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Histórico:
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OFERENDA:
Deixo para você minhas palavras.
Aceite também o carinho da música.
É música de fundo, suave...
A ela junto meu carinho profundo.
DES(A)TINO
Me fere
A ferida
Confere
Minha vida
Transfere
A partida
Me deixa
Esquecida
Ainda assim
Eu peço
Que me adoce
Me adote
Tome posse
Do que é seu.
DESENCONTROS
Minha solidão que te procura
Entre hastes torcidas
De flores aventureiras.
Meu medo que percorre
Teus caminhos tortuosos
Tateando um ponto de encontro.
Tua mão que a mim se estende
Ora se fecha em silêncios
De palavras interrompidas
- adormecidas –
Retomo a senda, tateio o rumo
Dos teus versos tartamudos:
Ora te encontro, ora te perco.
Me desfaço da couraça:
A ti me rendo, nua
Das correntes do medo.
Inútil ato de coragem...
Não me reconheces
Quando te envolvo entre meus dedos.
ESPERANÇA
Boca salgada
- sal das lágrimas
Boca adocicada
- palavras de perdão
Boca amarga
- o Não que sufoca o Sim
Boca acre
- sorriso tolhido
Boca endurecida
- palavras de pedra que atirei
Boca entreaberta
- espera de um sinal
Boca de poeta
- sonhos das palavras
Boca - coração
Sempre à espera da tua boca
(união)
DE (S) ENLACES
Ele disse palavras frias
Ela tentou aquecer com meias-palavras
As meias não aqueceram
E as palavras ficaram pela metade.
O beijo ficou suspenso
Os lábios estavam cerrados
O gesto estancou no ar
A mão não completou o carinho.
Inconseqüente, a flor se abriu
Despudoramente.
Beijou os amantes,
Entrelaçou-lhes as mãos,
Teceu com meias palavras frias
Um manto de versos
A unir dois corações.

HISTÓRIA DA CIDADE PEQUENA
Moça bonita, faceira, prendada. Tinha, entretanto, suas manias – cismas, como ela mesma dizia. Na cidade pequena tudo circulava rapidamente, de boca em boca - até as cismas de Eulália.
Contavam que certo dia ela cismou que não devia apagar o fogo do leite que pusera a ferver. O leite derramou-se todo, a leiteira ficou feito carvão e ela parada, paralisada, só olhando. Já acontecera também de cismar que era uma estátua:.permanecera imóvel, o queixo apoiado nas mãos, por horas a fio. Havia também cismas mais corriqueiras, como não usar sapatos num determinado dia, ou ficar alguns dias sem falar com ninguém.
Nada a tirava desse estado de torpor nas crises de cisma. Fora das crises, porém, era uma moça normal, de comportamento comum. Até se apaixonou por um colega de escola. Ele não correspondeu, cismava com as cismas da Eulália.
Amor não correspondido doía e a moça passou a cismar mais freqüentemente. Um dia era um gato. Miou horas a fio e só tomou leite. Enroscada na cadeira, seus olhos lembravam mesmo os de um gato.
Naquela manhã de setembro, a Eulália demorou a sair da cama. A família não se incomodou. Deveria ser outra cisma. De repente vêem a moça meio que rastejando pelo chão. Nesse locomover-se saiu pela porta da cozinha, atravessou o quintal e foi rastejando até a beira do rio. Algumas pessoas a chamaram, mas ela continuou. Seus movimentos pareciam os de um peixe querendo voltar ao habitat.
E fez exatamente assim. Entrou na água e foi deslizando feito peixe. Não nadava, apenas deslizava na água, como se procurasse algo, indo cada mais longe, cada vez mais fundo. Aos poucos foi sendo levada pela correnteza e também se aprofundando na água, até desaparecer. Não houve tempo para o socorro. Quando conseguiram retirá-la do rio já estava morta.
Em seu quarto encontraram algumas folhas desenhadas. Todos os desenhos eram de um casal de peixes. Na folha maior, um dos peixes tinha a fotografia três por quatro de Eulália colada na cabeça. O outro peixe, um pouco maior, tinha a fotografia do colega de escola por quem ela se apaixonara. Ambos estavam no fundo de um rio, se beijando.
MINHA IRMÃ ANGELA
Quando crianças brincávamos de casinha, as bonecas eram nossas filhas e tínhamos um marido que nunca estava presente nas nossas brincadeiras. Ângela e eu criávamos uma família e uma casa de fantasias, onde tudo era lindo e perfeito. Tomávamos o chá da tarde e falávamos da beleza de nossas filhas-bonecas.
Crescemos, tivemos muito do que sonhamos nas brincadeiras de infância. Hoje ainda falamos de nossos filhos, tomamos nosso chá da tarde quando nos encontramos em Assis e ainda temos dentro de nós as fantasias. Somos cúmplices em muitas coisas: alguns projetos, alguns sonhos, alguns poemas.
Ângela é uma pessoa difícil de definir. É multifacetada, mas cada faceta é mais bela que a outra. É uma pessoa sincera, clara e transparente. É batalhadora, mesmo quando tudo parece estar perdido. Tem uma clarividência que só os puros de coração sabem ter. Tem a sensibilidade e a alma de poeta. Tem a garra dos guerreiros de antigamente e a doçura dos anjos de todo o sempre. Tem a sabedoria dos livros e a sabedoria da intuição. Sabe chorar a dor escondida de todos, mas sabe rir até às lágrimas para todos verem.
