperar a transição
-importante-
de recompor os ramos antes de deixar romper as flores

Neusa
setembro/2003



- Postado por: Neusa às 22:07:55
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A VIDA

 

Vem ver a vida

Viver a vida

Sentir-se havida

Sentir-ávida

Ávida de vida

Da vida havida

Ah! Vida...

 

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QUESTIONANDO DARWIN

 

A turminha daquela classe era especial – especialmente terrível. Os professores odiavam ou amavam a classe, pois nunca viram tantos alunos inteligentes e críticos numa só turma. Entre todos os jovens, um quarteto se destacava. As quatro moças eram as mais brilhantes e também as mais ácidas. Numa alusão aos quatro grandes líderes mundiais daquela época da guerra fria elas se auto-denominavam “as quatro grandes”, com direito a sobrenome e tudo mais: eram a Marli Churchill, a Dejanira Kruschev, a Magda Eisenhower e a Zezé de Gaulle. Modestamente.

O professor de história era particularmente desprezado pelo quarteto. Ele poderia entender da matéria, mas a língua portuguesa não era o seu ponto forte. Entre outras pérolas, ele não dizia “étnico”, mas “etênico”; não pronunciava “incólume”, mas “incolume”, não conseguia dizer “auréola”, só “oréloa”. Era o assassino da língua-pátria.

Na aula daquele dia ele discursava sobre o evolucionismo darwiniano. A Dejanira, sentada na primeira fila, escreveu um bilhetinho e repassou para a terceira fila, onde estava a Marli. O bilhetinho dizia: “Este professor é uma distorção da teoria de Darwin. Ele não descende do macaco, mas do burro”.

 A Marli ainda lia o bilhete quando o professor se aproximou e pediu que o entregasse. Ela amassou o pedaço de papel entre os dedos e negou que tivesse recebido qualquer coisa. Ele insistiu, pedindo-lhe que abrisse a mão. Ela não teve outra saída a não ser ... engolir o papel! Meio engasgando, o bilhete querendo entalar na garganta, ela ainda tossia quando o professor chamou a inspetora de alunos, a terrível e temida dona Pizzirica. Esta encaminhou, com a máxima satisfação, as Quatro Grandes para a Diretoria. Levaram três dias de suspensão, com registro na carteira escolar para que os pais ficassem cientes.

Na casa de todas elas houve muito sermão e os pais foram unânimes: cada uma em sua casa, de castigo, até cumprirem a suspensão. Só voltaram a se encontrar após os três dias, no colégio. De Gaulle e Eisenhower, as duas que sentavam-se mais no fundo da sala de aula, não tinham sequer lido o torpedo. Só ficaram sabendo ali no pátio, depois da punição, o conteúdo do bilhete. Foram solidárias e apoiaram, entre muitos risos, o conteúdo já digerido e expelido pelo organismo da Churchill.

 

 



- Postado por: Neusa às 17:40:37
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JOÃO E MARIA

 

- Mãe, vem aqui um pouco. Depressa!

- Que foi, menino? Ainda não está pronto?

- Mãe, é sério. Eu não quero esse casamento. Não vou mais.

- Você ficou maluco? Porque deixou as coisas chegarem a esse ponto? Porque não desistiu antes? Agora estão todos à sua espera, vai ser lamentável se você fizer esse papelão. Já estão todos lá – os convidados, o padre, a noiva.

- Mãe, eu não quero casar mais. Eu não vou e pronto.

Ele trancou a porta do quarto. A mãe se desesperou e apelou:

- Ou você abre esta porta, se apronta e vamos para o casamento, ou você vai apanhar pela primeira vez em sua vida!

Ele não teve outra alternativa. Saiu do quarto já vestido com o terno, a gravata, o lencinho, os olhos vermelhos e as faces pálidas. Acompanhou a mãe, o pai, o irmão e a tia-madrinha como se fosse a um velório.

Durante a cerimônia ele não sorriu uma vez sequer. A noiva, por sua vez, estava fagueira, fogueteira e com um sorriso de orelha a orelha. Disse o SIM em alto e bom som. Ele mal murmurou alguma coisa que nem foi levada em conta. 

Dançou com ela como se segurasse uma vassoura. O irmão mais novo achou a situação muito engraçada. Não estava entendendo nada, mas a cara do mano estava de fazer pena e isso para ele era bom motivo de riso.

Depois das danças, da comilança, os convidados já se retirando, a tia-madrinha falou, toda orgulhosa:

- Você estava lindinho com essa carinha brava, Joãozinho. Nunca vi um casamento de festa junina com noivinho e noivinha tão bem representados.

A professora da pré-escola também veio cumprimentar o seu aluno preferido. Ele deu um beijo na professora, tirou o paletó mais que depressa, agarrou o braço da mãe e foi para casa achando que casamento não era uma coisa tão ruim assim. E até que a Mariazinha estava uma noivinha bem bonita!

