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LUA  NUA

 

Vi a lua crescente,

Barriga exposta...

(lua grávida).

Olhei-me discretamente:

vi-me disposta

a abortar os sonhos

de uma alma gorda e ávida.

 



- Postado por: Neusa às 23:49:31
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SONHO COLORIDO DE UM PINTOR
(TALISMÃ - B. LOBO)

Sonhei que pintei minhas noites de amarelo
lindas estrelas no meu céu eu coloquei
o feio que era feio ficou belo
até o vento do meu mundo eu perfumei.
Numa apoteose de poesia
num conjunto de harmonia
uma lua roxa para iluminar
as águas cor-de-rosa do meu mar.

Meu sol eu pintei de verde
que serve pra enxugar lágrimas
se um dia precisar.
A dor e a tristeza
fiz virar felicidade
aproveitei a tinta
e pintei sinceridade.

Pintei de azul o presente
de branco pintei o futuro
o meu mundo só tem primavera
o amor eu pintei cinza escuro.

Pra lá eu levei a bondade
dourada é sua cor
aboli a falsidade
o meu povo é incolor.

Na entrada do meu mundo
tem um letreiro de luz
meu mundo não é uma esfera
tem o formato de cruz

 

 



- Postado por: Neusa às 22:32:59
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Me senti abraçada,

Enlaçada,

Calidamente tocada.

Voltei-me – não vi nada.

Apenas a solidão.

Me senti acompanhada.

 



- Postado por: Neusa às 22:32:53
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DIA DO AMIGO

Agradecendo a Deus pelos tesouros que tenho: meus amigos!

 

Canção da América

Milton Nascimento/Fernando Brant

 

Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração

Assim falava a canção que na América ouví

Mas quem cantava sorriu ao ver seu amigo partir

Mas quem ficou, no pensamento voou com o canto que o outro lembrou

E quem voou, no pensamento ficou, com a lembrança que outro cantou...

Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito

Mesmo que o tempo e a distância digam não... Mesmo esquecendo a canção...

O que importa é ouvir... a voz que vem do coração...

Pois seja o que quiser, venha o que vier

Qualquer dia amigo eu volto a te encontrar...

Qualquer dia amigo a gente... vai se encontrar...

 



- Postado por: Neusa às 19:02:15
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DELIBERADO A CASO

 

Os seus olhos não precisam me ver

(Nem suas mãos vão me tocar)

Eu e você: homem/mulher

Desencontrados – sol e luar.

 

Por destino, por acaso ou por escolha

Seguimos separadamente juntos

Tal como flor e folha:

Unidos se completam

Separados sobrevivem



- Postado por: Neusa às 00:23:59
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PARALELAS

 

Suas urgências

Minhas contingências

Nossas turbulências

As tantas ausências

 

Um fugaz encontro

Sem espaço para um ponto

Sem quebrar o desencanto

Nem calar o desaponto

 

O sabor de querer mais

O saber de mais querer só traz

A angústia do que vai

Em cada momento fugaz

 

Nossos laços, nossos passos

Não tem o destino de abraços

São apenas descompassos

A vida não me acompanha: eu passo!



- Postado por: Neusa às 00:14:35
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O meu menino-Jesus   (trechos)

(Alberto Caieiro-Fernando Pessoa)

 

Num meio-dia de fim de Primavera 
Tive um sonho como uma fotografia. 
Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte 
Tornado outra vez menino, 
A correr e a rolar-se pela erva 
E a arrancar flores para as deitar fora 
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu. 
Era nosso demais para fingir 
De segunda pessoa da Trindade.

Um dia que Deus estava a dormir 
E o Espírito Santo andava a voar, 
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três. 
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido. 
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino. 
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu 
E serve de modelo às outras. 
Depois fugiu para o Sol 
E desceu pelo primeiro raio que apanhou. 
Hoje vive na minha aldeia comigo. 
É uma criança bonita de riso e natural. 
Limpa o nariz ao braço direito, 
Chapinha nas poças de água, 
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

A mim ensinou-me tudo. 
Ensinou-me a olhar para as coisas. 
Aponta-me todas as coisas que há nas flores. 
Mostra-me como as pedras são engraçadas 
Quando a gente as tem na mão 
E olha devagar para elas.