A todas essas qualidades veio juntar-se, na maturidade, a veia poética. Começou a costurar sua Colcha de Retalhos com alguns pedaços emprestados. Aos poucos foi tecendo, ela própria, o material a ser usado na colcha. É uma peça artesanal, não sabemos quanto tempo levará para terminar. Reconhecemos, porém, que cada pedaço costurado na Colcha traz uma nova beleza, nova textura, novo desenho.
Minha irmã Ângela revelou-se uma artista com as palavras. Neste 13 de setembro tentei fazer esta homenagem a ela pelo seu aniversário, mas as palavras saíram tortas, pobres, despidas da roupagem lírica e do amor que tenho por ela. Só posso dizer, de todo coração:
FELIZ ANIVERSÁRIO, ÂNGELA! Que Deus te faça muito feliz, te recompense pelas tuas qualidades e pelos teus atos de amor à vida, ao ser humano e à natureza. Te amo e sou feliz por ser tua irmã, por sermos ainda – hoje - amigas, cúmplices, solidárias e sonhadoras.

O RUMO DA ROSA
A rosa
Arrasou a roseira:
Rompeu faceira
O rumo reto do muro
Rasgou, num rito,
O rigor do escuro
Raiando em brilho
Reinando em cores
(O)dores de amores
A rosa
(o que restou do jardim)
Riscou os rios de erros
Refez o raiar do dia
Renasceu na poesia
E ressurgiu em mim
INÚTIL PARTIDA
Bateu a saudade em todos os poros.
Melhor fazer as malas, ir embora
Pra uma terra de cores, sem dores,
Levando a essência, deixando amores.
Tudo pronto, a esperança no ponto,
Na mala apenas o rosto do encontro,
O mapa de uma outra caminhada,
Início e fim de estrada, mais nada.
As outras lembranças, boas ou más,
Jogadas pela janela, ao vento,
Parecem aquele tempo: fugaz.
Malas fechadas, tanto desalento!
Partir, já sei, não me trará a paz.
Te levo na mala do pensamento.
DELÍRIO
Semear estrelas
Com os dedos de saudade.
Colher a lua
Num arroubo de ilusão
Plantar o sol
Nos olhos de paixão
Verter a chuva
Na palma de tua mão
Desrespeitar o universo
Aproximar o horizonte
Pra inserir-te no meu verso
E te ter
Por um instante
TEMPO DO ADEUS
I
O tempo passa
No compasso
Da espera.
Eu me desfaço
Em sonho, em hera,
Vagando no espaço,
Estrela de outra era.
II
Nem você, nem eu,
Nem nós,
Nem laços,
Nem sua, nem meu.
Sua voz,
Seus braços,
Já disseram
Adeus.
OBSERVANDO CALÇADAS - III
Menina dos olhos de súplica, parada no farol. Sorriso de anjo, olhos de inocência. Pede uma bala ou um doce. Alguns motoristas olham com desdém e viram-lhe o rosto. Outros aproveitam para questionar a responsabilidade social do governo.
A criança não entende conceitos de governo, muito menos de responsabilidade social. Sabe que precisa cumprir sua jornada: ir à escola, fazer a lição de casa, cuidar dos irmãos menores e ajudar nas tarefas de casa. Balas e doces são extravagâncias, não existem em sua mesa. Mas ali, no farol, sempre tem quem lhe dê uma ou outra coisa. Por isso fica ali, das oito às dez da manhã.
Alguns motoristas já a conhecem. A moça do carro azul passa ali todos os dias e gosta de conversar com ela. Sempre lhe dá biscoitos, balas, roupas. Quando terminou a quarta série, ganhou da moça um presente. Foi a primeira vez que ganhou um presente - e veio com papel bonito e fitas, igual tinha visto em folhas de propaganda.
A menina fica no mesmo cruzamento, todas as manhãs, esperando passar a moça do carro azul. As duas gostam de conversar. A menina escuta os conselhos, fala da sua vidinha simples e sofrida. A moça ouve com atenção, tenta orientá-la para os perigos da rua, da abordagem de pessoas perigosas. Olha com carinho a criança tão inteligente, tão pobre e tão cheia de sonhos. A criança olha a moça com carinho - gosta daquele olhar maternal e protetor.
Na verdade, ambas se buscam todas as manhãs. Uma precisa ver se os sonhos continuam brilhando nos olhos da criança. A outra precisa ver se nos olhos da moça ainda existem amor, compreensão e respeito. O tempo entre o fechar e o abrir do farol é suficiente para que as duas se dividam e se completem.
FRAGMENTOS DE DESAMOR - II
CORTINA
Abri as janelas da vida
Tudo estava em seu lugar
Nada lembrava a partida
Sequer a lágrima a rolar
FAXINA
Espanei a saudade
Esfreguei a solidão
Dei lustro à verdade
E vi seu reflexo no chão.
SINA
Sozinha,
Sonhei o seu sonho.
Baixinho,
Embalei o teu sono.
De mansinho,
Amenizei o seu medo.
Hoje,
Sozinha,
Assisto ao desenredo.