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OBSERVANDO CALÇADAS
II – Menina de Rua
Menininha tão sozinha
Espreitando admirada,
Equilibrada na calçada,
Cada carro que avizinha.
É tanta gente bonita
A desfilar apressada
E ela em sua desdita
Quer pedir mas não diz nada.
Aceita um doce, uma bala,
Uma roupa bem usada,
Um sorriso, até uma fala
Que lhe traga mesmo um nada.
Só precisa de carinho,
De um olhar iluminado.
Mas logo o farol se abre...
Todos partem, apressados.
Hoje, na volta do trabalho, soube que a favela onde a menininha mora sofreu incêndio. Passei pelo cruzamento e ela estava lá. Contou-me que seu barraco foi totalmente destruído.
OBSERVANDO CALÇADAS
I - Vendedor de amendoins
Ele vende amendoins na avenida engarrafada.
Seus sonhos também são assim: engarrafados na calçada.
Seus olhos, porém, escondem as lágrimas e as dores
E brilham como faróis, mais que os faróis, de tantas cores.
Vendedor de amendoins também vende sonhos aos passantes:
Deseja bons negócios ao executivo apressado, aos amantes
Vai cantarolando uma melodia suave, aos garotos que vão à escola
Diz que assim vão longe na vida. Assim é sua vida, todo dia, toda hora.
Todos já o conhecem... alguns esperam seu olhar atento,
Outros seu sorriso largo e branco, e mais alguém um cumprimento.
Poucos olham sua dor, quase ninguém pergunta seu nome.
O vendedor de amendoins não mais voltou ao seu lugar de todo dia.
Morreu sem que ninguém soubesse. Só a chuva que caía.
E alguém ainda perguntou: onde andará esse homem?
CANÇÃO DE (ME) NINAR
Você me ninava
Por entre as estrelas
Minha alma minava
Sonhos, poesias...
E dentro dos seus olhos,
Te amando, eu meninava.
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TEMPO
Sem hora para nada
A senhora não tem senha
Nem hora marcada.
O que ela queria
Eram cem horas num dia
Pra cumprir as suas penas.
O relógio, senhor do tempo,
Marca as horas pra senhora:
Vai deixando ir embora
O sonho,
A hora,
A vida,
Badalando seu lamento
Numa eterna despedida.
No Final da Brincadeira
(Roberto Menescal/Oswaldo Montenegro)
Deixa eu tentar
Mesmo que não seja o mesmo lugar
Mesmo que não seja a mesma canção
Deixa eu fingir que é possível tentar
Faz isso não
Não me conta que o destino escapuliu
Que não há como ir buscar o que partiu
Deixa o tempo andar pra trás
Tenta deixar
Que não seja como sempre será
Tudo igual ali no mesmo lugar
Vento morno ranço e desespero
Deixa estar
Não demora a gente volta a brincar
Como se o começo fosse voltar
No final da brincadeira
ARTES
A Marilza, sempre precoce, logo passou para a escola secundária. Ainda não tinha se acostumado com o sistema de notas de zero a dez. Pareciam-lhe bem pequenas diante das notas altas que tirava no curso primário e que eram computadas de zero a cem. Por isso aquele “dois” que tirou na primeira prova de música deixou-a perplexa, mesmo já tendo um histórico de não ser boa aluna em artes.
Ainda na aula, rasgou a prova, indignada. A colega do lado cochichou que a professora costumava recolher as provas no final do ano. Apavorou-se e passou o resto do período de aulas com aquela preocupação. A última aula era de Trabalhos Manuais. Ela também não era boa nessa matéria. Distraída, só pensando na prova rasgada, atrapalhou-se toda na tarefa e fez as colagens pior do que nunca.
Finalmente tocou o sinal da saída. Juntou seu material e, ainda com a prova rasgada no pensamento e o pensamento rasgado pela prova, esqueceu-se do primeiro dos vinte degraus da escada que levava ao pátio. Rolou escada abaixo, quebrando, na descida, o vidro de cola Saci que tinha usado na aula. Só parou no último degrau, com o queixo no limpa-pés. Levantou-se, mais nervosa do que nunca, porque a cola se esparramara na escada toda, nos uniformes das colegas e na sua própria roupa. Imaginou a bronca que receberia da inspetora de alunos que já vinha correndo, corredor afora.