Damo-nos tão bem um com o outro 
Na companhia de tudo 
Que nunca pensamos um no outro, 
Mas vivemos juntos e dois 
Com um acordo íntimo 
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas 
No degrau da porta de casa, 
Graves como convém a um deus e a um poeta, 
E como se cada pedra 
Fosse todo um universo 
E fosse por isso um grande perigo para ela 
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens 
E ele sorri, porque tudo é incrível. 
Ri dos reis e dos que não são reis, 
E tem pena de ouvir falar das guerras

Depois ele adormece e eu deito-o. 
Levo-o ao colo para dentro de casa 
E deito-o, despindo-o lentamente 
E como seguindo um ritual muito limpo 
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma 
E às vezes acorda de noite 
E brinca com os meus sonhos. 
Vira uns de pernas para o ar, 
Põe uns em cima dos outros 
E bate as palmas sozinho 
Sorrindo para o meu sono. 
………………………………………………………….

Quando eu morrer, filhinho, 
Seja eu a criança, o mais pequeno. 
Pega-me tu ao colo 
E leva-me para dentro da tua casa. 
Despe o meu ser cansado e humano 
E deita-me na tua cama. 
E conta-me histórias, caso eu acorde, 
Para eu tornar a adormecer. 
E dá-me sonhos teus para eu brincar 
Até que nasça qualquer dia 
Que tu sabes qual é.



- Postado por: Neusa às 22:37:52
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- Mamãe, você está sempre cantando, você nunca fica triste?

- Filha, tristeza não paga dívida. E o que não tem remédio, remediado está. A vida fica mais leve assim, cantando.

Eu tinha cinco anos. E me encantava ver minha mãe sempre cantando: músicas românticas, alegres, de folclore ou sertaneja. Cresci ouvindo suas canções enquanto ela cozinhava, lavava, passava ou costurava.

Não entendia tudo que a vida nos trazia, mas aprendia a cantar com minha mãe.

Outras lições ela ia passando, sem precisar explicar, apenas com seus exemplos: não mentir, ser humilde,

amar e ajudar o próximo. Eu não sabia, nem ela talvez tivesse consciência disso, mas seu lema era: fé, esperança e caridade.

Hoje nós, seus filhos, cantamos as canções que ela cantava. Não temos ainda todas a suas qualidades. Aprendi a ser guerreira, a ser sincera, amar e ajudar o próximo. Mas ainda caminho a passos lentos no tentar levar a vida mais leve. E o canto muitas vezes desafina e morre na garganta, engasgado por um soluço.

Mãe, quanta saudade de você!

 

 

Hoje, 15 de julho de 2004, minha mãe faria 85 anos se ainda vivesse entre nós. Há dois anos ela nos deixou. Está num outro plano, melhor que este, com certeza cantando e encantando outras pessoas.

 



- Postado por: Neusa às 21:22:10
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CHUVA FRIA

 

Nesse chove-não-molha (que molha),

Que amola e que não consola,

Num dia frio, escuro, entristecido,

De bruma tecido, você me olha atrevido:

 

Me julga, subjuga e sentencia.

Desconhece meu amar e me chama fugidia...

Me prendo à sua alma que fascina e que domina,

Mas escapo entre palavras (resistência feminina).

 

Nosso vai-e-vem...quem procura quem?

 



- Postado por: Neusa às 18:46:14
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DESCAMINHO

 

Você está certo em me deixar,

Afinal o que posso lhe entregar

A não ser um coração desconstruído

E este sentimento contido?

 

Já corri por tantos labirintos,

Escapei de truques e alçapões...

Mas driblando até meus instintos

Fui parar em suas mãos.

 

Que armadilha engraçada

O destino preparou...

Quem não sonhava mais nada

A um sonho se enredou.

 

Rio de mim – reflexo do riso seu.

E você vai partindo aos pouquinhos

(Conta-gotas de adeus)...

Abandona o jogo, mas o perdedor sou eu.

Esqueceu?

 

 



- Postado por: Neusa às 22:01:07
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BIZARRO

 

Batizado era compromisso religioso e social. Antes de terminar o resguardo havia que se levar o pagão para receber o primeiro sacramento. Leocádia e Riobaldo assim fizeram com o primogênito nascido naquele verão chuvoso e quente como um caldeirão do diabo.