 

 



- Postado por: Neusa às 20:57:33
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DESCOMPASSO

 

Um dia você me faz festa,

Noutro dia me contesta.

Um dia a sua presença,

Outro dia a sua ausência.

 

Às vezes sua sentença

Não traduz anuência...

Nem seu juízo sobre mim

É tão correto assim.

 

Sigo te desenhando,

Você me desdenhando...

Construo alguns castelos

Mas você rompe os elos.

 

Seguimos na disritmia,

Na falta de sincronia...

E de tão descompassados

Terminamos enlaçados.

 



- Postado por: Neusa às 21:39:15
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CREPÚSCULO

 

Seus olhos me encontraram num final de tarde.

Examinaram cuidadosamente cada canto

E cada recanto da alma, mas só viram a metade

Dos meus mil sonhos. Inda escondi o pranto.

 

Não sabia de onde vinham esses olhos estranhos

E não poderia a eles revelar tanto segredo.

Continuas me fitando e já não sei se ganhamos

Ou perdemos a oportunidade. Tenho medo.

 

Vou me revelando aos poucos. Tateio à procura

Do olhar firme e sincero, da certeza da alma nua.

Também minhas mão procuram sinais de ternura

E encontram às vezes uma palavra dura. A sua?

 

Seus olhos me encontraram num crepúsculo.

Não puderam ver, na paisagem já sem luz,

Que meus medos nasciam no outono, minúsculos,

E cresciam no inverno, sob o formato de cruz.

 



- Postado por: Neusa às 00:01:47
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Em comemoração aos 60 anos do maravilhoso

CHICO BUARQUE!

RODA VIVA

 

 

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá

 A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá


 

 



- Postado por: Neusa às 17:27:54
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Sangrando (Gonzaguinha)

 

Quando eu soltar a minha voz

Por favor entenda

Que palavra por palavra

Eis aqui uma pessoa se entregando

Coração na boca 

Peito aberto

Vou sangrando

São as lutas dessa nossa vida

Que eu estou cantando

Quando eu abrir minha garganta

Essa força tanta

Tudo que você ouvir

Esteja certo

Que estarei vivendo

Veja o brilho dos meus olhos

E o tremor nas minhas mãos

E o meu corpo tão suado

Transbordando toda a raça 

E emoção

E se eu chorar

E o sol molhar o meu sorriso

Não se espante , cante

Que o teu canto é a minha força

Pra cantar

Quando eu soltar a minha voz

Por favor, entenda

É apenas o meu jeito de dizer

O que é amar

 

 



- Postado por: Neusa às 00:42:19
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O AMOR NAS ALTURAS - II

 

Já estava adolescendo. O vizinho, alguns anos mais velho, era o primeiro rapaz que lhe chamava a atenção. Passava pela calçada no final de cada tarde e o sorriso com um leve cumprimento caía-lhe como um tesouro. Esperava por esse sorriso a cada dia, entre tímida e ansiosa.

Descobriu, um dia, que ele tocava piano ouvindo o som do instrumento vindo da casa dele. O fundo do quintal da casa dela dava para a sala onde ele tocava todos os dias após o almoço.

Nas primeiras vezes ela se escondia atrás dos troncos das árvores para que ele não a visse. Aos poucos foi se chegando mais, pois ele se concentrava no piano, sequer olhava para o quintal da casa dela.

A menina descobriu que se subisse num determinado galho da goiabeira teria uma visão melhor do jovem pianista. Do pensamento à ação foi um pulo. Subiu cerca de três metros e sentou-se na ponta do galho, o melhor ponto de visão que jamais sonhara. Ficou ali, embevecida, vendo correr as mãos sobre o teclado, ouvindo cada nota da sinfonia.

De repente aquela posição começou a incomodá-la. Não sabia como, mas precisava descer da árvore. Apoiou as mãos no galho onde estivera sentada e tentou colocar os pés no galho logo abaixo. Inutilmente. A distância era maior do que calculara e seus pés não alcançavam o galho. Estava pendurada, sem conseguir descer, e suas mãos não agüentariam por muito tempo mais. Lembrou-se de sua avó, que uma vez também ficara na mesma situação. Olhou para baixo: era muito alto para pular até o chão!

Entre a vergonha de gritar por socorro e o medo de se estatelar no chão, o medo falou mais alto: gritou por sua mãe que se encontrava na cozinha, cerca de cinqüenta metros dali. A mãe acorreu e, ao ver a cena, voltou com uma escada. Antes que a menina começasse a descida, a mãe começou o sermão.

O jovem músico tinha ouvido os gritos da menina e depois a bronca da mãe. Desconcentrado, e também assustado, chegou até a cerca de balaústres que separava as duas casas, ainda a tempo de ver as pernas penduradas e balançantes da menina vizinha.

A menina, já descendo pela escada, olhou de soslaio para a casa vizinha, vendo um sorriso irônico nos lábios do pianista dos seus sonhos. Ele rindo dela, a mãe - muito assustada e brava pelo perigo que a filha passara – ainda dando bronca, não poderia ser pior.

