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GRITO
Palavras que não foram ditas, palavras que me chegam no silêncio de cada dia.
Desculpe-me a ausência
E essa falta de tempo,
O excesso de contratempos
Sem poder mais contemporizar.
Desculpe-me pela solidão
Que impinjo sem notar,
Por ferir quando quero agradar.
Desculpe, eu não vim pra ficar.
CONDENAÇÃO PREVISTA
Me visto de nudez:
Me exponho
Ao julgamento
Despojada dos véus
Que jamais me cobriram.
Revelo a minha essência:
Não há qualquer diferença
Entre a minha aparência
E o que eu sou – coerência.
Mas você insiste
Em me cobrir de palavras
E me vestir de rótulos.
-Condenou-me a ter
Mais que o verbo ser
Espera
I
Pintou os olhos
Com o azul da paz
Pintou as unhas
Com o vermelho do amor
Pintou os cabelos
Com o dourado dos trigais
Vestiu-se de arco-íris
E sentou-se na nuvem
- calmamente –
enquanto ausenciava
em todas as matizes
II
Sua eterna espera:
Passam-se as primaveras
E todos os outonos.
É sempre véspera!
III
Num átimo
Um relâmpago.
Trêmula
Pálida
Lamentou
Lúcida
O lúdico
Interlóquio
AMPLITUDE
(Meu olhar largo e profundo vasculha todo seu mundo)
Porque meu coração muitas vezes quer voar,
Mas os pés teimosamente se fincam na terra
Qual raízes centenárias:
Maculam o chão molhado
Pela última tempestade,
Deixando suas marcas impiedosas
Na lama sagrada.
Porque meus pés são a razão
Soterrada por lavas incandescentes.
Porque meus olhos são a contradição
De tudo que foi regrado
De tudo que foi sagrado.
Porque meus olhos se vestiram
Em forma e cores de um coração
Subiram além do horizonte,
Limite da razão,
E se queimaram ao sol nascente
E ao sol poente.
E ao te encontrarem
Romperam a inutilidade das raízes,
Corajosamente,
E sobreviveram sem âncoras ou amarras.
E flutuaram no espaço,
Teimosamente,
Acompanhando os teus passos.
RE-VIVER
Meus olhos
Não são mais os mesmos.
Trazem na retina as cores
De paisagens desconhecidas
Mas já sonhadas.
Minhas mãos
Não são mais as mesmas.
Trazem a textura suave
De carinhos até esquecidos
Mas já ofertados.
Meus lábios
Não são mais os mesmos.
Indóceis, só me trazem
Palavras doces e ternas
Mas já pronunciadas.
(esperam que as janelas se abram
e acolham as cores, os carinhos
e as palavras)
CENAS DO COTIDIANO – III
FINDA VIDA
A cor do velho
Me assusta:
Lábios de neve,
Olhos de romã.
Acordo o velho,
Mas não há acordo:
Insiste na letargia,
Não quer ver o amanhã.
Olhos cansados já
Não se abrem mais.
O corpo estancou,
Arriou sem um ai.
Oração de revolta,
Às pressas a multidão
Por um se segundo se volta
E olha o velho no chão.
Logo chega o caminhão
Que promete felicidade.
O velho, esquecido no chão,
Lembra até serenidade.
A multidão segue o caminhão
E o velho a eternidade.
(Poema de um dia triste, quando assisti a morte do mendigo, por inanição, e vi as pessoas abandonarem a cena para assistir ao sorteio de duas motos).
FATO CONSUMADO
Não quis mascarar,
Não quis mais calar
O jorro dos sentimentos
-vazou em consentimento.
Abriu as cortinas da alma,
Tropeçou nas cores de setembro.
O sopro na janela tinha sabor
Doce de turbulência.
Quietude e turbulência
Nos encontros, nas ausências.
Intervalos de destino
Cumprido em anuência.
Amou o fogo e bebeu o vento
-embriaguez de um momento
único, último e primeiro.
E brindou ao destino (sorrateiro)
RENASCENDO
Me decomponho em versos
Me revelo em velhas frases.
Meus sentimentos, fatiados,
Expostos nesta vitrina.
Não te contesto,
Apenas me professo
No Ângelus, nas Matinas,
Nos madrigais dos tempos idos.
Minha alma, fertilizada,
Brota em bela floração.
Me renovo em rara rosa
E retomo minha rota
- rompida no desvão
De um longínquo dia inútil.
CHICO BUARQUE (sempre) SEM FANTASIA Vem, meu menino vadio,Vem, sem mentir prá você.Vem, mas vem sem fantasia,Que da noite pro diaVocê não vai crescer.Vem, por favor não evites,Meu amor, meus convites,Minha dor, meus apelos.Vou te envolver nos cabelos,Vem perder-te em meus braçosPelo amor de Deus.Vem que eu te quero fraco,Vem que eu te quero tolo,Vem que eu te quero todo meu. Ah, eu quero te dizerQue o instante de te verCustou tanto penar.Não vou me arrepender,Só vim te convencerQue eu vim prá não morrerDe tanto te esperar,Eu quero te contarDas chuvas que apanhei,Das noites que vareiNo escuro a te buscar,Eu quero te mostrarAs marcas que ganheiNas lutas contra o rei,Nas discussões com Deus,E agora que chegueiEu quero a recompensa,Eu quero a prenda imensaDos carinhos teus.