Padre Júlio já estava velhinho, quase para se aposentar. A idade, o reumatismo e aquele calor anormal o deixavam irritado. Deus que o perdoasse, pensava, mas não queria completar seus oitenta anos naquele povoado. A gente de lá era muito estranha, muito cheia das manias, ele nunca conseguira verdadeiramente se entrosar com a comunidade. Era respeitado, porém não era aceito. Sua origem italiana, seu sotaque e seus hábitos eram motivo de deboche à meia-boca e meia-luz. Um rebanho rebelde, na verdade. Seguia os preceitos, mas não seguia o representante.

No primeiro domingo de cada mês acontecia a cerimônia do batismo. Vinham os rebentos de ricos e pobres, verdade que mais dos pobres, que estes procriavam mais. Os ricos fazendeiros da região promoviam grande festança quando nascia um herdeiro. A festança acontecia depois do batizado, com churrascada, violeiros e bailes que se estendiam noite adentro.

Leocádia e Riobaldo chegaram na igreja no trigésimo dia de nascimento do filho homem, num domingo de batizado. Foram à sacristia falar com o padre Júlio e acertar os documentos para a criança sair de lá com a certidão de batismo. Deram seus nomes completos, dia de nascimento da criança, sexo e o nome do batizando. O padre persignou-se ao ouvir aquilo. Isso não era nome, não iria batizar ninguém com um nome desses. Riobaldo, acostumado a tudo comprar, quis saber quanto o padre cobrava para batizar o menino com o nome escolhido. Leocádia, querendo contemporizar, disse que era promessa dar aquele nome à criança.

Padre Júlio foi inflexível. Esse nome era contrário a qualquer religião, os pais que trocassem o nome ou desistissem do sacramento. E ponto final! Os pais, constrangidos e irados por verem uma pessoa, mesmo que vigário, contrariando sua decisão, chamaram os padrinhos e os demais convidados para se retirarem dali. Antes de sair ainda ameaçaram padre Júlio de ser transferido do povoado.

O vigário, desanimado e inconformado com o acontecido, deu continuidade à cerimônia de batizar as crianças filhas de gente comum, com nomes comuns. Terminado o ofício, sentou-se na sacristia, foi tirando os paramentos da cerimônia e repensando o atrito com a família poderosa. Admirou-se da bondade de Deus. Sabia que Leocádia e Riobaldo iriam cumprir o prometido, fazendo com que ele fosse transferido, mas isso significava a antecipação da sua aposentadoria. Tinham vindo em boa hora querer que o filho levasse um pedaço do nome de cada um deles: baldo -  do pai e dia – da mãe. Mas combinar os dois chamando a criança de Diabaldo, com isso ele não compactuaria jamais!



- Postado por: Neusa às 20:13:56
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Temos coisas lindas (como essa aqui abaixo) na nossa música de raiz, na chamada "música sertaneja". Encontrei esta pérola e quero dividir com vocês. Vejam a singeleza:


RECORDANDO

(Tonico e Tinoco)

Eu passo a hora contente, o meu coração sorri,
alembro da boa gente do sítio onde eu nasci.
Vivi entre aquele povo, com tanta ingênua emoção.
Revejo de terno novo Nhô Lauro, seu Juca e o Bastião.
 
A Dita, boa senhora, do bom velho Nicanor,
que no tempo de outrora foi ele meu professor.
E o Tiago, republicano, era amigo do meu pai,
só falava do Floriano da guerra do Paraguai.
 
Chico Mendonça, afamado, era o maió cantadô,
trazia a lapiana de lado, mentiroso caçadô.
Bravo, feroz, barba intensa, filho de português,
sempre matava uma onça, caçada que nunca fez.
 
Eu vejo a foice roçando, o véio Juca Moraes,
cabocro bom, gênio brando, as veis bebe um trago demais.
Chiquinho, quando endominga, vai no povoado passiá,
vorta cherando a pinga, querendo em casa brigá.
 
Amarrando a cerca da horta, curtindo grande paixão,
a Bastiana que não vorta, deixou sozinho Janjão.
Uma louca paixão, imensa, sempre angústia lhe trais,
a fia do seu Proença gosta de outro rapais.
 
E o Quim, do Juca Pachola, vem curtindo grande dor,
à noite chora na viola a mágoa do seu amor.
Nequinha acompanha o carro, fazendo ringi o cocão.
Lá vai pitando o cigarro cheiroso de fumo bão.
 