O jovem ainda voltou ao piano, executou o final da sinfonia com tanta ênfase que o som da música abafou o som do choro da menina, as palavras da mãe, e ainda sufocou e matou um sentimento que começara a florir.



- Postado por: Neusa às 20:53:37
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ALÉM DA IMAGINAÇÃO

 

Gostávamos de ficar no quintal, imenso e cheio de árvores. Era nosso local de brincar, dar asas à fantasia, inventar brinquedos e travessuras. Tínhamos a companhia dos cachorros Japi e Bilu, que também pareciam crianças. Após as aulas e o almoço corríamos com os cães, depois nos deitávamos embaixo das árvores: eu sobre o Bilu, minha irmã sobre o Japi. Era gostoso ficar assim deitadas, olhando as nuvens e imaginando seus desenhos. Acabávamos dormindo com a cabeça naquelas almofadas peludas. Os cachorros só se mexiam depois que acordávamos, feito vigilantes fiéis.

Eram companheiros também de corridas, mas sempre eram os ganhadores. Chegavam primeiro ao monte de lenha cuidadosamente empilhada por minha mãe. Curiosa aquela lenha: estava sempre empilhadinha, na mesma altura e largura, embora todos os dias se retirassem algumas para acender e manter aceso o fogão da casa. Pensávamos que a mãe era mágica, pois que nunca faltava uma acha de lenha sequer e não a víamos repor o estoque.

Mágicas também eram as histórias que ouvíamos: de assombrações, mula sem cabeça, saci - todas tão bem contadas que os personagens já eram até familiares. Convivíamos com o real e o imaginário, num cotidiano de crianças felizes. Dormíamos cedo, já que a iluminação ainda precária durava pouco. O gerador elétrico era desligado às vinte horas, religiosamente. Ninguém saía de casa depois desse horário, sob risco de se deparar com seres estranhos, imaginários ou não.

Uma noite, já todos recolhidos aos quartos, ouvimos um barulho estranho, muito forte. Parecia que o monte de lenha estava sendo desfeito e as achas rolando pelo chão. Sob a luz do lampião corremos todas para a sala, encontrando pai e mãe também intrigados. Meu pai pegou a lanterna e espiou pela janela: realmente, a lenha estava toda esparramada pelo quintal. Minha mãe culpou o Bilu e o Japi, quem mais poderia fazer aquilo? Lamentou seu trabalho cuidadoso ter sido desfeito e disse que na manhã seguinte arrumaria tudo outra vez. Fomos dormir, eu e minha irmã, com um pouco de dor na consciência, já que ensináramos os cachorros a pular sobre a lenha.

No dia seguinte acordamos e meu pai ainda estava em casa. Minha mãe parecia pálida e assustada. Algo ruim deveria ter acontecido: o pai não fora trabalhar e a mãe não estava nos afazeres domésticos habituais. Antes que pedíssemos a benção, eles já quiseram confirmar se tínhamos ouvido o barulho da lenha rolando. Dissemos que sim, e que também havíamos espiado pela janela e visto a lenha espalhada pelo quintal. Meu pai balançou a cabeça naquele movimento de incredulidade. Aí minha mãe contou que levantara-se bem cedo para juntar e arrumar a lenha, mas assim que abrira a porta se deparara com o monte intacto,da maneira que ela sempre arrumara, sem uma acha sequer fora do lugar.

Corremos para fora. Constatamos a ordem impecável e habitual do monte de lenha.

Nunca soubemos o que possa ter acontecido naquela noite de lua cheia. Não foi ilusão coletiva, seria impossível.Os cachorros poderiam, sim, ter desarrumado e derrubado tudo, mas refazer seria impossível para eles. Só restava uma alternativa: o sobrenatural. Qual dos seres imaginários teria feito a brincadeira conosco: o saci, o lobisomem, a mula sem cabeça?  



- Postado por: Neusa às 20:52:54
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Se eu tivesse ao menos uma cancela, já seria um consolo.

 

NA  CANCELA

(Dorival Caymmi)

 

Chorei, ai chorei
Chorei, esperando por ela, chorei
Cansei, ai cansei
Cansei, me escorando à cancela, cansei

Não há lugar melhor pra chorar
Do que cancela, quando não vem trem
Não há lugar melhor pra chorar
Do que o colo de quem se quer bem



- Postado por: Neusa às 22:09:11
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UM PEQUENO ASSASSINATO

 

Nunca pensei que ele tivesse a audácia de aparecer em casa. Mas notei vestígios da sua presença quando voltei do trabalho e fui olhar as orquídeas. Ele estava escondido no quarto que fica nos fundos do quintal. Mais que sua presença, reconheci os sons e a confusão que fazia ao espalhar objetos pelo quarto, derrubando-os das prateleiras.