Em vez da bronca a coisa foi pior. A inspetora decidiu que a Marilza tinha que ir ao Pronto Socorro acompanhada da vice-diretora, uma mulher sisuda que usava um casaco de couro. Só de imaginar-se ao lado daquela enorme mulher, corpulenta e de voz tonitroante, sentia arrepios na espinha. Era a mesma coisa que ser colocada lado a lado com o monstro que lhe aparecia em pesadelos.
De nada adiantaram as explicações que ela estava bem e não precisava de hospital. Foi colocada no carro da vice e, num piscar de olhos, estava na sala de emergência sendo atendida por um médico. A menina nunca fora antes a um hospital e tudo aquilo parecia-lhe um pesadelo. O médico confirmou o que ela já sabia: não tinha quebrado nada (exceto o caríssimo vidro de cola). Os arranhões do rosto poderiam ter sido tratados pelas mãos da mãe com a mesma eficiência.
Terminados os curativos, a vice-diretora perguntou-lhe se gostaria que ela a levasse para casa. Mais que depressa a Marilza disse que não, que poderia ir sozinha. E o medo da mulher começar a passar-lhe de imediato uma descompostura? E se a vice resolvesse contar tudo à sua mãe? Poderia ficar de castigo por uma semana! Repetiu categoricamente que não, que estava bem e iria sozinha.
No portão do hospital encontrou uma colega que juntara seus livros e cadernos, tendo inclusive colado as folhas rasgadas da prova de música. Amiga fiel, também estava ali para acompanhá-la até a casa. Na verdade, começaram a ser amigas naquele dia. Até então não se falavam. A Marilza agradeceu-lhe por tudo que fizera, principalmente por tê-la livrado da vice-megera. A recém-amiga fez então duas confissões: a primeira, que também era péssima em artes; a segunda, que a vice-diretora (aquela megera!) era a sua mãe.

NOITE
Sombreei o muro
Mundo cinza escuro
Penso solidão
Faísco rebelião
Dedos tateiam contornos
Desenho transtornos
Mudo destino
Transmuto desatino
Desperto – sol aberto
Paisagem, solo incerto
O mundo me visitou
Meu medo o chamou.

(DES) ARRUMAÇÃO
Chegou a nova estação:
Tempo de recolher.
Agora tudo é em vão
(Posso até esconder).
Guardo o afeto
Na última gaveta
Tranco a saudade
Numa linda maleta.
Seu olhar, envolto em plástico,
Bem no fundo do armário.
O seu verso, tão enfático,
Já sem sentido, fica junto, esquecido.
Nada mais é como era
(mas, e se voltar a primavera?).
ELEMENTO VAZADO
Transbordei feito açude rompido:
Invadi seus medos, suas metamorfoses,
Seus preconceitos, seu orgulho desmedido.
Desrespeitei leis e limites,
Rompi seu mundo equilibrado e falso.
Ignorei regras, até desfiz sua pose.
Nada mudou: o rio transbordou inutilmente.
O terreno continua árido, apenas adornado
De coisas artificiais.
TEMPOS MODERNOS
Tome o seu calmante,
Depois o estimulante,
Malhe, malhe bastante,
E siga sempre adiante.
Pinte unhas e cabelos
Depile todos os pelos
Não repare os infelizes,
Você nem precisa vê-los.
Faça a nova maquiagem,
Tire o carro da garagem.
No espelhinho a sua imagem
É você mesma, que bobagem!
Roupa em moda da butique,
De todas a mais chique!
Se você não arrasar
Certamente terá xilique.
Meia-noite, Cinderela...
Só você! E o mundo pela janela
Da sua alma está vazio. Feito a panela
Daquela criança que você pensou: magrela!