Com seu enorme trabuco, carça xadreiz, pé no chão,
na venda do Zé Macuco vai jogar no truco  Nhô João.
Ao longe, num largo trote, com elegância de pião,
tilinta a espora o Quinzote montado em seu alazão.
 
O Clovis, cabocro elegante, com seu bombacho azul,
veio das banda do Norte comprá boiada no Sul.
E na festança de São João, quanta lembrança me trais,
das coisa do meu sertão que o tempo deixou pra trais.
 
Hoje longe, muito longe, morando aqui na cidade,
a viola soluçando um ponteio de saudade,
nóis vivemo satisfeito com este povo gentil.
Do caboclo somo eleito, que marcou em nosso peito,
O Coração do Brasil.
 
Nosso Brasil glorioso, vai a nossa saudação,
no tinido da viola, no verso duma canção.
Somos caboclo violero, emblema do sertão,
estandarte da bandeira que guardo no coração.
 
Ficará em nossa memória pra futura geração
esta página da história, monumento da Nação.
É o marco da vitória, é o retrato da união,
trinta e sete  anos de glória prantada no meu sertão. 
 
 

 



- Postado por: Neusa às 20:23:24
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MEU AVESSO

 

Esta roupa me aperta, me sufoca...

Não sei se a vesti ou se em mim foi posta.

Já me serviu de agasalho, até de toca,

Mas hoje me oprime, não cabe mais em mim.

 

Sou mulher contida por um manto

Que colou em minha pele, apertou meu peito

E que escolhe o que vou florir de sentimento

E que decide em que tom vai ser meu canto.

 

Por comodismo, medo ou desencanto

Não me despi dessa roupagem ainda a tempo

(e será que ainda há tempo?) de viver

E sigo caminhando, boicotando sentimentos.

 

Não sei se por medo, pudor ou covardia

Não rompi os fios que tão forte me feriram.

Agora você chegou – despertou-me a rebeldia –

E quero sair do casulo, sentir o mundo

que os medos impediram.



- Postado por: Neusa às 20:22:09
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AQUI E AGORA

 

A Terezinha era menina educada. Acompanhava a mãe nas visitas e não dava vexame. Fazia tudo conforme o figurino mandava: não se metia em conversa de adultos, apenas cumprimentava-os na chegada e na saída; só aceitava comer algo se a mãe lhe fizesse um aceno de consentimento; sentava-se corretamente à mesa e comia com gestos delicados.

 

Naquele domingo foram visitar a comadre Cecília lá no sítio Santo Antônio. Acompanhou os pais na charrete, vestida com a roupa que usara para ir à missa. A comadre recebeu-os com alegria, passou café fresquinho, serviu aos compadres e à filha. A garotinha olhou para o fogão à lenha, viu que ali tinha alguma coisa especial. Sentiu o cheiro: era jabá, tinha certeza. Adorava jabá. Ficou pasmada olhando o fogão, o que chamou a atenção da comadre Cecília.  “Quer um pedaço de jabá, Terezinha?”.  A menina pela primeira vez na vida não esperou o olhar de consentimento da mãe. Agradeceu e disse que aceitava, sim. A comadre lhe entregou um pedaço de jabá e outro de mandioca amarelinha cozida. Terezinha pegou um pedaço em cada mão e foi sentar-se no quintal, longe do olhar de reprovação da mãe.

 

Embaixo da jabuticabeira tinha um toco de madeira. Sentou-se lá, observando os quitutes nas mãos. O que comer primeiro? Parecia bom demais. Já que o jabá era o seu pecado, e o mais gostoso, ficaria para o final. O melhor vinho se serve por último, diziam. Pensou assim e assim fez. Foi comendo a mandioca devagarinho, saboreando cada naco. O pedaço de jabá lá na outra mão era olhado com respeito e gula ao mesmo tempo.

 

A Terezinha distraiu-se comendo a mandioca e olhando o pedaço de carne na mão estendida. Não percebeu a galinha vindo sorrateira e rapidamente. Mal teve tempo de ver o pedaço de jabá ser bicado e levado jocosamente pela penosa.

 

Passaram-se anos e a Terezinha nunca se esqueceu da história. Contou-me quando já estávamos no primeiro ano da faculdade. Entendi a mudança da minha amiga. Vivia intensamente o hoje, o aqui e o agora. Jamais deixava nada para depois. Veio visitar-me quando nasceu meu primeiro filho. Fiz um delicioso jabá acebolado. Quando fui servir, disse a ela que no meu quintal tinha uma jabuticabeira e uma galinha glutona.