Fui tomada pelo pânico, impotente diante do inimigo. Corri para dentro de casa, fechei todas as portas e janelas para que ele não me alcançasse. Lembrei-me da música do Gil “Pessoa Nefasta” - e junto ao medo misturou-se o asco. Não consegui jantar. Também não conseguia dormir. E se ele, de alguma maneira, conseguisse entrar dentro de casa e fosse até meu quarto?

Passei a noite pensando na maneira de livrar-me dele. Meus filhos também sentiam medo e não queriam enfrentá-lo. Restava a mim fazer alguma coisa,  talvez enfrentá-lo cara a cara. Mas só de pensar em olhá-lo, ver seus pequeninos olhos pretos a me desafiar, me cobria de arrepios. Não tinha outra saída, teria que matá-lo. Só não sabia como fazer isso, não tinha nenhuma arma em casa, e se a tivesse não saberia usá-la.

Já amanhecia o dia quando, no dorme-acorda, me lembrei do veneno. Optei por ele. Não correria riscos e seria mais seguro. Peguei o pozinho no armário da lavanderia. Misturei-o à sua comida predileta. Abri a porta com o máximo cuidado para não chamar a atenção. Deixei o pratinho bem à vista do ser nefasto. Voltei rapidamente, fechei a porta e me deparei com minha consciência. Apesar de todo mal que causasse, ele poderia ter uma alma. Pedi perdão a Deus. O medo que sentia era maior que o temor a Deus. A sorte estava lançada.

Voltei ao quarto, tentando dormir novamente. Não queria esperar acordada. Não queria presenciar a agonia do meu inimigo. Mas o sono veio pouco, cheio de pesadelos. A fisionomia dele me perseguiu em cada sonho mau.

O dia estava gelado quando levantei-me novamente. Um solzinho tímido de inverno lutava para aquecer a terra, inutilmente. Receosa, abri a porta. Não vi o ser nefasto. Fui até o fundo do quintal. Tudo silencioso. Nada que demonstrasse a presença dele, a não ser o prato levemente remexido. Discreta e corajosamente encaminhei-me ao quarto onde ele se alojara. E ali o vi. Estava morto.

Sorri aliviada. Agora, porém, estou com outro problema. Como livrar-me do corpo? Nunca matei um rato, foi a primeira vez.



- Postado por: Neusa às 17:49:00
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SONHO ÍMPAR

 

Se ao invés de eu e você, fôssemos um par?

Um par...ímpar...em par...

Você na sua freqüência flutuante,

Eu nas ondas de alta velocidade.

 

Cantaríamos nossos desencontros

E nossos desacertos.

Quem sabe nosso contraponto

A tantos dias incertos.

 

Você e eu, finalmente uma só voz

Mesmo em linguagem diferente.

O mesmo ritmo, a mesma canção. Nós...

Duas pessoas numa mesma solidão.

 

Eu e você...um par...ímpar...

Difícil acreditar!

Mas foi bom sonhar...

 



- Postado por: Neusa às 00:06:17
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O VÔO DA ALMA

 

Ninguém entendia aquela mudança. Aos poucos ficava cada vez mais estranha, mais distante. Não tinha mais riso nem sorriso, só um olhar perdido e vazio. Pouco falava. Parecia ter deixado a esperança nas frestas da janela, os sonhos nos degraus da escada. Quando se ouvia alguma frase de sua boca era mais dorido, ainda. Não sabia mais conjugar o presente ou o futuro, todas as suas falas eram no passado.

Foi levada a diversos médicos, fez vários tratamentos. Nem curandeiro resolvia tanta tristeza. Alguém recomendou que fizesse uma viagem para algum lugar diferente e ainda desconhecido. Ela dirigiu-se, então, para terra da saudade. Reconheceu ali todos os pretéritos: os perfeitos e os imperfeitos. Eram tão seus conhecidos, tão íntimos! Não era esta a terra para a cura.

Fez nova viagem, agora para a terra do hoje. Não se lembrava de ter um dia passado por lá. Fez algumas amizades, conheceu novas palavras: eu sou, eu estou, eu quero. Foi se habituando àquelas coisas que de certa forma lhe pareciam familiares. Sentia, porém, que não era esse o lugar perfeito para a cura. Precisava conhecer outros.

Tentou a última indicação recebida: foi conhecer o futuro. Era uma terra estranha, muito escura, nada era visível.  Só vislumbrava contornos, nada definido. Sentiu-se pior. Voltou ao passado.

Desenterrou um a um seus velhos temores. Encarou-os de frente, com certo desprezo. Tornou a enterrá-los, aliviada. Fez o mesmo com o medo, a amargura, a mágoa e a culpa.

Limpou as mãos, esfregou os olhos como se estivesse acordando. Teve um esboço de sorriso. Gostou da sensação. Sorriu um pouco mais largo. Sentiu-se leve. Teve vontade de rir, gargalhar. Foi gargalhando e sentindo-se leve, quase uma pena. Flutuou, voou alto, desapareceu nas nuvens da alegria do reencontro consigo mesma.