MARISA-NATUREZA
Ontem, dia 09 de agosto, minha irmã Marisa fez aniversário. A Marisa é a irmã-universal. Inteligente, sacada, mística, irônica, bem humorada, sorriso largo e franco, são algumas das suas qualidades. O seu riso é contagiante e sempre faz a gente rir muito, mesmo (e principalmente) quando estamos tristes. Escreve poemas belíssimos, sofisticados, perfeitos na forma e no sentimento. Ama a natureza (que ninguém se atreva a matar um inseto sequer na presença dela!) e com especial ternura as árvores. Tem uma legião de amigos em vários cantos do planeta e sempre está sintonizada com eles. Os amigos também não a deixam sozinha, jamais. Tem sempre alguém que lhe telefona ou chega em sua casa, inesperadamente e sempre no momento certo. São amigos fiéis, assim como ela também é leal nos seus relacionamentos.
Se tivesse que definir esta minha irmã em poucas palavras eu diria que ela é “natureza”. Tem seus ciclos: as estações do ano; tem o equilíbrio, a beleza, a sabedoria, a exuberância e a simplicidade da mãe-natureza.
Marisa, bem que eu quis fazer uma homenagem à altura do seu tamanho como ser humano, mas não consegui, você bem vê! Só saiu um comparativo, simples mas verdadeiro. Deixo aqui meu carinho imenso por você, meu agradecimento pela força que sempre me dá, e mais que nunca peço a Deus que abençoe sempre seu caminho. Muita luz, muita paz e muita, muita alegria nessa nova fase da sua vida. Amo você, minha irmã querida! Um grande beijo!
VELHA ÁRVORE
Contorcida, retorcida,
Deixou-se ir secando.
As raízes, já sem vínculo,
Também desdenhavam a vida.
Lá no alto, alheio a tudo,
Um pequeno ramo, um sonhador,
Tecia folhas, preparava flores...
Esperava, quem sabe, um beija-flor.
Ilusão, talvez uma quimera,
O pássaro chegado roçou a flor,
Sugou seu mel e disse adeus.
Sequer se revelou: seria ou era?
O ramo sonhador, contrariando a primavera,
Não despertou naquela estação.
Soltou-se ao primeiro vento
E caiu lentamente, até `a terra...
(fotografei minha ilusão)
FRAGMENTOS DE DESAMOR
Seu medo, seu drama
seu querer, sua trama
seu amor que me engana
eu fiquei, você passa
(que coisa sem graça!)
A dor: meço
adormeço a dor
ameaçador
medo da dor
dor de adormecer
sem medir a dor
Você cala - eu consinto
devagar não irei longe
vou semeando ventos
que arrancam seu traje
de monge.
Para uma pessoa muito querida, a letra de uma música linda. Estou tentando colocá-la como midi de fundo no blog, mas não sei quando conseguirei.
As Rosas não Falam.
(Cartola)
Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão, enfim...
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim.
Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem as rosas não falam,
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai...
Devias vir para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe sonhavas meus sonhos, por fim...
INDAGAÇÕES
Ficar calada e
Ouvir a vida?
Ou virar vida
E revirar a vida?
MARILDA
Hoje é aniversário da minha irmã Marilda. Telefonei a ela logo pela manhã, ansiosa por cumprimentá-la. Como sempre que nos falamos, quem ganhou o presente fui eu. Ouvi sua voz suave, senti o carinho que ela tem por nós, a força que me passa sempre que conversamos. A Marilda é assim: serena, forte, doce, lutadora, vencedora, mesmo!
Como todas as irmãs, ela tem nome composto: Marilda Augusta. O “Augusta” acabou sendo uma marca da Marilda. Sua suavidade faz com que ela tenha um caminhar e gestos elegantes, uma fala mansa e musical, enfim, todas as qualidades de uma mulher de classe. Os sobrinhos mais novos, sem saber direito explicar como é a tia Marilda, sabem, por intuição, quem ela é. E a chamam de rainha. Rainha Marilda!
Acima dessa imagem, tem o caráter dela: sincera, sensível, honesta, forte, sempre disposta e pronta para ajudar. Se tivesse que descrevê-la com substantivos, acho que um só resumiria tudo que ela é: dignidade!
Marilda, você é uma pessoa linda! Desejo que Deus a conserve sempre abençoada, sempre bem protegida, e que Ele lhe traga a cada dia um novo sorriso, uma nova alegria. Você sabe o quanto nós, suas irmãs, a amamos e admiramos.
Parabéns pelo seu aniversário. Que o seu presente seja receber em dobro tudo que você já fez por nós e por tantas outras pessoas.
Um beijo, minha irmã, amo você muito!