- Postado por: Neusa às 23:28:41
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PESADELO

 

A menina acordou cedinho como de costume e foi à padaria. Era seu dever buscar os pães para o café da manhã da família. Estranhou a rua silenciosa. Normalmente havia um certo movimento naquele horário, mesmo se tratando de pequena cidade do interior. As casas estavam fechadas, quase ninguém pelas calçadas. Um silêncio estranho. Ouviu sirenes se aproximando, viu viaturas desconhecidas. Não sabia se eram da polícia ou do exército, nunca tinha visto. Passaram duas, três, cinco...e se dirigiram para a rodovia.

A padaria estava fechada. A menina voltou para casa e contou à mãe o que vira. Enquanto narrava os fatos, o pai chegou – expressão de angústia – e chamou a mãe para conversar no quarto. Voltaram de lá pedindo que as filhas não saíssem de casa.  A menina não entendeu, só sabia que tinha que obedecer. O rosto dos pais era só preocupação. Ela foi ao quarto das irmãs mais velhas e contou tudo, inclusive a ordem do pai. As irmãs se entreolharam, numa cumplicidade que excluía a menina.

Tomaram o café da manhã num silêncio de incomodar as paredes. Mais tarde as irmãs chamaram a menina e explicaram o que acontecia. Era coisa da revolução, diziam. A garota sabia que tinha uma revolução, que os militares estavam no poder, só não sabia o que isso tinha a ver com a proibição de sair de casa. Aos poucos entendeu que a polícia política estava na cidadezinha em busca de subversivos – era esta a palavra – e que levaram muita gente presa, não se sabia para onde. As viaturas que ela vira eram dessa polícia, de uma cidade grande da região.

Na hora do almoço o pai voltou com mais notícias graves. Todos os estudantes universitários da comunidade tinham sido levados para interrogatório. As amigas das irmãs também foram presas. As irmãs só não tinham sido levadas porque ainda não cursavam a faculdade na cidade vizinha, mas correram risco porque freqüentavam o mesmo grupo de amigos.

A menina passou o dia a matutar sobre os acontecimentos. Pensava que a polícia servisse para prender bandidos, no entanto prenderam moças que trabalhavam e estudavam. Eram moças alegres e educadas. Quando se reuniam na casa dela, cantavam músicas de Geraldo Vandré, Chico Buarque e Caetano Veloso. Iam à missa todos os domingos, ajudavam nos trabalhos à população carente, alfabetizavam adultos. Será que isso era crime contra o novo governo?

No dia seguinte foi à escola, as aulas já retomadas depois do estado de sítio do dia anterior. Lá os cochichos foram grandes. Algumas crianças contaram que viram uma das amigas da irmã da menina ser levada ainda de camisola, chorando, para a viatura da polícia política. Disseram que a mãe da moça desmaiara ao ver a filha sendo brutalmente arrastada. Contaram até que a moça estava menstruada, ms a mãe não conseguira entregar o pacote de absorventes – os policiais não deixaram.

O assunto foi morrendo com o transcorrer dos dias, dos meses, dos anos. As moças nunca mais voltaram à cidadezinha. A menina cresceu, foi tomando consciência do país, da política, do que era viver sob uma ditadura. Sonhava com a democracia, a liberdade de imprensa, a volta dos exilados, o poder falar livremente, sem censura. Cantava Chico Buarque, Geraldo Vandré e Caetano Veloso. Entrou na faculdade. Lá soube de uma das moças: estava em liberdade, mas tinha medo de voltar à cidadezinha onde tinha sido dedurada apenas por ser estudante - jamais fora subversiva. Das outras moças não se sabia o destino. Foram vistas pela última vez num dos porões da ditadura.

A menina virou mulher, com sonhos diferentes, entremeados de pesadelos.



- Postado por: Neusa às 23:24:58
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Não sonho mais
Chico Buarque/1979
Para o filme República dos Assassinos de Miguel Faria Jr.