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- Postado por: Neusa às 22:25:29
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Minha homenagem a dois maravilhosos compositores: Edu Lobo e Chico Buarque

Choro Bandido

(Edu Lobo/Chico Buarque)
 
Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
 
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
 
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons 

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- Postado por: Neusa às 19:37:51
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O PALETÓ

 

Na pequena cidade nenhuma casa possuía campainha. Os mais conhecidos entravam sem se fazer anunciar. Os menos íntimos batiam palmas no portão para serem recebidos. Na casa da dona Geralda entrava gente todo dia e também as palmas no portão eram constantes. Algumas vezes eram palmas de pedintes. Dona Geralda atendia todos os pedidos: sempre tinha uma roupa que podia ser doada, comida pra um faminto ou um trocadinho para o remédio de quem precisasse.

Naquele dia as palmas vieram na hora que ela colocava o almoço na mesa. Um homem pedia um pouco de comida. Dona Geralda estava fazendo o prato do marido. Fez também um prato para o mendigo, levou-o até o homem e pediu que ele sentasse na varanda para comer. Deixou-o lá e foi fazer companhia à família na mesa de almoço. O marido dela, o seu Genaro, não gostava muito dos pedintes estarem sempre ali e da esposa ficar atendendo a todos, mas ela tinha isso como missão. O marido ainda comentou durante o almoço que devia ter hora para tudo, até para as boas ações. Dona Geralda não protestou.

Todos terminaram a refeição e o seu Genaro levantou-se e despediu-se, pois que já era hora de voltar para o trabalho na Delegacia. Atravessou a sala e foi até à cadeira onde havia pendurado o paletó quando chegara. Não o encontrou no lugar. Perguntou à esposa, mas esta não o tirara do lugar. Tinha até visto o paletó novinho do marido pendurado na cadeira quando fora levar o prato para o mendigo. Pensou nisso e também foi verificar se o homem já terminara de comer.

Chegou até a varanda vazia. Nada do homem, nada do prato. O seu Genaro somou dois mais dois e ficou furioso com a esposa. A mania de ajudar a todos já estava trazendo prejuízos para a família. Desta vez fora um paletó, da próxima vez poderia ser uma coisa de maior valor, quem sabe até uma filha? Ela que se cuidasse! Dona Geralda chorou pela braveza do marido e de indignação pela acusação. Ninguém poderia culpar uma pessoa sem ter provas. Alguém vira o homem entrar na sala e pegar o paletó? Com certeza, não!

Acompanhou o marido até o portão. A vizinha aproximou-se assim que o seu Genaro saiu. Foi logo perguntando quem era o homem que saíra da casa da dona Geralda vestindo um paletó bonito, carregando numa das mãos um saco e na outra um prato de comida vazio.



- Postado por: Neusa às 21:29:46
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Este poema foi escrito há muitos anos. Minha irmã Ângela, no seu blog Colcha de Retalhos, falou certa vez do seu quase-diário, onde ela escreveu “inconfidências” no lugar de “confidências”. Maninha, este poema está postado para você: às vezes uma confidência se torna uma inconfidência. Você estava certa no que escreveu no seu diário de pré-adolescente!

 

 

 

In-confidência

 

Te quero assim, amor,

Muito pertinho de mim.

Quero sentir teu calor

Naquele abraço sem fim

 

Vem...me abraça, me beija, me enlaça,

Me cala, me fala, me afaga, me faça

Tua amada sonhada, buscada, encontrada

Entre os vãos e desvãos desta vida escassa.

 

Arrume uma escada, uma estrada,

Uma reta, uma rota, uma via torta,

Mas venha pra mim, não importa

Se estou atrás da porta ou estou morta

De tanto te buscar, te procurar, te esperar,

Amor, venha, só quero te amar.



- Postado por: Neusa às 17:47:43
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No último dia dois de junho o jornal O Estado de São Paulo publicou os dez contos selecionados em seu concurso literário, cujo tema foi o aniversário de 450 anos da cidade de São Paulo.

Li todos os contos. Não sou crítica literária e talvez não devesse opinar, mas preciso dizer que fiquei indignada. Esperava um pouco mais desse resultado e o que li me deixou a sensação de desrespeito à cidade que, suponho, seria homenageada. Não vivemos num paraíso, pelo contrário, somos um povo sofrido. Mas São Paulo tem seus encantos, tem pessoas normais, pessoas felizes que trabalham e tentam construir uma vida melhor.

Os textos selecionados, porém, mostraram apenas e tão somente os subterrâneos de uma metrópole e o limite entre o ser humano e ser irracional. Foi a apoteose da contra-cultura, do niilismo, do viver por viver. Foi também uma apologia ao desrespeito pelo ser humano, à linguagem e ao viver da marginalidade.

Não bastassem os lamentáveis programas televisivos que apregoam e didaticamente ensinam a criminologia, temos agora a literatura caminhando na mesma direção. Não sou purista, acho que tudo deve evoluir e transformar-se, e incluo aí a arte de escrever. Mas houve uma seleção de textos pasteurizados do niilismo, talvez voltados para um público determinado, talvez para uma geração que está se formando e tendo como ícones a violência e o desrespeito.

