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Alma (em tempo)
Pensou em lembranças, mas eram dez horas da manhã, horário de pico no trabalho.
Pensou em sentir saudades, mas não tinha tempo: onze horas, tinha reunião com clientes.
Pensou em sentir raiva, mas era tarde: quinze horas, e o relatório ainda não estava pronto.
Pensou em esquecer, mas já era tarde: meia noite, e o amor não morrera. Estava em seu peito, sobressaltando!
Ponteiro certeiro:
Fez todo o percurso
E, sem me consultar,
Parou na hora exata
Que você tomou posse
De tudo que já não era.
Agora não mais anoitece
Nessa eterna primavera.
Neusa - janeiro/2005
DE AMOR E DE PAZ
Olhou-se demoradamente no espelho. Nada mais lembrava a Maria de tempos atrás. Também não sentia saudades do que já não era. Já não morava nas nuvens, deixando-se ir ao sabor do vento. Alguma estrela despontara no céu e ela seguiria aquela estrela, mesmo quando o dia se fizesse noite, mesmo que as antigas nuvens tentassem cobrir a luz.
Sentiu o sangue correr mais forte pelas veias, num ritmo frenético de quem tem pressa de viver. Os olhos ganharam um brilho diferente, num tom de terra plantada, coberta pelo verde da vida.
Afastou uma mecha de cabelos. Nada mais encobriria o seu olhar.
Pegou uma flor de lisianto e prendeu-a aos cabelos. Do outro lado, enfeitou-os com uma rosa vermelha. Assim vestida, de amor e de paz somente, postou-se à janela. Encontrou sua estrela - brilhante, sempre presente. Distante, é verdade, mas iluminando e encantando.
Despiu-se para a estrela. Como num ato de amor e comunhão, foi retirando lentamente dos cabelos a flor de lisianto e a rosa vermelha. Beijou-as com ternura, olhou a estrela distante e entregou-lhe as flores.
Neusa / janeiro/2005

DE MIM PARA COMIGO
Hoje eu me telefonei logo de manhã.
Me acordei e me sorri, admirando o sol.
Me sacudi, me coloquei frente ao espelho,
Joguei fora os olhos vermelhos.
Me despi, me feri, me atingi,
Para que assim eu pudesse,
Enfim,
Me ressurgir, me resgatar,
Me aplaudir e me aceitar.
Porque é hora de renascer,
É hora de brotar,
É hora de voltar!

TIKUM
Pensou que não fosse doer. Difícil era um adeus repentino, inesperado, feito uma tempestade que chega sem anunciar. Mas não aquela despedida feito garoinha fina, que vai e volta, que parece nunca ter fim. Era um adeus previsto, anunciado mesmo, nas longas ausências e nos silêncios que cresciam e invadiam todos os espaços.
Preparou-se para não sofrer. Enganou-se. Bebeu o sofrimento de um gole só, acreditando que seria menos indigesto. Novo engano. Vomitou um copo inteiro de desamor, vermelho como o sangue que parara de correr em seu corpo.
Enfraquecida, deitou-se na primeira nuvem trazida pelo vento. Deixou-se levar durante dias e noites, alimentando-se de lua minguante e de cada pôr de sol que fechava o dia. Aprendeu a minguar feito a lua, a apagar cada dia que teimava em nascer.
Um dia a nuvem engravidou e a chuva deveria ser parida. Ela não reagiu. Deixou-se ir junto, pingando na terra seca, encharcando desertos e lavando montanhas. Líquida, empoçou em meio à secura das velhas árvores desistidas de dar sombra. Esqueceu-se ali por verões e primaveras.
Num dia de inverno brotou, não se sabe porquê. Deu à luz do sol um lisianto, flor de suave perfume. Tinha a paz e tinha o cheiro da paz. Mudou seu nome. Nunca mais seria Maria. Agora passara a chamar-se Tikum.
Neusa – janeiro/2005
Sem serenatas nem estrelas
Solidão:
Pedaço da minha alma
Escondida no horizonte
Onde desponta um sol
De inverno.
Um raio de chuva
Trouxe um pingo de sol:
Reflexo da esperança
Que apenas faiscou
Nos meus olhos.
III
Nascendo
No sol poente
Meus sonhos
Caindo
Na chuva quente
Neusa – janeiro/2005