Notas 
Hoje eu sonhei contigo
Tanta desdita, amor
Nem te digo
Tanto castigo
Que eu tava aflita de te contar

Foi um sonho medonho
Desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha
E se urina toda
E quer sufocar

Meu amor
Vi chegando um trem de candango
Formando um bando
Mas que era um bando de orangotango
Pra te pegar

Vinha nego humilhado
Vinha morto-vivo
Vinha flagelado
De tudo que é lado
Vinha um bom motivo
Pra te esfolar

Quanto mais tu corria
Mais tu ficava
Mais atolava
Mais te sujava
Amor, tu fedia
Empestava o ar

Tu, que foi tão valente
Chorou pra gente
Pediu piedade
E olha que maldade
Me deu vontade
De gargalhar

Ao pé da ribanceira
Acabou-se a liça
E escarrei-te inteira
A tua carniça
E tinha justiça
Nesse escarrar

Te rasgamo a carcaça
Descemo a ripa
Viramo as tripa
Comemo os ovo
Ai, e aquele povo
Pôs-se a cantar

Foi um sonho medonho
Desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha
E se urina toda
E já não tem paz

Pois eu sonhei contigo
E caí da cama
Ai, amor, não briga
Ai, não me castiga
Ai, diz que me ama
E eu não sonho mais




- Postado por: Neusa às 23:23:16
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NÃO CANTA A DOR

 

A marquise da fábrica abandonada abrigava novos moradores. Foram chegando aos poucos, com seus carrinhos carregados de papel e papelão, seus cachorros e seus pertences essenciais para a sobrevivência. Cumpriam a mesma rotina dos moradores anteriores pois que viver, para os catadores de papel, é uma sina, mais que uma escolha.

 

As noites de sábado eram sempre dias de festa, quando alguns outros se chegavam e ali ficavam até a manhã de segunda-feira. Bebiam, repartiam o pão, o colchão e o cobertor, e às vezes até alguma alegria.

 

Naquela noite estavam particularmente festeiros. Uns companheiros trouxeram uma garrafa a mais da branquinha e, ainda, um violão com todas as cordas, inteiras e afinadas. A cantoria começou cedo, com todas as músicas que lhes vinham à memória.

 

A vizinhança ouvia o barulho. Alguns fechavam as janelas para não serem incomodados pelo som. Um ou outro prestava atenção nas notas bem tocadas, no ritmo contagiante do samba. Uma vizinha, mais atenta, observou com espanto – cantavam, como se sorrissem, um inacreditável refrão: “é a vida, é bonita, e é bonita!”.



- Postado por: Neusa às 00:22:54
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O Que É, O Que É.
(Gonzaguinha).

Eu fico com a pureza das respostas das crianças:
É a vida! É bonita e é bonita!
Viver e não ter a vergonha de ser feliz,
Cantar, e cantar, e cantar,
A beleza de ser um eterno aprendiz.
Ah, meu Deus! Eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será,
Mas isso não impede que eu repita:
É bonita, é bonita e é bonita!
E a vida? E a vida o que é, diga lá , meu irmão?
Ela é a batida de um coração?
Ela é uma doce ilusão?
Mas e a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é, meu irmão?
Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo,
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo,
Há quem fale que é um divino mistério profundo,
É o sopro do criador numa atitude repleta de amor.
Você diz que é luta e prazer,
Ele diz que a vida é viver,
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é, e o verbo é sofrer.
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé,
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser,
Sempre desejada por mais que esteja errada,
Ninguém quer a morte, só saúde e sorte,
E a pergunta roda, e a cabeça agita.
Fico com a pureza das respostas das crianças:
É a vida! É bonita e é bonita!
É a vida! É bonita e é bonita!



- Postado por: Neusa às 00:21:36
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Amigos, fiquei longe do meu blog e do blog dos amigos por problemas no meu pc.

Aos poucos estou conseguindo restabelecer algumas coisas e acredito que, em breve,voltarei a postar meus textos. Obrigada pelo carinho de todos. Beijos, meus queridos amigos!

 



- Postado por: Neusa às 00:19:13
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Hoje a homenagem vai para Tom Jobim:

Caminhos Cruzados

(Tom Jobim/Newton Mendonca)

 
Quando um coração que está cansado de sofrer
Encontra um coração também cansado de sofrer
É tempo de se pensar
Que o amor pode de repente chegar
Quando existe alguém que tem saudade de outro alguém
E esse outro alguém não entender
Deixe esse novo amor chegar
Mesmo que depois seja imprescindível chorar
Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar
Nas coisas do amor que ninguém pode explicar
Vem nós dois vamos tentar
Só um novo amor pode a saudade apagar

 



- Postado por: Neusa às 00:15:00
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