Muitos autores de reconhecido mérito literário devem também  ter enviado contos ao jornal, porém não foram sequer citados já que suas obras não se enquadravam ao estilo de antemão escolhido mas não divulgado no edital.

Deixo aqui meu protesto e se quiserem conhecer os textos selecionados vejam a edição do jornal de 02/06/2004.  Sou sabidamente suspeita para criticar, pois também enviei um conto para o concurso. Não pretendia concorrer, apenas participar, já que conheço minhas limitações e sou iniciante nessa arte. Mas lamento pelos talentos que foram desprezados.

Publico aqui o texto que encaminhei ao jornal. É ingênuo, puro e simples, mas é um olhar de esperança, o extremo oposto aos textos classificados.



- Postado por: Neusa às 23:18:16
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INFÂNCIAS

 

Terça feira de manhã. Trânsito congestionado, eu mais uma vez atrasada para o trabalho. O farol abria e fechava, o carro mal andava um metro e já tinha que parar novamente. Os vendedores de balas, felizes com tantos motoristas ali, iam e voltavam entre as filas dos carros.

 Observei também uma mocinha, com seus quinze anos aproximadamente, que entregava folhetos para quase todos os motoristas, mas não me via e passava direto por mim. Será que estou com cara de brava? Tá certo que não gosto realmente de colecionar folhetos publicitários, mas porque a discriminação? Ela ia e voltava entre os carros, passava direto por mim sem sequer me olhar. Observei melhor a menina. Constatei que os folhetos só eram entregues aos motoristas do sexo masculino. A garota estava vestida com roupinha de verão (estávamos com 30 graus pela manhã), porém chamava a atenção pelas partes do corpo descobertas: coxas, seios e barriga provocantemente à mostra. Ela andando entre os carros e meu olhos acompanhando-a, tão garota ainda, rosto infantil, oferecendo seus serviços aos possíveis clientes.

 Lamentei o que via. Nada contra a prostituição, que não sou moralista, mas aquela menina poderia estar num colégio ou em casa, não num cruzamento de ruas vendendo seu corpo.

O farol abriu mais uma vez e desta feita consegui avançar quase dez metros. Parei ao lado do canteiro central -quem sabe a faixa da esquerda me faça ganhar alguns segundos? Olho pela janela aberta do carro e vejo outra cena inusitada e chocante: uma garotinha de três anos, talvez, sentada em pleno canteiro central da grande avenida, com alguns brinquedos ao seu redor -até uma boneca! Parecia não se incomodar com a quantidade de carros nos dois sentidos e ali tão próximos a ela.

 Fiquei angustiada, sem entender o que uma criança, quase um bebê, ainda, estaria fazendo ali sozinha. Quem poderia tê-la deixado assim, abandonada? E ela, com seu rostinho cândido, olhar de ternura, brincando compenetradamente. Já ia descer do carro e tentar conversar com a criança, tentar resolver a situação, livrá-la dos perigos a que estava exposta. A menininha então disse, numa vozinha clara e bem audível para quem, como eu, estava a meio metro de distância dela: - “Mamãe, vem brincar comigo agora. É a sua vez de fazer o nenê mamar”.

A mãe se aproximou da filha, vindo meio que por mágica, tão rapidamente apareceu. Era a jovem que entregava os folhetos aos homens no congestionamento. Sentou-se ali mesmo no canteiro central, bem juntinho à filha, segurou a boneca com carinho, pegou a mamadeira de brinquedo e deu de mamar à boneca. O trânsito andou um pouco mais rapidamente, mas ainda pude ver pelo retrovisor: as duas crianças, mãe e filha, brincavam solenemente, compenetradas, tão semelhantes na sua infância!

 



- Postado por: Neusa às 23:17:55
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CARUSO

Russell Watson

 

Qui dove il mare luccica,
e tira forte il vento
su una vecchia terrazza
davanti al golfo di Surriento
un uomo abbraccia una ragazza
dopo che aveva pianto
poi si schiarisce la voce,
e ricomincia il canto.

Te voglio bene assai
ma tanto tanto bene sai
e una catena ormai
che scioglie il sangue dint'e vene sai...

Vide le luci in mezzo al mare,
penso alle notti la in America
ma erano solo le lampare
e la bianca scia d'un elica
senti il dolore nella musica,
e si alzo dal pianoforte
ma quando vide la luna
uscire da una nuvola,
gli sembro piu dolce anche la morte
guardo negli occhi la ragazza,
quegli occhi verdi come il mare
poi all'improvviso usci una lacrima
e lui credette di affogare.
 
Poi penso alla lirica,
e al grande palco
che con un po' di trucco e con la mimica
puoi diventare un altro
ma due occhi che ti guardano,
cosi vicini e veri
ti fan scordare le parole,
o in fondo i tuoi pensieri
cosi diventa tutto piccolo,
anche le notti la in America
ti volti e vedi la tua vita,
come la scia d'un elica
ma si, e la vita che finisce,
ma lui non ci pensava tanto
anzi, si sentiva gia felice,
e ricomincio il suo canto.