Homenagem a Lindolfo
Tem coisas que precisamos comemorar, que não podemos deixar passar em branco. Como o aniversário do Rasuras, que faz um ano neste mês de janeiro.
Tenho que agradecer a todos vocês, leitores, que me estimularam com sua presença, seus comentários, seu apoio. Agradeço em especial a minhas irmãs, sempre presentes e colaborando com idéias, sugestões e elogios nem sempre merecidos!
Existe uma pessoa, em especial, a quem devo agradecer: Lindolfo, do http://linteratura.zip.net. Foi ele quem me apresentou o mundo dos blogs, quem me incentivou a ter um, a escrever sempre e cada vez mais. Comecei escrevendo crônicas, que só eram lidas por ele e algumas das minhas irmãs. Ele ensinou-me a apurar a técnica, a não ter medo de escrever. Passei, depois, a escrever poemas, onde me encontro mais, e ele continuou sempre presente, com seu carinho e incentivo. Incentivou-me, também, a participar do primeiro concurso literário de minha vida. Inscrevi-me sem muita fé, apenas atendendo seu pedido. O poema inscrito foi selecionado e publicado numa antologia em dezembro de 2004.
Hoje o filho “Rasuras Sobreviventes” já não vê o “pai” com tanta freqüência. Este sabe que o filho deve seguir seu caminho sem dependência, em vôos solos e por vezes arriscados, mas já apto para voar.
Obrigada, de coração, Lindolfo! Obrigada por todas as lições que me ensinou, pelo muito que sempre me ensina sobre as pessoas, sobre as coisas e sobre a vida. Sobre a arte de viver bem, de ser humilde, de saber olhar e enxergar o próximo, pois somos todos uma só família. Obrigada por ser essa pessoa maravilhosa, de muita sensibilidade e muito caráter!
Lindolfo é jornalista, escritor, poeta, e tantas coisas mais que não caberiam neste espaço. É acima de tudo um ser humano especial!

DES(A)TINO II
Colocou ali os seus tesouros:
Toda a ternura acumulada,
Um pouco da longa espera,
Um sonho de primavera,
A verdade revelada,
Uma lágrima rolada.
No estojo esculpido de saudade,
Forrado de solidão e inverno,
Tentou trancar a esperança.
O cansaço da longa espera
Envelhecera seus dedos:
Trêmulos, desencontrados,
Trocaram o esperado -
Trancaram a dor e a ausência
E libertaram um sonho,
Uma quimera
(uma nova espera).

Irene
Sempre serena, lenço na cabeça,
Olha o fogo como olha o filho,
Cuidando para que permaneça.
Olha o fogo, olha o tempo,
Espia a vida pela janela,
Enquanto a fumaça da chaminé
Desenha as mesmas imagens
Projetadas no balé das nuvens.
Um olho no fogo,
Um olho no filho, um olho no tempo:
Adivinha se é chuva ou só vento
Aquele rodopio de nuvens.
Fica mais forte - é temporal -
Melhor correr para o quintal.
E os braços cortam a lenha
Com a mesma energia que conduz a vida.
E retorna ao fogão: vai preparar a comida
E continuar o ritual. Escolhe a lenha,
E a toalha de mesa mais branquinha,
Em volta de si toda a família
Na oração de todo meio-dia.
Depois vem a tarde.
Mais uma vez o preparo da comida
E ela funde a vida, que confunde as lembranças
Enquanto o fogo funde a lenha.
Vai cantando, mexendo a panela:
Hora de chamar as crianças...
Depois a paz repousa nos olhos dela -
Cumpriu a missão do dia,
Mas mantém aceso o fogo
Como mantém a fé na vida.