 



- Postado por: Neusa às 22:34:58
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INVENTÁRIO  INFANTIL

 

A garotinha, sentada na soleira da porta, olhava as galinhas, os patos e os gansos comerem tranqüilamente o milho recém jogado ao chão. A mãe colocava a roupa alvíssima no varal como quem hasteia uma bandeira, solenemente, porém entoando uma suave canção.

A menininha interrompe o trabalho materno: “Mãe, a gente é pobre ou rico?”. A mulher deixa a roupa na bacia e, ainda com melodia na voz, responde: “Nem pobres nem ricos, filha. Somos remediados”.

A garotinha voltou aos seus pensamentos. Viu a mãe cantando feliz, as aves comendo no quintal, lembrou-se do almoço gostoso de poucas horas antes e do presente que ganhara no Natal. Pensou com seus botões que a mãe quis dizer “riquíssimos”. Não entendia o que era “remediado”, mas sabia que remédios eram caros e que nas vezes que alguém da família precisara nunca tinha faltado.

Somou os remédios com o cantarolar feliz da mãe, a roupa branquinha no varal, as aves gordinhas e tranqüilas, os cães dormindo sossegadamente sob uma árvore e reafirmou pra si mesma: “a gente é muito rico mesmo!”.



- Postado por: Neusa às 22:19:53
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MEMÓRIAS  DA  BANCÁRIA

 

Eram dez horas da manhã daquele dezenove de janeiro. Ele chegou atrasado para o trabalho. Culpa da empresa, que fora recrutá-lo de última hora para substituir o vigilante que faltara. Entrou com seu supervisor na agência bancária já lotada, foi apresentado ao responsável pela segurança, recebeu o uniforme, a arma, e direcionado ao banheiro masculino onde trocaria de roupa. Trancou a porta ouvindo o burburinho das pessoas no saguão. Não gostava de barulho. Também nunca havia trabalhado naquele tipo de ofício. Vestiu o uniforme, olhou-se ao espelho e não gostou do seu aspecto. Colocou no coldre a arma recebida, abriu a mochila, guardou as roupas que trocara e de lá tirou uma segunda arma.

As vozes que vinham da agência o irritavam. Alguém bateu à porta dizendo que já eram dez e quinze, devia se apressar. Pegou a arma que trouxera na mochila. Conferiu a munição. Doze balas. Mais que as balas da arma que recebera na agência, que só comportava oito. Irritou-se também com esse fato. Resolveu testar a arma recebida. Deu um tiro a esmo, pela janela do banheiro. Ao menos a geringonça funcionava. Abriu a porta do banheiro empunhando as duas armas. Viu a multidão em filas frente aos caixas e mais gente chegando. Era gente demais, barulho demais.

Encostou-se à parede e olhou as pessoas novamente. Sentiu raiva de todos. Empunhou as duas armas e foi atirando, devagar e seguidamente. As pessoas gritavam e se atiravam ao chão. Um rapazinho, molecote, ao invés de sair correndo, entrou na agência e pediu-lhe para parar com aquilo. Achou um atrevimento. Encheu-lhe a cabeça de tiros. Olhou as pessoas deitadas no chão, escondidas atrás de móveis, e riu-se da covardia. Mirou-as bem e esvaziou nelas as balas que restavam. Jogou as armas ao chão e correu para a rua, as pessoas atrás dele. Já pensava estar se safando quando foi atropelado por um carro. Não se machucou, mas foi levado novamente àquela agência barulhenta.

Lá dentro não havia mais burburinho. Só gemidos. Os policiais o seguravam. Olhou o rapazinho no chão, a cabeça estourada. Não fora ele o culpado. Não fizera nada daquilo. Aquelas pessoas que saíam sangrando, carregadas para as ambulâncias, estavam assim porquê? Ele não fizera nada. Não matara ninguém. Foi pensando isso e depois repetindo em voz alta, com a língua enrolando em conseqüência da droga que cheirara. Mal teve tempo de ver a moça que aproximou-se dele com uma simples lâmina de barbear e dizia, com lágrimas nos olhos, que iria retalhá-lo pelo que ele fizera com os colegas dela. Ela foi tolhida por algumas pessoas. Ele foi levado à viatura de polícia.

A notícia saiu nas emissoras de rádio e de televisão, em grandes manchetes. Um vigilante de uma agência bancária havia atirado contra os funcionários e clientes. Um jovem de dezesseis anos morrera, quinze pessoas foram feridas, três delas gravemente, quase todas funcionários do banco. A empresa de segurança contratada pela instituição não prestou declarações à imprensa, mas segundo funcionários da mesma empresa, o vigilante havia sido contratado naquele mesmo dia, sem treinamento ou avaliação. Exames periciais detectaram que o vigilante estava sob efeito de álcool e maconha.

Passaram-se 18 anos. A tragédia deixou seqüelas físicas e emocionais naqueles funcionários do banco. Alguns aposentaram-se por invalidez, outros continuaram trabalhando sob ajuda de terapeutas. Uns ainda carregam no corpo as balas que não puderam ser extraídas. O vigilante foi solto nesta data, após cumprir dois terços da pena. A empresa de segurança continua prestando serviços à mesma instituição financeira.

 



- Postado por: Neusa às 21:57:40
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HOJE É DIA DE CHICO BUARQUE.

 

 Almanaque

>>  Chico Buarque

 

 

 

Ô menina vai ver nesse almanaque como é que isso tudo começou
Diz quem é que marcava o tique-taque e a ampulheta do tempo disparou
Se mamava de sabe lá que teta o primeiro bezerro que berrou
Me responde, por favor
Pra onde vai o meu amor
Quando o amor acaba

Quem penava no sol a vida inteira, como é que a moleira não rachou
Me diz, me diz
Quem tapava esse sol com a peneira e quem foi que a peneira esfuracou
Quem pintou a bandeira brasileira que tinha tanto lápis de cor
Me responde por favor
Pra onde vai o meu amor
Quando o amor acaba

Diz quem foi que fez o primeiro teto que o projeto não desmoronou
Quem foi esse pedreiro, esse arquiteto, e o valente primeiro morador
Diz quem foi que inventou o analfabeto e ensinou o alfabeto ao professor
Me responde por favor
Pra onde vai o meu amor
Quando o amor acaba

Quem é que sabe o signo do capeta, o ascendente de Deus Nosso Senhor
Quem não fez a patente da espoleta explodir na gaveta do inventor
Quem tava no volante do planeta que o meu continente capotou
Me responde por favor
Pra onde vai o meu amor
Quando o amor acaba

Vê se tem no almanaque, essa menina, como é que termina um grande amor
Se adianta tomar uma aspirina ou se bate na quina aquela dor
Se é chover o ano inteiro chuva fina ou se é como cair o elevador
Me responde por favor
Pra que tudo começou
Quando tudo acaba

 



- Postado por: Neusa às 20:26:20
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CIVILIZAÇÕES TROCADAS

 

"Não sei quando nem porque começou. Mas entrava em pânico todas as vezes que entrava no metrô. Após anos usando normalmente esse meio moderno de locomoção, de repente parei. Preferia o carro, que andava no solo, ao trem que percorria os trilhos no subsolo (e volta e meia parava inexplicavelmente nos túneis). Ah, mil vezes o congestionamento e os motoristas malucos do que aquela sensação horrível de impotência, de não poder parar quando quisesse, ou abrir as janelas, e até, acreditem, diminuir a velocidade.

 

Hoje tomei a decisão mais corajosa de todos os tempos. Me propus ir de metrô da estação São Judas até a Praça da República. Antes de entrar na estação fiquei olhando as vitrines das lojas, esperando a ansiedade diminuir e o coração bater menos acelerado. Vamos, coragem, não fique retardando o ato, me dizia. E lá fui.

 

Entrei no trem. Poucos passageiros, mas aumentando a cada parada numa nova estação. Ouço trechos de conversas incompreensíveis das pessoas, olho furtivamente para a mulher sentada ao meu lado, toda aprumada, maquiada, quase uma escultura de tão correta e imóvel. Cada rosto esconde seus dramas, suas alegrias, seus sonhos, mas todos parecem indiferentes a qualquer sentimento, inclusive o de um sorriso.

 

Observo todos os companheiros da rápida viagem naquele vagão. Olho por entre eles - o trem já está lotado - e no meio dos corpos entrevejo algumas penas coloridas e vou seguindo-as para ver de onde brotam assim, inusitadamente. Estão presas ao braço moreno de um rapaz que, apesar do frio, está só de camiseta. Meu olhar vai seguindo o braço, chega aos olhos amendoados e aos cabelos pretos e extremamente lisos do jovem. Um índio! Vestido quase a caráter, porém de jeans (claro, estamos em São Paulo, numa outra selva!).

 

 

Fixo mais os olhos naquele olhar tranquilo, tão a vontade como se estivesse numa canoa em algum rio de águas mansas. Seu corpo, também relaxado e tranquilo apesar de estar em pé, apóia-se na porta  fechada. Eu, sentada no banco, corpo tenso, segurando-me numa espécie de corrimão, dedos brancos pela força com que nele me agarro, devo estar com os olhos um pouco apavorados. E o trem segue, indiferente ao meu coração que pula até à garganta, disparando como pole position de uma Fórmula Um subterrânea.

 

Chego ao meu destino - finalmente. Venci o medo! Saio rapidamente do vagão, não sem antes lançar um último olhar de respeito à coragem do jovem índio, e sem deixar de pensar com meus botões: "Você... índio!  Mim...cara tão pálida!"

 

Outubo/2003

 



- Postado por: Neusa às 21:45:16
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